Sabor de Kieslowski em ‘United States of Love’: surpresa na briga pelo Urso de Ouro

Sabor de Kieslowski em ‘United States of Love’: surpresa na briga pelo Urso de Ouro

Rodrigo Fonseca

19 de fevereiro de 2016 | 18h40

"United States of Love"

Dorota Kolak é a professora do Russo Renata em”United States of Love”: amor não correspondido pela vizinha

Saca Kieslowski, de A Dupla Vida de Véronique (1991), e outras delícias? Pois então… United States of Love, filme do polonês Tomasz Wasilewski, exibido hoje nos 45 minutos do segundo tempo na disputa pelo Urso de Ouro do 66º Festival de Berlim parece filme do Kieslowski, os melhores dele. A angústia que ele deixa é igualizinha a que Não Matarás (1988) dava na gente. Realizador do drama homafetivo Arranha-Céus Flutuantes (2013), Wasilewski é um cineasta de 35 anos que tinha apenas 9 quando a Polônia passou por uma reestruturação econômica sob os ecos do fim do regime soviético. Morava numa casa com mãe, irmã e amigas de ambas. Os códigos do feminino governam seu olhar de mundo e, a partir deles, foi cerzido este que é o mais uterino dos concorrentes ao troféu máximo do certame berlinense. Temos quatro protagonistas, um antagonista (a solidão, esse bicho safado) e um destino (o vazio).

Numa estrutura narrativa quase episódica, que se desliga de uma personagem e salta para outra sem dizer adeus, começamos com uma mulher infeliz no casamento, de olho em um padre. Depois, caímos no colo de uma diretora de escola apaixonada por um homem casado. Por fim, damos as mãos a uma professora de Russo cujo coração bate por uma vizinha. E esta, a quarta mola propulsora da trama, sonha virar modelo e faz o que pode para isso, até se deixar fotografar por quem não presta.

Agata (Julia Kijowska) é casada mas gosta de um padre

Agata (Julia Kijowska) é casada mas gosta de um padre

Não há como desgrudar um segundo do discurso sobre a errância dos afetos que Wasilewski construi com uma fotografia de cores esmaecidas. Sente-se o trágico ao redor, mas ele não chega quando a gente espera. Tragédias supõe descabelamento, joelhos ao chão, berros… Aqui, não. Aqui é cinema polonês roots, com a frieza habitual que os cineastas flagram numa tentativa de – pelas vias da transcendência de olhares e de gestos – expor a dor por sobre o silêncio e a retidão. Não é Ida, carro alegórico que recebeu fogos de artifício há um ano por seu exibicionismo fotográfico. A coisa aqui é séria: é uma observação minuciosa do desconforto, da azia sentimental de esperar o que não se tem (e não chegará).

Houve quem se incomodasse (e até vaiasse) na Berlinale a exposição sem pudor que o filme faz de corpos das mais variadas idades, a despeito da flacidez, das gordurinhas. Para inventar cicatrizes do coração e da alma, Wasilewski precisa exumar pele e carne. O resultado é um espetáculo incômodo, mas vivo, digno de um prêmio de direção.

"The Commune": excelência dinamarquesa

“The Commune”: excelência dinamarquesa

Parece que ninguém tira o Urso do documentário Fuocoammare, de Gianfranco Rosi. Mas se o júri presidido por Meryl Streep for sagaz e quiser marcar um gol simbólico, vai eleger o filme que mais investe na esperança, ao falar do mais genuíno dos amores: a amizade. Trata-se de The Commune, do dinamarquês Thomas Vintenberg, um dogma dos afetos com base na experiência de um grupo de amigos vivendo juntos numa casa na Dinamarca dos anos 1970. Tem riso, choro, atuações magistrais e Elton John. Coisa melhor do que ele, a Berlinale não viu. Faço figa.

p.s.: Um golaço da Imovision nas nossas telas: a distribuidora de Jean-Thomas Bernardini vai lancer aqui em março o filmaço Conexão Francesa (La French, 2014), de Cédric Jimenez, sobre a operação antidrogas retratada por Hollywood no cult de 1971  Operação França, de William Friedkin. Jean Dujardin vive o juiz que tirou o sono da bandidagem da França numa operação antinarcóticos. A produção vende 1,4 milhão de ingressos em seu país de origem. É ação da melhor qualidade.

Conexão Francesa La French

p.s.2: Fiquem ligados que A Bruta Flor do Querer está chegando aí para tirar a caretice do cinema nacional. Laureado com o troféu Kikito de melhor direção no Festival de Gramado em 2013, pela contundência de seu olhar sobre a rebeldia juvenil e inédito até hoje, o longa de Dida Andrade e Andradina Azevedo, enfim vai ganhar espaço em circuito. Ainda neste primeiro semestre, a saga de um jovem cineasta (vivido pelo próprio Dida) obrigado a fotografar casamentos para pagar as contas entra em circuito. É virulência pura.

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