Ryusuke Hamaguchi faz girar o Festival do Cairo

Ryusuke Hamaguchi faz girar o Festival do Cairo

Rodrigo Fonseca

26 de novembro de 2021 | 09h23

Aos 42 anos, Ryusuke Hamaguchi ganhou o Urso de Prata da Berlinale como expressão do Grande Prêmio do Júri do festival alemão, dado a seu “Roda do Destino”, que estreia aqui em janeiro

RODRIGO FONSECA
Só dá Ryusuke Hamaguchi, principalmente quando o assunto é cinema de autor de sucesso, e, em especial, quando se fala nos eleitos para uma a disputa por uma vaga à competição do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2022. Entre março e julho deste ano, o cineasta japonês de 42 anos, nascido em Kanagawa, teve um desempenho invejável na História do audiovisual, em anos recentes, com uma produtividade que só o sul-coreano Hong Sangsoo tem igual. Ele teve um par de longas-metragens lançados em dois dos maiores festivais do planeta – a Berlinale e Cannes – e saiu da Alemanha com o Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri), por “Roda do Destino” (“Wheel of Fortune and Fantasy”), e do balneário francês com a láurea de melhor roteiro, dada a “Drive My Car”. Este último foi o longa escolhido pelo Japão para representar aquele país na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele ainda escreveu “Wife of a Spy”, que rendeu o prêmio de melhor direção a Kiyoshi Kurosawa no Festival de Veneza, em setembro de 2020 – o longa chega agora às telas da França, com forte expectativa comercial. Em setembro, Hamaguchi passou com o par de títulos que dirigiu pelo 69º Festival de San Sebastián, na Espanha, e, em outubro, bateu ponto na Mostra de São Paulo. Agora é a vez do 43º Festival do Cairo, que começa nesta sexta, no Egito, com uma sessão de “Competencia Oficial”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat.
“Viver é um exercício de interação e de integração de representações que a gente busca tornar o mais orgânico possível”, disse o cineasta ao P de Pop, antes de concorrer em Berlim.

Seu país consagrou Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizogushi, Tazuko Sakane, Mikio Naruse, Nagisa Oshima, Kinuyo Tanaka, Shôhei Imamura, Hayao Miyazaki, Naomi Kawase, Hirokazu Koreeda, Makoto Shinkai, Takashi Miike e muitos titãs das telas. Hamaguchi agora há de se colocar perto desses gigantes. Seus dois belos trabalhos vão passar pelo Cairo daqui até o dia 5 de dezembro, quando o júri presidido pelo diretor sérvio Emir Kusturica avalia uma série de produções de diferentes pátrias. Em “Drive My Car”, Ryusuke estabelece diálogo com a prosa de Haruki Murakami, um dos maiores escritores da atualidade, em uma narrativa longa, de 179 minutos de ardor. “Só o que eu busco é fugir do supérfluo e buscar o essencial que cada um de nós tem, sem forçar meus atores e minhas atrizes a um processo brusco. É com fala e com observação que se chega a um personagem”, disse Hamaguchi. “Esse essencial da vida pode transparecer numa fala, num gesto”.
Em sua trama, que fará o Cairo salivar, Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) vive um ator e diretor de teatro casado com a roteirista de TV Oto (Reika Kirishima). Ela morre repentinamente depois de deixar um segredo. Dois anos depois, Kafuku, ainda incapaz de lidar plenamente com a perda de sua mulher, recebe uma oferta para dirigir uma peça em um festival de teatro e dirige para Hiroshima com seu carro. Lá, ele conhece Misaki Watari (Tōko Miura), uma motorista reticente designada para se tornar sua chofer. Misaki é uma jovem que esconde seus próprios demônios abaixo de um exterior frio, agindo sempre de modo profissional. Enquanto passam tempo juntos, Kafuku enfrenta o mistério de sua esposa que silenciosamente o assombra.
E há um detalhe a mais, crucial para a trama: Kafuku se prepara para seus papéis dirigindo pela cidade em sua vintage SAAB de duas portas (o “carro” do título, “Drive My Car”), praticando suas falas em trânsito. É uma prática que ressalta o quanto as figuras criadas por Hamaguchi desde sua estreia como diretor, em 2003, com o curta “Like Nothing Happened”. Desde então, ele filma tendo o americano John Cassavetes (1929-1989), ganhador do Urso de Ouro na Berlinale 1984, por “Amantes” (“Love Streams”), como sua principal referência. “A maior lição de Cassavetes é revelar ao cinema que a matéria essencial para se esculpir dramas é o cotidiano de pessoas, na maneira como estas conduzem suas inquietações”, explica o diretor ao Estadão.

“Wheel of Fortune and Fantasy”

Três histórias aparentemente autônomas sobre desejo, ambientada no Japão atual, fazem do drama “Roda do Destino” (“Wheel of Fortune and Fantasy”) uma pérola no atual cenário do cinema japonês, com estreia no Brasil marcada para 6 de janeiro. Seus segmentos são baseados em angústias femininas Há uma trinca de situações distintas no longa: a) uma jovem modelo fotográfica tenta estabelecer um triângulo amoroso com um quase casal; b) uma jovem cria uma armadilha afetiva para um arrogante professor ao ler um conto sexual para ele; c) uma moça lésbica esbarra com uma mulher na rua, que acredita ser uma velha amiga, e esta, mesmo sem ser a tal pessoa imaginada, aceita representar esse papel. São situações calcadas na arte da palavra, mas que revela muito sobre a opressão da mulher na sociedade japonesas, de ontem e de hoje.
“Tento prestar atenção à vida. Meu papel como cineasta é buscar uma naturalidade que soe orgânica, combatendo uma releitura artificial da vida”, disse o diretor, indicado à Palma de Ouro de Cannes em 2018 com “Asako I & II”, sempre falando sobre solidão. “Por ser uma ilha, por se pensar como uma ilha, o Japão não facilita muito o deslocamento das pessoas de região em região. Vivemos sob uma constante sensação de que estamos desconectados do mundo e uns dos outros. Daí o valor da palavra. A palavra pode ser uma instância de comunhão”.
Neste fim de semana, o Cairo confere “El Rey De Todo El Mundo”, de Carlos Saura, o artesão cinemático maior da Espanha nos anos 1970. Depois de uma passagem por San Sebastián com o curta “Rosa Rosae”, o mítico realizador de “Cria Corvos” (1976) regressa aos longas com um musical de elementos documentais sobre a conexão cultural entre o México e os espanhóis que o colonizaram, sem ignorar violências históricas do imperialismo. Ana de la Reguera e Manuel Garcia-Rulfo são bailarinos que contam uma história de casal atropelada por opressões paternas e pela máfia local.

Cena de “El Rey De Todo El MUndo”, de Carlos Saura

p.s.: Maurício Barros lança “Não tá fácil pra ninguém”, seu primeiro álbum solo, em 40 anos de estrada. A maior parte deles foi dedicada ao Barão Vermelho, que ele ajudou a fundar. Teve ainda passagens por grupos como Midnight Blues Band e Buana 4. Mas havia um lado de Maurício, um tecladista celebrizado na indústria fonográfica por sucessos como “Amor pra recomeçar”, “Por você” (ambas com Frejat e Mauro Santa Cecília) e “Puro êxtase” (com Guto Goffi), que parecia não caber em nenhum de seus projetos. Foi assim que começou a se desenhar o disco que chega às plataformas digitais dia 26 de novembro. Das dez faixas, duas são assinadas por ele sozinho, e oito são assinadas em parcerias com bambas como Arnaldo Antunes, Fausto Fawcett, Otto e o já citado Mauro Santa Cecília. As canções trazem ainda participações de Dadi e Marcelinho Da Lua. Para masterizar o trabalho, Maurício convidou o norte-americano Brian Lucey, que trabalhou com nomes como Elvis Costello, Liam Gallagher, Arctic Monkeys e outros. O projeto gráfico do álbum ficou a cargo do artista plástico Raul Mourão e do designer Marcelo Pereira.

p.s.2: Em sua 49ª edição, agendada de 27 a 30 de janeiro, o Festival de Angoulême, o maior do mundo quando o assunto é HQs, vai realizar uma exposição dos mangás de Tatsuki Fujimoto, autor de “Chainsaw Man”, um recente sucesso nas bancas brasileiras.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.