Russell Crowe tá furioso na Amazon

Russell Crowe tá furioso na Amazon

Rodrigo Fonseca

21 de novembro de 2021 | 14h37

Ator brilha no streaming às frente do thriller “Unhinged”

Rodrigo Fonseca
Entrou muita coisa boa na grade de filmes da Amazon Prime, para incendiar a competição com a Netflix, incluindo o enervante suspense “Fúria Incontrolável”, com Russell Crowe. Um dos mais exuberantes signos de potência masculina nos anos 1990 e 2000, quando roubou holofotes em “Los Angeles: Cidade Proibida” (1997) e dividiu aplausos com Al Pacino em “O Informante” (1999), esse ótimo ator sempre foi reconhecido como um sujeito de temperamento explosivo nos sets e fora deles. Aprontou muito depois que ficou famoso. Tacou um telefone na cara de um funcionário de hotel, num dia impaciência, e colecionou causos de agressões a jornalistas. De polêmica em polêmica, o astro de “Gladiador” (2000), fenômeno de bilheteria que lhe rendeu o Oscar (por uma interpretação seminal), foi se desconectando das plateias, contabilizando fracassos sucessivos, sendo definido como um veneno de bilheteria. Nos últimos anos, ele ainda mudou sua silhueta: o físico de Maciste que ostentava até o fim dos anos 2000 deu lugar a um barrigão e a um visual mais sedentário. Mas esse sedentarismo aparente hoje se mostra não um sinal de descuido com a saúde e, sim, um ferramental corporal para ele criar tipos controversos. Foi o que fez na minissérie “A Voz Mais Forte – O Escândalo de Roger Ailes”, no ar no menu da Globoplay, que lhe rendeu o Globo de Ouro em 2020. Os quilos a mais que vem ostentando na composição de personagens selvagens vem lhe valendo convites variados: ele vai viver o pintor Mark Rothko (1903-1970) numa biopic do artista plástico e acaba de ser convidado para “The Greatest Beer Run Ever”, de Peter Farrelly, o mesmo diretor de “Green Book – O Guia” (2018).

Mas entre os recentes trabalhos do ator neozelandês, “Fúria Incontrolável” é o que mais vem surpreendendo os fãs que lhe sobraram e alguns espectadores que não conheciam a extensão de seu talento. “Unhinged” é o título original. O longa-metragem traz Crowe, literalmente, num papel de monstro.

Dirigido pelo alemão Derrick Borte (de “Amor Por Contrato”), “Fúria Incontrolável” custou US$ 33 milhões e estreou na primeira onda da pandemia, quando nenhum estúdio de Hollywood queria arriscar seus filmes em cartaz. Mas, por se tratar de um projeto barato, quase um filme B (nome dado a projetos de baixo orçamento, calcados mais na artesania da direção do que na tecnologia), a produtora Ingenious apostou na força de Crowe (adequado à sua atual persona de encrenqueiro) como um chamariz. Deu certo! Para os tempos de vacas magras que as salas exibidoras hoje vivem, os US$ 43 milhões arrecadados pelo filme impressionaram. E ele, agora, faz barulho no streaming, via Amazon, e merecidamente, pois sua atuação é assustadora. E as sequências de ação, rodadas na Louisiana, esbanjam adrenalina. E dão medo.

Estamos diante de um suspense muito bem delineado, capaz de evocar “Encurralado” (1971), de Steven Spielberg, e “Cabo do Medo” (1991), de Martin Scorsese, ao mostrar um perigo que nunca freia, correndo atrás de sua potencial vítima. Na trama, Crowe vive Tom Cooper, sujeito instável, que abre o filme matando sua ex-mulher e o atual namorado dela a marteladas. Deixa a cena do crime gargarejando ódio, o que se confirma no momento em que ele, com seu carro parado num sinal aberto, recebe uma bronca de uma jovem motorista, Rachel (papel de Caren Pistorius, em ótima atuação), que conduz o filho adolescente, Kyle (Gabriel Bateman), para a escola. Incomodado com a reclamação dela, Tom começa a segui-la estrada adentro, exigindo da moça um pedido de desculpas. A vida de Rachel anda em frangalhos, com o fim de seu casamento e com uma recente demissão. Ela ainda cuida de um irmão avesso ao batente, o que só complica seu cotidiano. Mas nenhuma complicação se compara ao desejo de matar que consome Tom, canalizado em Rachel. Crowe faz do personagem uma besta fera, numa atuação magistral.

p.s.: Nesta madrugada, às 2h45, Lázaro Ramos ensina violino e toma lições de inclusão no tocante “Tudo Que Aprendemos Juntos” (2005), de Sérgio Machado.

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