‘Russa’: inventário de cicatrizes da memória lusa

‘Russa’: inventário de cicatrizes da memória lusa

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2018 | 15h37

João Salaviza, de Portugal, e Ricardo Alves Jr., de MG, dividem a direção de “Russa”

Rodrigo Fonseca
Existe um único antídoto contra a erosão do espaço: a virtualidade da memória, que é elástica e imune a múltiplos reagentes do Tempo, como nos comprova um haicai feito por um mineiro e um lisboeta que hoje se encontra em disputa pelo Urso de Ouro de curta-metragem na Berlinale. Inventário de cicatrizes geopolíticas com uma melancolia que lembra Pedro Costa e seu Cavalo Dinheiro, o diamante chamado Russa é um “vou de volta” de uma mulher já madura que sai da cadeia para abraçar fantasmas – de carne ou de ectoplasma – num lugar espectral, o Bairro do Aleixo, onde viveu muitos invernos. Há na direção de João Salaviza (de Montanha) e de Ricardo Alves Jr. (do lynchiano Elon Não Acredita na Morte) uma alternância entre trocas conscientes e momentos de insulamento lírico. A mulher que regressa fala com uma velha amiga sobre os percalços que passou e sobre o infortúnio de ver como o governo português sucateou o espaço urbano à sua volta. Mas essa fala por vezes se perde no autismo poético que leva a protagonista a uma evasão no tempo da saudade. Essa dinâmica dá ao curta um toque memorialista de lirismo, mas também uma aeróbica de recusas que provoca um debate sobre a somatização do espaço público urbano na alma. Lembra uma fala do escritor baiano Antonio Torres, sobre os tempos em que trabalhou em Lisboa: “Os portugueses têm os pés redondos de tanto dar volta em torno de si para entender quando foi que deixaram de ser os donos do mundo, pois possuíram a Terra nos anos das Grandes Navegações e Ela se foi. Na mesma sessão de Russa tem o rosiano Alma Bandida, de Marco Antônio Pereira.

Nesta segunda, a Berlinale confere o que pode ser o seu mais exótico concorrente ao Urso de Ouro em 2018: Season of the Devil, um musical com quase quatro horas de duração dirigido pelo filipino Lav Diaz, laureado aqui em 2016 por A Lullaby to the Sorrowful Mystery com o Troféu Alfred Bauer (que coroa invenção de linguagem). Aos 60 anos, ele ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 2016 por A Mulher Que Se Foi. Seu novo trabalho, longuíssimo como lhe é peculiar, fotografado em preto e branco, vem sendo descrito como uma ópera rock sobre a opressão das milícias nas selvas das Filipinas. Misticismo e filosofia se fundem na obra do cineasta.

Até o momento, Las Herederas, do Paraguai; Figlia Mia, da Itália; e La Prière, da França, são os melhores filmes da competição entre os títulos já exibidos. Nas mostras paralelas, nada bate Yardie, thriller policial de Idris Elba como diretor.

 

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