Rugindo, Lav Diaz esculpe o Tempo

Rugindo, Lav Diaz esculpe o Tempo

Rodrigo Fonseca

17 de setembro de 2020 | 20h06

Lav Diaz em filmagem nas Filipinas

Rodrigo Fonseca
Apesar de as cenas dos próximos capítulos da novela da subsistência dos grandes festivais de cinema do mundo vierem, a partir desta sexta, do norte da Espanha, de San Sebastián, com direito a Woody Allen inédito em sua abertura, as premiações de Veneza, anunciadas há no sábado passado, seguem ecoando pelo planisfério audiovisual, ecoando Europa adentro com especial deferência a Lav(rente Indico) Diaz. Famoso por filmes de duração quilométrica (onde cada segundo é uma poesia), o filipino de 61 anos foi laureado na seção Orizzonti veneziana com o troféu de melhor direção, conquistado por “Genus, Pan” (“Lahi, Hayop”). É um exercício de autoralidade enxuta – são “só” 157 minutos – pra quem foi premiado na Berlinale de 2016 com o laurel de experimentação de linguagem por um loooooooooonga-metragem de oito horas: “Canção Para um Doloroso Mistério”. Naquele mesmo ano, abocanhou o Leão de Ouro por “A Mulher Que Se Foi”, de três horas e 46 minutos. Seu novo trabalho, feito com a maestria habitual da fotografia em P&B, faz uma analogia entre seres humanos e animais, debatendo uma certa prosopopeia existencialista a partir de casos de submissão. Com a ajuda da publicista Gloria Zerbinati, Lav teve um plá com o Estadão e fez poema com o discurso.
“Considerem os meus filmes como meros discursos (histórias), orações (poemas) e aspirações (hinos) para as Filipinas”, disse Diaz por email ao P de Pop. “Colocá-los nesses domínios é um recurso mais fácil na classificação do meu trabalho acerca das Filipinas. O meu ónus é simplesmente enquadrar, ou reenquadrar, a experiência filipina ou as chamadas realidades filipinas, com o entendimento de que a nossa narrativa, nossa imagem e nossa identidade são moldadas por uma matriz, um meio e uma perspectiva unicamente local, nosso. Assim, de certa forma, o meu cinema age como um gravador, um codificador e um repórter da História nas Filipina e, ao fazê-lo, torna-se uma testemunha da vida do povo que somos. O meu cinema testemunha a luta cotidiana das Filipinas um país há muito consumido por toda a gama de desgraças culturais: a falta de dignidade, violência, desejos atávicos e lutas de classe, traumas da colonização, ditadura, populismo, feudalismo, imperialismo”.

Não vai ter Lav Diaz em San Sebastián, mas tem muita coisa boa aqui, algumas vindas de Berlim (“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo; “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra; e “Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel), outras de Veneza (tipo “Nomadland”, que deu o Leão à chinesa radicada nos EUA Chloé Zhao) e outras tantas chanceladas por Cannes, que não saiu do papel, por culpa da covid-19, mas deu seu selo de excelência a boas promessas. A logomarca da Croisette estampa, por exemplo, uma boa aposta brasileira: “Casa de Antiguidades”, com Antonio Pitanga em uma reflexão sobre racismo, pilotada por João Paulo Miranda Maria. Também passaram pela triagem cannoise três candidatos à Concha de Ouro da maratona cinéfila espanhola de 2020: “True Mothers”, da japonesa Naomi Kawase; “Another Round”, do dinamarquês Thomas Vinterberg; “In The Dusk”, do lituano Sharunas Bartas; e “Été 85”, do francês François Ozon. O tal zero KM de Allen anunciado no início desta conversa é “Rifikin’s Festival”, rodado aqui mesmo, em Donostia, com Louis Garrel atacando de cineasta sedutor, tendo Gina Gershon de estrela.

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