Roterdã repensa o Brasil via Ana Carolina

Roterdã repensa o Brasil via Ana Carolina

Rodrigo Fonseca

02 de fevereiro de 2022 | 18h41

Ana Carolina Teixeira Soares é uma das mais respeitadas cineastas da América Latina desde os anos 1970 e regressa triunfante às telas, após um hiato que vem desde o lançamento de “A Primeira Missa” (2014), sob os holofotes de Roterdã

Rodrigo Fonseca
Entre as muitas alegrias que a 51ª edição do Festival do Roterdã garantiu à América do Sul, a começar pela conquista do troféu Tigre, dado ao deslumbrante “EAMI”, da diretora paraguaia Paz Encina, nesta quarta-feira, ressalte o espaço nobre dado pelo evento holandês ao novo longa-metragem da paulista Ana Carolina Teixeira Soares: “Paixões Recorrentes”. É uma vitória para o Brasil, por todo o que esse filmaço e todo o histórico de sua realizadora simbolizam. É um estudo sobre polarizações. É um raio-x de nossa ruína.
Além de todos os holofotes jogados sobre “Medusa” – recente sensação de Anita Rocha da Silveira, que saiu laureado em múltiplas frentes do último Festival do Rio, em dezembro, a maratona dos Países Baixos – realizada desta vez online, ressaltou a relevância da cronista suprema do que há de medíocre nas relações sociais. O nome de AC apareceu com destaque numa lendária edição de 2019 da revista “Cahiers du Cinéma” dedicada só a mulheres diretores. À época, a bíblia da cinefilia, fundada em 1951, encantou-se com sua trilogia “Mar de Rosas” (1978), “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987). Atenta à lista de talentos publicada pela “Cahiers”, Roterdã deu ao belíssimo comeback de Ana Carolina, que teve seu último longa, “A Primeira Missa”, lançado em 2014. Sua nova trama foi rodada na Ilha do Mel, no litoral paranaense, e se passa às vésperas da II Guerra. Nela, a diretora constrói uma arguta metáfora do mundo polarizado de hoje num bar numa praia sul-americana, em que pessoas de diferentes ideologias se enfrentam. O dono do local, um integralista, é vivido por um Danilo Grangheia em estado de graça. Merece aplauso também o desempenho do ator Luiz Octavio Moares, um bamba dos palcos cariocas, no papel de um produtor de teatro egresso de Niterói.

Em “Paixões Recorrentes”, Luiz Octavio Moares contracena com Thérèse Cremieux e Luciano Cáceres num elenco multinacional

O que esse cenário do litoral paranaense te ofereceu de mais instigante como espaço de criação e o que o local, com suas areias, com o seu isolamento, simbolicamente, pode representar de um certo Brasil, o daquela época e o de hoje?
Ana Carolina Teixeira Soares:
Essa locação traduziu o meu sentimento do Brasil hoje: beleza que lateja, frio abandono e descaso latente. Nesse caso, essa locação é mais um personagem do filme.
O que o seu diretor de fotografia, Luís Abramo, trouxe de mais singular na composição de quadro de “Paixões Recorrentes”? Onde se deu a principal afinação de vocês, na criação da fotografia?
Ana Carolina Teixeira Soares:
Conhecia o Luís desde o “Sonho de Valsa”. Quando convidei o Luís, expliquei pra ele durante horas que eu queria uma câmera circular, que não se detivesse em nada e, quando parasse, conseguisse prosseguir do plano anterior. Não contente com essa longa explicação, eu beliscava as costas dele comandando os movimentos de câmera. Mas isso só foi possível graças à sensibilidade dele em captar o que o filme precisava.
O que justifica os hiatos tão grandes entre os seus filmes? São os desgovernos políticos na cultura? É uma reclusão sua? E, nesse ensejo de regresso, com um filme tão potente, que cenário você encontra no cinema brasileiro? Seu último filme foi lançado numa época em que mal se falava em Netflix. E hoje… como você vê a potência dos streamings e o futuro do cinema? Você se vê dirigindo para uma plataforma?
Ana Carolina Teixeira Soares:
Ô amizade! Isso é um combo! Eu só fico reclusa quando os desgovernos se empenham em fingir que nós não existimos. O cenário do Cinema Brasileiro hoje está sendo ditado pela Globoplay, Netflix, Amazon e outras planícies! Não nego que os streamings são superpotências e me reservo o direito de perguntar se são o futuro do Cinema. Talvez a realidade me obrigue a ver-me.

Sobre “EAMI”…
O título do longa de Paz Encina, realizadora do belo documentário “Exercícios da Memória” (2016), significa “floresta” na língua do povo Ayoreo-Totobiegosode, que vive no Chaco, vasta região florestal que faz fronteira entre o país da cineasta, a Bolívia e a Argentina. Significa também “mundo”. Para aquela população, as árvores, os animais e as plantas que os rodeiam há séculos são tudo o que eles conhecem. Mas eles encaram agora um desmatamento que ameaça tudo o que têm. Para retratar essa tragédia, Paz recorre ao mito de uma menina que vira uma deusa-pássaro, mesclando elementos documentais e fábula em sua forma poética de narrar. A montagem é assinada por Jordana Berg, de “Edifício Master” (2002).
Paz concorria com 13 outros longas e dois deles dividiram o prêmio especial do júri: “Excess Will Save Us”, de Morgane Dziurla-Petit (Suécia) – uma investigação sobre um atentado terrorista – e “To Love Again”, de Gao Linyang (China) – sobre um ritual de casamento coletivo. Integrava o júri a produtora carioca Tatiana Leite. Roterdã concedeu ainda o The Ammodo Tiger Short Awards de 2022 ao curta português “Tornar-se um Homem na Idade Média”, um ensaio de Pedro Neves Marques sobre o emasculamento ao falar de homens que engravidam e da esterilidade em tempos de caça aos sexismos.
Mesmo com a premiação entregue, Roterdã segue online até o dia 6.

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