Roterdã acolhe Ana Carolina e novos titãs

Roterdã acolhe Ana Carolina e novos titãs

Rodrigo Fonseca

22 de janeiro de 2022 | 10h28

“Paixões Recorrentes” marca a volta da cineasta paulista Ana Carolina, aclamada por “Das Tripas Coração”

RODRIGO FONSECA
Abre-alas do circuito internacional dos maiores festivais de cinema do mundo, integrando o G7 do setor (ao lado de Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e San Sebastián), a maratona cinematográfica anual de Roterdã, na Holanda, começa nesta quarta-feira, com 14 longas-metragens em sua seção competitiva oficial, a Tiger, na qual só se ouve português à lisboeta, com a produção lusitana “A criança”, de Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois. Vai ser tudo online, por conta da pandemia. De América Latina, por lá, só concorrem às láureas oficiais o Paraguai (com “EAMI”, de Paz Encina), o México (“Malintzin 17”, de Mara Polgovsky e Eugenio Polgovsky) e o Chile (“Proyecto Fantasma”, de Roberto Doveris). Mas no time do júri principal está a produtora carioca Tatiana Leite (“Benzinho”). Entramos, sim, no páreo dos curtas, desta vez, com “Chants from a Holy Book” (“Cânticos de um Livro Sagrado”), de Cesar Gananian e Cassiana Der Haroutiounian. No filme, esse par de cineastas investigam a Revolução de Veludo na Armênia, em 2018, a partir de cinco cantos daquela cultura: Microcosmo, Auto, Lar, Sociedade e Macrocosmo. Na Seção Harbour, há mais dois títulos nacionais, ambos longas, ambos dirigidos por mulheres. O primeiro ganhou o troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira. Foi o único longa brasileiro de ficção a ser projetado na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2021. A fotografia de João Atala tinge o Rio com um colorido inusitado nessa investigação sobre um mito da potência feminina em meio a um rito fundamentalista evangélico que pune mulheres que exercitam o desejo fora dos desígnios de uma moral religiosa. Marilia Moraes assina a montagem, que encantou a Première Brasil. O segundo é “Paixões Recorrentes”, que traz de volta uma das maiores realizadoras de toda a História de nosso continente nas telas: a paulista Ana Carolina, que deslumbrou olhos com a trilogia “Mar de Rosas” (1978), “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987).

A realizadora Ana Carolina Teixeira Soares

Sem lançar filmes desde 2014, com “A Primeira Missa”, a cineasta – que integrou o júri oficial da Berlinale em 1978, ao lado de Sergio Leone e Theo Angeopoulos, quando Ruy Guerra e Nelson Xavier ganharam o Urso de Prata com “A Queda” – regressa cercada por um time de peso de atrizes e atores. Seu elenco: Thérèse Cremieux, Luciano Cáceres, Pedro Barreiro, Silvana Ivaldi, Danilo Grangheia, Luiz Iran Gomes, Octávio Moraes. Sua trama: um grupo de pessoas, de diferentes nacionalidades, discutem o estado do mundo em uma pequena praia no sul do Brasil, no dia que marca o início da Segunda Guerra Mundial. Num barzinho em uma praia sul-americana, um comunista brasileiro se enfrenta contra um capitalista português; um fascista argentino bate boca com uma atriz francesa trotskista. Neste remoto recanto de areia, todos eles defendem suas ideologias que foram superadas pela realidade. Os paralelos com a ascensão contemporânea das ideologias extremistas no Brasil (e no mundo) são difíceis de ignorar. A teatralidade exulta neste conto alegórico. A trama foi filmada por Ana Carolina (descrita no catálogo de Roterdã com seu nome todo: Ana Carolina Teixeira Soares) na Ilha do Mel, uma reserva natural na Baía de Paranaguá.

“Please Baby Please” é o filme de abertura e integra uma mostra em tributo à diretora Amanda Kramer

Isso é o Brasil de Roterdã, que vai ser aberto na quarta por uma iguaria americana: “Please Baby Please”, de Amanda Kramer – uma espécie de “Cry Baby” das neuroses sexuais destes tempos em que o corpo foi sublimado em nome de debates e bandeiras. Andrea Riseborough e Harry Melling são um casal sem sexo. Apesar das investidas dela, ele só sente tesão com os homens encourados da gangue à moda anos 1950 que circunda suas ruas. Aos poucos, eles vão se misturar ao mundo desses criminosos e ela vai se aproximar de uma colecionadora de vibradores vivida por Demi Moore. Em paralelo, o festival holandês vai fazer uma retrospectiva dos curtas da realizadora, como “Bark” (2016), “Intervene” (2018) e “Sin Ultra” (2019).
Mas tem muita coisa bacana pra se ver aí em Roterdã.

Confira a seguir sete longas imperdíveis:
1) “The Mole Song: Final”, de Takashi Miike (Japão): Aos 61 anos, o Quentin Tarantino nipônico nos presenteia com a trilogia iniciada com “Undercover Agent Reiji” (2014) e seguida por “Hong Kong Capriccio” (2017). Desta vez, os inimigos são um grupo mafioso italiano que rondam o porto de Yokohama. Na trama, lançada comercialmente no Japão em dezembro, o realizador de “13 Assassinos” (2010) narra a mudança brusca na vida do agente Reiji Kikukawa (Tôma Ikuta) depois que ele é nomeado para investigar a infiltração Mole. Sua missão é se infiltrar na maior organização yakuza do Japão e se aproximar de Shuho Todoroki (Kôichi Iwaki), que é o chefe dessa máfia. A missão final de Reiji é evitar o contrabando de 600 bilhões de ienes em drogas.

2) “The Execution”, de Lado Kvataniya (Rússia): O fim da URSS trouxe à tona a existência de uma série de psicopatas eslavos. Este thriller psicológico imersivo pula pra frente e pra trás no tempo ao investigar o passado soviético, a partir de 1990, quando o detetive Issa Davydov está celebrando sua promoção. Ele sabe que o bloco político onde cresceu e fez carreira está com os dias contados, mas seus serviços em prol da Lei são eficientes. Mas sua retidão inabalável é desafiada quando ele recebe uma chamada relatando um crime que se parece exatamente com os do assassino em série famoso que ele capturou alguns anos antes.

3) “Freda”, de Gessica Généus (França, Haiti): Ficar ou ir? Eis uma pergunta com a qual muitos jovens haitianos se debatem, pois a situação no Haiti se deteriora e a violência se agrava. Essa é uma realidade na qual imergimos acompanhando os passos de Freda, uma estudante de antropologia de um bairro pobre de Porto Príncipe. Seu namorado parte para Santo Domingo, para tentar outra vida, mas ela não tem certeza se deve abandonar sua família e sua crença no futuro de seu país.

4) “Special Delivery”, de Park Dae-Min (Coreia do Sul): Fazendo justiça à genial linhagem noir do thriller sul-coreano, este filme de ação é uma espécie de “Drive” feminino, com Park So-Dam (a filha da família picareta de “Parasita”) no papel de uma taxista boa de roda e de fuga que usa seu volante em prol do crime, guiando ladrões e assassinos. Mas, numa noite, ela se vê forçada a salvar um garotinho, e põe o submundo inteiro contra ela.

O cartaz de “Special Delivery”

5) “Met Mes”, de Sam de Jong (Holanda): A prata da casa na competição Tigre narra uma louca história de xenofobia envolvendo o sumiço de uma câmera de uma personalidade da TV. Ela deve ter perdido o objeto por distração. Mas, para mobilizar a polícia, usa o argumento de que apontaram uma faca para ela, o que deflagra uma caça a um imigrante.

6) “EAMI”, de Paz Encina (Paraguai): A diretora de “Hamaca Paraguaia”, sensação cult de Cannes em 2006, pode ter feito seu melhor filme ao misturar mitologias indígenas para levar às telas o debate sobre a resiliência dos povos originários das Américas. Eami significa “floresta” em Ayoreo. Significa também “mundo”. O povo Ayoreo-Tobiegosode não faz distinção entre espécies: as árvores, os animais e as plantas que os rodeiam há séculos são tudo o que eles conhecem. Eles vivem agora em uma área que experimenta o mais rápido desmatamento do planeta.

7) “Assault”, de Adilkhan Yerzhanov (Cazaquistão): Figuras mascaradas com metralhadoras marcham para a escola secundária em Karatas, fazem os alunos reféns e executam um deles. Eles não fazem nenhuma exigência. O terror silencioso é seu modus operandi. Visto que o exército levará dois dias para chegar e tentar salvar todo mundo, devido a uma tempestade de neve, o professor de matemática Tazshi decide montar sua própria equipe de resgate. Dela constam sua ex-mulher; o professor de ginástica; o diretor covarde da escola; um guarda noturno alcoólatra; o idiota do vilarejo; e um chefe de polícia incompetente. É uma história sobre o mito do heroísmo que o cinema criou em nós.

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