Rosiano, documental: Rodrigo Siqueira na real

Rosiano, documental: Rodrigo Siqueira na real

Rodrigo Fonseca

11 de agosto de 2020 | 11h58

Rodrigo Fonseca
Embora João Guimarães Rosa (1908-1967) tenha avisado que “viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”, Rodrigo Siqueira não tremeu diante das veredas da observação e dela extraiu imagens que nos reconstituem: o Na Real_Vitual da segunda-feira compilou o melhor do processo do diretor mineiro. Cantinho online de… vivências documentais, o seminário organizado sob a curadoria de Carlos Alberto Mattos e Beteto Abrantes se debruça sobre a obra do realizador de “Terra Deu, Terra Come” (melhor filme nacional do É Tudo Verdade 2010) atrás de uma linha autoral, de modos de olhar, de prerrogativas teóricas e de pragmatismos poéticos. “Quando a gente participa de um filme há uma construção coletiva”, disse o cineasta, em uma conversa que rolou na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Já deram 120 pessoas (e bota mais aí) por noite na “sala” organizada no Zoom pelo produtores Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, falando com titãs como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini e Gabriel Mascaro. Faltam ainda Emílio Domingos (nesta sexta) e Marcelo Gomes (nesta quarta). Siqueira virou uma das promessas de renovação das narrativas documentais do Brasil com “Terra…” e brilhou de novo com “Orestes” (2015), um centauro de tragédia grega com reflexão sobre a brutalização policial cotidiana.

Em “Terra Deu, Terra Come”, perfumados pelo aroma amadeirado da prosa de João Guimarães Rosa (um ourives da língua, aclamado mundialmente por “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”), acompanhamos o rito de auto-mise-em-scène de Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos. Na longa-metragem, Seu Pedro comanda, como mestre de cerimônias, o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, morto aos 120 anos, num ritual em que vêm à tona as raízes africanas de Minas Gerais. “São dois Pedros. O Seu Pedro fala ‘nonada’. E se você for olhar a fortuna crítica do Guimarães Rosa, vai encontrar gente que diz que ‘nonada’ é uma palavra inventada pelo Rosa, mas é uma coisa que já estava lá. Eu ouvi o Seu Pedro falando sem que pedisse. Essa operação da oralidade para escrita, é um pouco da gênese do ‘Orestes’. Nele, faço outro movimento que é pensar como que a palavra formal é transcrita para a oralidade. Isso se dá em uma operação do tribunal do júri popular”, disse Siqueira.
Objeto de estudo do simpósio, “Orestes” faz uma adaptação da tragédia grega de Ésquilo para a realidade brasileira. Com um júri simulado e uma série de psicodramas, a longa coteja dois momentos da história: a ditadura militar dos anos 1970 e o presente, da violência policial. “A Lei é, em última instância, a palavra formal por excelência. Vale o que está escrito” diz Siqueira. “Essa operação para a linguagem oral se dá por esse tribunal do júri popular, que tem dois oradores, que tem o jogo de teatro envolvido e precisa convencer sete pessoas de que um acusado é culpado ou inocente. Esses sete jurados não conhecem os altos do processo, eles participam do julgamento pelo que estão ouvindo do advogado e do promotor. É uma sequência de operações que fui fazendo e desencadeou esse filme”.
O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Com a reabertura dos cinemas no Velho Mundo, a Europa tem se deleitado com pérolas afetivas como “Le Regard de Charles”, de Marc di Domenico, uma opção perfeita para lotar circuitos, que vem se transformando em um inusitado sucesso. Um dos longas mais disputados por distribuidores internacionais na 22ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, em Paris, em janeiro, o filme traz imagens inéditas do cantor Charles Aznavour (1924-2018), explorando sua trajetória de sucesso. Em 2017, ele veio ao Brasil para um par de shows, em em São Paulo, no Espaço das Américas, e no RJ, no Vivo Rio. Na ocasião, ele conversou com o Estadão sobre sua longeva aposta em hits como “Que C’est Triste Venise” e “Et Pourtant”. “Desde os anos 1950, o meu repertório sempre foi uma mistura de canções sociais com músicas românticas, construído com a certeza de que você não pode impor um hit ao público: um sucesso se cria pelo gosto e pelo afeto das plateias”.

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