Roney Villela, o artesão do existencialismo

Roney Villela, o artesão do existencialismo

Rodrigo Fonseca

21 de agosto de 2021 | 12h10

Roney Villela brilha como o pai opressor de Caio Manhente em “Veneza”

Rodrigo Fonseca
Seja em participações pequenas, como visto (e aplaudido) em “Tropa de Elite 2” e “A Suprema Felicidade”, seja em trabalhos de maior fôlego, como Santa Rosa na série “1 Contra Todos”, o carioca Roney Villela, de 60 anos, sempre dá um jeito de arrebatar nosso olhar, com seu artesanato de existencialismos. Mesmo diante de um elenco encabeçado pela titã espanhola Carmen Maura, fortalecido por atuações em estado de graça de Carol Castro e Dira Paes, como é a trupe do belo folhetim “Veneza”, de Miguel Falabella, ele toma os holofotes pra si. Quando é protagonista, o estrago que ele causa na mesmice e na inércia é letal, vide “A Morte Habita à Noite”, de Eduardo Morotó, pelo qual conquistou o prêmio de melhor ator no Cine Ceará 2020, ao lado de um duo inspiradíssimo: Mariana Nunes e Rita Carelli. Recentemente, esse longa – sobre a jornada de um escritor em decorrada, em busca de analgésicos afetivos e alcoólicos para a solidão – teve sessão na Première Brasil, no Estação Botafogo, atraindo elogios de múltiplas fontes. Em abril de 2022, essa força da natureza que, vira e mexe, brinca de Wilson Grey, aparecendo em dezenas de filmes nacionais, de uma só vez, vai completar 40 anos de profissão. Seu primeiro trabalho foi no Teatro dos Quatro: a peça “Capitães da Areia”, baseada em Jorge Amado, com direção de Carlos Wilson, o Damião. “Tive que deixar a faculdade de engenharia eletrônica para me dedicar ao Teatro. Ralei, remei, suei e tá valendo a pena!”, comemora o ator, hoje com 60 anos, que está em São Paulo, gravando a minissérie “A Névoa”, da HBO com produção da O2. “Tenho ainda, a estrear, os filmes ‘Achados Não Procurados’, de Fabi Penna; ‘Jorge da Capadócia’, de Alexandre Machafer, e ‘A Morte Habita à Noite’, do Moroto. Nesse último faço o primeiro protagonista de minha carreira e me orgulho de ter ganho com ele três prêmios de melhor ator: no Inffinito Film Festival de Miami, no Cine Ceará e no Festival Luso brasileiro de Santa Maria da Feira em Portugal. Estou muito feliz com o atual momento da minha carreira”. No papo a seguir, com o P de Pop, Roney esmiúça essa felicidade, compartilhando seus feitos com a gente.

Roney Villela em “A Morte Habita à Noite”

Desde 2010, a sua (oni)presença em nossas telas é fato consumado e consumido. Como é que o cinema tem usado e esmerilhado o seu ferramental cênico?
Roney Villela:
A televisão, há algum tempo, tinha mania de rotular o ator. Eu fazia sempre personagens bandidos e mandões por conta da voz e da carranca que tenho. O teatro era a minha válvula de escape. Eu me dedico ao ofício de compor e interpretar personagens há 40 anos. Sempre fiz o estilo operário, primando pela qualidade em todos os quesitos. Segui na carreira abrindo mão das vaidades pessoais, atendendo às necessidades do coletivo, do produto. Acho que o reconhecimento, enfim, chegou. Todo artista precisa dele para evoluir na profissão. “Reconhecimento” é um nome mais técnico para o que chamamos de “sorte”. Hoje, acredito que saibam que posso fazer uma infinidade de personagens distintos atendendo às necessidades de um filme. Procuro ser um bom profissional e uma peça importante pra engrenagem.

Como você avalia a mudança que a pandemia trouxe para o teatro com uma nova leva de peças filmadas?
Roney Villela:
A pandemia, somada à tecnologia, fez as pessoas saírem menos de casa. Mas elas clamam por cultura e entretenimento. Não tem nada que se compare com o público presente assistindo a uma peça, e isso, com o tempo, será reconquistado. Mas essa nova fórmula do teatro online é muito bem-vinda e ajuda a eternizá-lo. A cultura é, e sempre será, fundamental para a evolução de uma sociedade, em qualquer circunstância. Ela exercita em nós a autonomia de pensamento, a opinião própria. Fator fundamental para uma democracia sadia. Temos, hoje, um governo que tenta minguá-la, pra que prevaleça a ignorância, porque é mais fácil manipular quem não pensa. Mas eles vão sair de cena… A cultura NUNCA.

Que linha de personagens você acredita estar perseguindo (ou mesmo ampliando) em sua safra recente de filmes em cena? Há uma persona Roney Villela? Qual e como ela é? Que marcas ela tem?
Roney Villela:
Tenho feito papéis bastante diversificados e esse exercício me ajuda a sair de uma única tendência, mas todos os meus personagens são compostos a partir da minha pessoa: meu comportamento; minhas experiências de vida e como as digeri; minha fisicalidade; minha voz; minha visão sobre o tema proposto. Eu sou a máquina e me considero naturalmente firme, sucinto e direto. Mas também sou gentil, sensível e alegre. Tenho enorme atração por personagens diferenciados, de composição. Fiz um personagem em “A Morte Habita à Noite”, de Eduardo Morotó, que define bem minha persona. De forma geral, procuro dar aos personagens humanidade e carisma, luz por dentro.
p.s.: “Veneza” vai estar no Star Plus, o novo streaming por assinatura da Disney, que será lançado no Brasil dia 31 de agosto.

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