‘Rojo’: veias argentinas rasgadas

‘Rojo’: veias argentinas rasgadas

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2019 | 05h32

Rodrigo Fonseca
Duas diretoras, Romina Paula e Paula Hernández – a primeira é responsável por “De nuevo outra vez”; a segunda, por “Los sonámbulos” –, vão invadir o Festival de San Sebastián, de 20 a 28 de setembro, em solo espanhol, para oxigenar a mostra competitiva Horizontes Latinos em nome de seu país, a Argentina, que brilhou no evento hispânico em 2018, com “Rojo”, uma coprodução com o Brasil. É um projeto de integração entre nosostros, hermanos, pelas feridas abertas da ditadura militar, que chega nesta quinta-feira ao circuito brasileiro, com o título de “Vermelho Sol”. Velho conhecido dos brasileiros por sucessos de Almodóvar como “Fale com ela” (2002) e “Julieta” (2016), além de ter participado de “Relatos selvagens” (2014), o argentino Darío Grandinetti empresta a austeridade que faz dele um dos mais disputados atores da cena teatral de Buenos Aires e de toda a indústria audiovisual de seu país a esse thriller. A direção é de Benjamin Naishtat. Sua trama é fotografada pelo pernambucano Pedro Sotero (de “Aquarius”), que surpreendeu Cannes este ano com seu trabalho em “Bacurau”. O longa deixou o San Sebastián, no ano passado, com um balde de prêmios. Benjamin levou o de melhor direção; Sotero, o de melhor fotografia; e Dario, o de melhor ator. Sua projeção em Toronto também foi consagradora, com elogios sobretudo para uma apoteótica sequência de um eclipse, retratada em tons rubros.

“No cartaz argentino do filme há uma frase: ‘Quando todos se calam, ninguém é inocente’, mostrando que há um elemento político de distorção no silêncio que pontua essa narrativa fotografada pelo Sotero com elementos dos filmes de Sideny Lumet, de Sam Peckinpah e de ‘A conversação’ de Coppola”, disse Naishtat ao P de Pop, no Festival do Rio 2018. “É um olhar para as idiossincrasias do ódio que se manifestam no medo da classe média de perder o que tem”.

“Benjamin é um diretor muito objetivo em seus desejos, que me deu, além do roteiro, uma série de fotos de época que serviram de referência, numa pesquisa que nos levou a clássicos do cinema policial americano dos anos 1970”, disse Sotero ao Estadão.

 

A secura hiper-realista à moda Sam Peckinpah e a explosão de vermelho que dá nome ao filme se manifestam nas transformações pelas quais a rotina do advogado Claudio (papel de Grandinetti) passa após uma acalorada discussão em um restaurante. Estamos na Argentina dos anos 1970. E a briga, por conta de uma mesa em um restaurante, revela sutilmente uma tensão política. Esta vai explodir quando Claudio visita uma casa que um amigo pretende comprar e vê sinais de violência e sangue no local. A presença de um detetive interessado em saber o rumo da vida de Claudio amplia a paranoia.

“A ideia era de que essa conjuntura política fosse entendida pela lógica do cinema policial”, diz Naishtat. “Nosso interesse era retratar o início do horror estatal, a ditadura, na Argentina”.

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