Rodrigo Teixeira, o produtor que faz o ‘Sol dançar’, na seara indie do cinema mundial

Rodrigo Teixeira, o produtor que faz o ‘Sol dançar’, na seara indie do cinema mundial

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2015 | 13h42

Fruto da grife RT Features,

Fruto da grife RT Features, “Little Men”, de Ira Sachs, tem roteiro do brasileiro Maurício Zacharias: abre em Sundance

Garimpeiro da literatura contemporânea, com faro fino para romances com potencial para virarem filmes de prestígio, e perito em produzir diretores autores brasileiros de novas e novíssimas gerações, Rodrigo Teixeira virou uma presença obrigatória em Sundance, onde terá dois longas-metragens este ano, ambos em língua inglesa e de elenco padrão AA na seara indie dos EUA. Selecionados para o festival realizado ano a ano em Park City, Utah, nos EUA, o esparadíssimo Indignation, primeiro trabalho do acalamdo roteirista James Schamus (O Tigre e o Dragão) como realizador, e Little Men, de Ira Sachs (Deixe a Luz Acesa) carregam a grife da RT Features, a cia. produtora de Teixeira, consagrada mundialmente por cults como Frances Ha (2003). A edição de 2016 vai de 21 a 31 de janeiro. No início deste ano, a RT teve um thriller de horror, A Bruxa, de Robert Eggers, agraciado com o prêmio de melhor diretor justamente em Sundance, onde a empresa bateu ponto também em 2014 com O Amor é Estranho, do mesmo Sachs, que agora volta a lhe proporcionar alegrias.   
“Sundance é o festival internacional onde eu mais me sinto em casa, não só por estar lá sempre, desde 2007, quando exibi O Cheiro do Ralo lá, mas por participar também de seus laboratórios de roteiro. Ele é o maior dos independentes e, hoje, talvez seja o mais importante das Américas em termos de eventos competitivos”, diz o produtor, nascido no Rio mas radicado em São Paulo, que se impõe como uma das vozes mais influentes hoje no planisfério internacional do cinema. “Tenho projetos que andam rápido para 2017 e que… quem sabe?… possam garantir minha volta a Sundance”.

Rodrigo Teixeira na sessão de

Rodrigo Teixeira na sessão do terror “A Bruxa” na Mostra Internacional de São Paulo: bruxaria nos anos 1600

Há uma forte expectativa do mercado estrangeiro em torno de seus dois longas 0 KM acolhidos por Sundance. O hollywoodiano Greg Kinnear e a chilena Paulina Garcia (de Glória) integram a trupe de Little Men, no qual dois adolescentes fazem um voto de silêncio em represália a uma rixa entre suas famílias. O roteiro é do brasileiro Maurício Zacharias, escriba habitual de Sachs. Já Indignation é uma adaptação da literatura de Philip Roth com Logan Lerman e Sarah Gadon estrelando um drama ambientado em 1951, no cenário acadêmico da Universidade Winesburg, em Ohio. Ali, o filho de um açougueiro vai despertar para um mundo novo, de aprendizados, amor e riscos. É grande a espera por esta produção, uma vez que o nome James Schamus é sinônimo de excelência em dramaturgia, em função de sua parceria com o diretor Ang Lee em vários filmes.

Indignation é o maior filme que eu já produzi nos EUA, não apenas pelo histórico do Schamus, mas muito pela força de Philip Roth, e ele pode mudar a trajetória da RT nos EUA. Roth nos cedeu os direito e disse ‘Boa sorte!’. Se ele vai conferir a projeção? Não sabemos. Com Roth, tudo é possível”, atiça Teixeira, que anunciou recentemente no Facebook um projeto ambicioso, a unir sete países, sendo documentado por um diário de produção, sobre o qual faz silêncio. “Vamos anunciar em breve”.

“Mistress America”, em cartaz desde novembro, firma a parceria entre a RT e o cineasta Noah Baumbach

Em cartaz no Brasil com (o quindim) Mistress America, de Noah Baumbach, a RT Features vai preparar para 2017 o sci-fi To The Stars, para o aclamado cineasta James Gray. Agora, a cia. De Teixeira se prepara para lançar A Bruxa no dia 3 de março, explorando o fascínio em torno de uma família cristã da Nova Inglaterra de 1630 assolada por magia negra. “A vitória em Sundance nos abriu portas no mundo todo. De lá ganhamos o Festival de Londres, fomos para Karlovy Vary, na República Tcheca, para Melbourne, na Austrália, e Sitges, na Espanha”, orgulha-se Teixeira, que não descuida de sua paquera com o cinema autoral nacional.

Luciana Paes e Murilo Benício estrelam

Luciana Paes e Murilo Benício estrelam “O Animal Cordial”, um dos longas brasileiros mais aguardados de 2016

Já está no seu gatilho a continuação do sucesso de bilheteria Alemão, de José Eduardo Belmonte, visto por cerca de um milhão de pagantes em 2014. Do mesmo Belmonte, ele tem rodado Aurora, um thriller de horror. Em abril, ele inicia as filmagens do telefilme O Filho Eterno, com direção de Paulo Machline, baseado no premiado romance de Cristóvão Tezza. Tem pronto (já com mira nos festivais do exterior) Era El Cielo, de Marco Dutra, e O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, muito esperado por marcar a volta ao cinema do ator Murilo Benício. Ele produzirá ainda Suicidas, de Matheus Souza, e Barba Ensopada de Sangue, de Aly Muritiba, com base no romance de Daniel Galera.

“Não quero ser um produtor por sobrevivência. Quero construir alguma coisa sólida no cinema”, almeja Teixeira. “Quero consolidar uma marca, uma assinatura”.

p.s.: Opção boa para o Natal: a Versátil acaba de prensar em DVD uma edição quentinha do desenho animado japonês Gen – Pés Descalços, de Mori Masaki e Toshio Hirata, baseada na HQ homônima de Kenji Kazazawa (1939-2012). A produção, em duas partes, lançadas em 1983 e 1986, destaca-se pelo colorido desbotado em sua direção de arte.

p.s.2: Falando de cinema japonês, sexta-feira agora o circuito recebe um filmaço laureado em Cannes, na mostra Un Certain Regard, com o prêmio de melhor direção: Para o Outro Lado, de Kiyoshi Kurosawa. Um roteiro primoroso de diálogos contados na ponta dos dedos – num fraseado de pura poesia – conta a jornada metafísica da viúva Mizuki (Eri Fukatsu) em seu reencontro com o marido (Tadanobu Asano), que se afogou há três anos. É um exercício de poesia rara.

Kishibe no tabi Kiyoshi Kurosawa Para o Outro Lado

p.s.3: Na Alemanha, rola um zumzumzum à boca pequena de que Redemoinho, o primeiro longa-metragem do diretor de TV José Luiz Villamarim (O Rebu) vai estar no 66º Festival de Berlim (11 a 21 de fevereiro). Big Jato, de Cláudio Assis, também está pleiteando uma vaga no evento.

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