Rodrigo Santoro, o ‘Power’ é todo teu

Rodrigo Santoro, o ‘Power’ é todo teu

Rodrigo Fonseca

15 de agosto de 2020 | 13h42

“Power” dá a Rodrigo Santoro um papel à altura de seu enorme talento

Rodrigo Fonseca
Apesar de seu colossal desempenho em “Heleno” (2012) e de sua exuberante aula de inclusão em “Carandiru” (2003), o vascaíno petropolitano Rodrigo Junqueira dos Reis Santoro se sai sempre mais exuberante quando flerta com o Mal, e encarna a vilania, como se viu em sua apoteótica representação do imperador persa Xerxes, em “300” (2007), e, agora, em “Power”, no qual brilha como Biggie. Nos alqueires da Netflix, numa terra de gigantes como Jamie Foxx e Joseph Gordon-Levitt, sob a direção de Henry Joost e Ariel Schulman, Santoro nos entrega um de seus melhores (e mais cruéis) trabalhos em quase três décadas de carreira. Prestes a celebrar 45 anos, a serem comemorados em 22 de agosto, ele esbanja um misto de esnobismo e de fragilidade, construindo Biggie (o Grandão) como uma espécie de Coiote nos desenhos do Papa-Léguas. É ardiloso, é bem equipado, é capaz de se drogar para ampliar seus músculos, só que teme (e treme) quando a bigorna do Bem bate em sua cabeça. Biggie é um traficante com uma única droga… e que droga… pra vender: uma substância que garante a seus crackudos a chance de ser X-Men por alguns minutos. Quem toma de seus comprimidos vira ferrabrás, atirando fogo, gerando gelo, “camaleando” a aparência. Nesse império da Maldade, a ser debelado por um ex-militar (Foxx, sublime), por um policial drogadito (Gordon-Levitt, com a inteligência cênica habitual) e uma jovem estudante aspirante a rapper (Dominique Fishback, um achado), o Grandão é um mero Darth Vader perto do escopo de dominação de sua líder, a Dr. Gardner (Amy Landecker). Mas, como o velho Anakin, a Força nele é grande, e sombria, a amplificar uma trajetória de atuação que, há 20 anos, alcançou reconhecimento ao ganhar o troféu Candango, no Festival de Brasília, por “Bicho de Sete Cabeças” (2000). E, em 2021, ele vai comemorar outra efeméride de 20 anos: o aniversário de seu lirismo como Tonho, em “Abril Despedaçado”, concorrente ao Leão de Ouro em 2001. Desde então, ele passou por áses autorais da direção de diferentes cantos do planeta, como David Mamet (“Cinturão Vermelho”), Steven Soderbergh (“Che”), Vicky Jenson (“Recém-Formada”), Pablo Trapero (“Leonera”), Carlos Saldanha (“Rio), Philip Kaufman (“Hemingway & Martha”), Roland Joffé (“Segredos da Paixão”), os irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso (“O Tradutor”) e Michelle MacLaren (“Westworld”). No Brasil, cresceu sob a criativa inquietude de André Ristum (“Meu País”), de Mauro Lima (“Reis e Ratos”) e do mestre Walter Lima Jr. (em “Os Desafinados”), com quem aprendeu que “sempre deve-se estar aberto ao acaso… pois um aparente erro de cena é o acaso se manifestando”. Ele ainda emprestou o muque a Arnoldão Schwarzenegger em “O Último Desafio” (2013) e iluminou as telas como O Louco, em “Turma da Mônica: Laços” (2019), numa memorável interpretação. São tijolinhos em uma estrada que leva a Oz: a Oz da perseverança e da excelência. Que bonito é o legado que ele já construiu, e segue construindo, no cinema e na TV, sobretudo nas parcerias com o diretor Luiz Fernando Carvalho, em “Velho Chico” (2016) e em “Hoje É Dia de Maria” (2005), em suas partes I e II, como Dom Chico Chicote. Navegar em seu oceano é testemunhar uma lenda se formar, num exemplo de como um astro pode se desvencilhar de rótulos e vencer pelo brio. Obrigado, xará, pelo ator que você escolheu ser.
Santoro faz sua própria dublagem na versão brasileira de “Power”, que está impecável, com Marco Ribeiro dublando Foxx com a genialidade habitual. A direção de dublagem é de Manolo Rey, que imprime angústia a uma narrativa tensa por natureza.

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