Rodrigo Areias nos mares do cinema português

Rodrigo Areias nos mares do cinema português

Rodrigo Fonseca

25 de fevereiro de 2021 | 11h33

Aos 42 anos, Rodrigo Areias lança no site na plataforma digital https://filmefilme.com.br, com distribuição da Fênix, o longa “Hálito Azul”

RODRIGO FONSECA
Um dos mais prolíficos e prestigiados produtores do cinema português, a partir dos feitos da Bando à Parte, grife por trás de sucessos como “Listen” (sensação ibérica no Festival de Veneza 2020), Rodrigo Areias lança nesta quinta-feira, na plataforma digital FilmeFilme https://filmefilme.com.br, com distribuição da Fênix, um de seus mais refinados trabalhos como realizador: “Hálito Azul”. Trata-se de um estudo sobre as múltiplas potências do mar, como lugar de sustento e espaço de tráfego. A narrativa nasce de sua vivência da vila da Ribeira Quente, na encosta de um vulcão em São Miguel, ilha pertencente aos Açores. O que Areias viu, o que ouviu e o que provocou – apoiado na troca entre personagens fictícios vividos por Tânia Dinis e José Medeiros e os aldeões – rendeu um poético estudo sobre as águas e as vidas que as rodeiam, numa solidão existencial insular. Baseado na literatura de Raul Brandão (1867-1930), o projeto foi finalizado em 2018 pelo realizador de “Estrada de Palha” (2012) e laureado com o prêmio de melhor filme documental no Ismailia International Film Festival, no Egito, em 2019. Num papo via Zoom com o P de Pop, Areias faz uma reflexão estética sobre seu cinema.

Como foi feita a engenharia de som do longa:
Rodrigo Areias:
Trabalhamos sem tentar buscar grandes artifícios sonoros, para captar aquela natureza o mais fiel possível.

Onde a narrativa se passa?
Rodrigo Areias:
Aquilo é uma aldeia, a Ilha de São Miguel. É uma encosta de um vulcão. É preciso atravessar um túnel que pega a parede desse vulcão, que vai da Vila das Furnas, em direção à Ribeira, ou seja, só existe uma estrada para se ir. Ela existe desde os anos 1940, mas durante séculos só existiam trilhas a pé para o vilarejo mais próximo.

Para chegar de Guimarães lá, demora quanto tempo?
Rodrigo Areias:
Duas horas e meia de avião; é no meio do Atlântico.

Seus filmes trabalham ou valorizam muito a questão espacial, a questão da geografia física. Isso é algo consciente para você? Qual é o lugar do geográfico no seu cinema?
Rodrigo Areias:
É consciente. O meu cinema também é o cinema das margens geográficas. Não é um cinema dos centros urbanos, porque efetivamente não estou nos centros urbanos, e a minha origem reflete na minha obra naturalmente. Falo de locais que são completamente esquecidos de certa forma.

A paisagem dos Açores vista por Areias

Tenho a sensação que a questão da memória é matéria do seu filme como lugar de afirmação do espaço e lugar de afirmação do tempo. O que é a memória para o seu cinema e o que é o tempo do seu cinema?
Rodrigo Areias:
De certa forma, existe um lado cinéfilo na preservação da memória. É possível criar memórias no cinema.

O seu filme é uma experiência cinemática, sobretudo. Ele fala de pessoas, mas fala delas a partir do tempo e do espaço. O que significa para você, lançar um filme como esse, tendo não o cinema, mas as plataformas digitais como vitrine primeira?
Rodrigo Areias:
A intensão inicial era de que o filme fosse assistido em sala, não em plataforma digital. Sabemos que, desde o ano passado, os filmes têm tido suas estreias adiadas. Tínhamos uma série de apresentações do filme, por uma série de países, que foram sendo canceladas. Não é que eu fique feliz com essa mudança de estratégia, mas percebo ser melhor mostrar o filme online do que não existir. Agora temos um problema ainda maior, no segundo semestre, quando reabrirem as salas. Elas serão invadidas com blockbusters e o espaço para filmes pequenos, como os que realizo, pode ser pequeno. Vai ter um momento difícil pra distribuição.

Para o P de Pop, é muito difícil não pensar o seu cinema em bloco. Vejo a sua obra como se fosse um grande Lego, com peças sobre uma arquitetura do tempo. Como se você estivesse a brincar em um jogo de armar sobre o lugar do tempo e do espaço no nosso sentimento. Onde e como o “Hálito Azul” se encaixa nesse seu Lego?
Rodrigo Areias:
Tenho sempre uma influência grande da literatura no meu cinema. Vou procurando, como posso, incorporar minha dificuldade de adaptação da literatura. Já o fiz de formas muito diferentes. Como algo tão bem escrito, e com tantas imagens bonitas em termos literários, pode ser traduzido em imagens¿ Tento corresponder a um pôr do sol escrito, mas acho sempre que ficarei a quem do que está escrito. Há algo de experimentação no ato de transformar a palavra ou a literatura em filme, não querendo ser literal, não tendo certezas e indo à procura de respostas. Como vou filmar isso? Não sei, apenas no fim do processo que respondo essa pergunta, mas é ela que me faz querer fazer um filme.

“Hálito Azul” começa a correr as Américas e chega no Brasil no mesmo momento em que você colhe os frutos de seu papel como produtor do grande filme português dos últimos tempos, que é o “Listen”. Como o “Listen” entrou nesse caminho?
Rodrigo Areias:
No fundo, é uma primeira obra. A Ana Rocha me veio para produzir o filme dela. Achei que ela merecia a minha ajuda para tentar fazer esse primeiro filme, que não seria fácil. Tem uma linha ética.

Dos seus próximos trabalhos na Bando à Parte, o que está por vir?
Rodrigo Areias:
Iríamos fazer agora um filme de época grande que se chama “The Worst Man in London”… “O Pior Homem de Londres”, mas esse foi adiado. É a história de um português, chamado Carlos Augusto, que, dentro da Londres vitoriana, foi um personagem muito importante na esfera artística do século XVIII. Antecipei outro filme, que é outra adaptação de Raul Brandão: “A Pedra à Espera da Flor”. É feito a partir de uma adaptação de “A Morte do Palhaço” e de várias obras do Raul Brandão. Nosso filme em produção agora é o trabalho mais recente do Edgar Pêra, chamado “Não Sou Nada”. É um filme que se dentro da cabeça de Fernando Pessoa, sobre a luta e o embate dos homens pelo domínio da obra de Fernando Pessoa. Será um filme esquizofrênico, baseado nos últimos estudos sobre o Fernando. Eu diria que talvez seja para o início do próximo ano.

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