Rodrigo Aragão voa no SPACE sideral do medo

Rodrigo Aragão voa no SPACE sideral do medo

Rodrigo Fonseca

25 de outubro de 2021 | 14h39

Jesuístas ensandecidos por uma leitura corrupta da fé levam o Mal ao Brasil no longa “O Cemitério das Almas Pedidas”

RODRIGO FONSECA
Halloween tá aí na porta. Na data em que as abóboras sorriem fantasmagorias, dia 31 de outubro, o canal SPACE leva à TV a cabo o Festival Horrorama com a exibição de uma pérola nacional do assombro: “O Cemitério das Almas Perdidas”, às 21h. Acostumado a driblar orçamentos mirrados com uma criatividade tamanho GG e com fartos talentos para efeitos visuais, seu, diretor, o capixaba Rodrigo Aragão, hoje uma referência mundial quando o assunto é filme de terror, estabelece, filme a filme, a fama de ser um mestre do terror. Hoje, ele é o herdeiro do legado de José Mojica Marins, que nos deixou em 2020.
Consagrado no exterior (mesmo sem ter tido o devido espaço no circuito nacional) com “Mangue Negro” (2008) e “A Noite do Chupacabras” (2011), Aragão aprendeu que apostar na fantasia, no cinema nacional, é uma tarefa de dar medo. Em “O Cemitério das Almas Perdidas”, ele realiza um feito histórico (em todas as latitudes do termo) em nossa produção audiovisual, ao construir uma espécie de épico do macabro, com um domínio infalível das ferramentas do gênero no qual é um artesão. Divido entre instâncias de tempo distintas, embaralhando memória, alucinação, passado e presente, o realizador narra a chegada do Livro de São Cipriano (literatura capaz de evocar energias das trevas) às Américas, pelas mãos de um jesuíta (Renato Chocair). O sacerdote é indiferente ao derramamento do sangue alheio e não mede esforços para alcançar o poder que almeja. Ao pisar em terras latinas, com seu Português quinhentista, ele e seus acólitos exterminam indígenas, usando o ocultismo de Cipriano como palavra de ordem, estraçalhando populações em massa. Destaca-se no bando, numa luminosa atuação, o violento soldado Homero, vivido pelo ator Roberto Rowntree. Homero está para este filmaço como Jaws (Richard Kiel), o vilão da mandíbula de aço, estava para a franquia “007”: ele é o braço armado do Mal. Na trama filmada por Aragão, Homero é a mão que balança o berço do demônio da Intolerância, conjurado pelo jesuíta ciprianista. Mas diante de toda a truculência que eles espalham, a Natureza reage, confinando-os Eternidade adentro numa calunga, um depósito de cadáveres. Eis que, eras à frente, esses seguidores do legado de Cipriano vão clamar pela jugular alheia de novo, atacando uma trupe circense que tem o ótimo Francisco Gaspar como motorista de seu caminhão. Só quem pode enfrentá-los é um sonhador, Jorge (Diego Garcias), cujos devaneios têm o calor do sol.

p.s.: Em sua 45ª edição, a Mostra de São Paulo segue a todo vapor, em versão presencial e online. Sua porção via web, a Mostra Play, exibe o obrigatório “Madalena”, de Madiano Marcheti, que representou o Brasil em Roterdã e em São Sebastián. Com toques de suspense e muita contemplação, esta silenciosa narrativa explora as sequelas existenciais (e morais) do assassinato de uma mulher três, vista sob a ótica de personagens distintos. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a longa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

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