‘Rocky’ chega aos 40 anos, inspirando documentários e exibições especiais

‘Rocky’ chega aos 40 anos, inspirando documentários e exibições especiais

Rodrigo Fonseca

01 de novembro de 2016 | 10h05

As filmagens de

As filmagens de “Rocky, um Lutador” foram de 5 de janeiro de 1976 a 9 de março daquele ano: três Oscars como saldo e bilheteria de US$ 225 milhões

RODRIGO FONSECA
Hoje mítica, a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia virou História a partir do dia 21 de novembro de 1976, data da primeira exibição pública de Rocky, o Lutador, que vai comemorar agora em 2016 seu 40º aniversário, num momento no qual o heroísmo marxista representado pelo filme – a volta por cima na luta de classes, com uma redenção do proletariado – parece ter desaparecido das discussões cinéfilas. Tem uma sessão dupla da franquia nesta quarta, dia 2, a partir das 19h40, no Telecine Cult. Vai ter o original – laureado com os Oscars de melhor filme, diretor e montagem – e ainda a sua continuação, de 1979, com direito à dublagem original, o que nos dá a chance de ouvir, da boca de Sylvester Stallone, a voz de um dos maiores atores deste país: André Filho. A direção é de John G. Avildsen, cuja trajetória de sucessos está sendo lembrada por um par de documentários, ambos em produção, previstos para 2017, dirigidos por Derek Wayne Johnson: The King of Underdogs, centrado na carreira do realizador (que faria ainda a franquia Karate Kid), e 40th Years of Rocky – The Birth of a Classic, no qual passa em revista o processo de conversão de Stallone em um astro.

Quando vendeu seu roteiro (escrito em três dias e meio, como ressaca pós uma luta de Muhammad Ali) para a United Artists, sonhando protagonizá-lo, Stallone ouviu toda a sorte de nomes mais famosos do que ele como potenciais escolhas para viver o Garanhão Italiano: os mais cotados eram Robert Redford, Ryan O’Neal, Burt Reynolds e James Caan. Mas ele bateu o pé: só venderia o script se o papel fosse seu. E Irwin Winkler e Robert Chartoff bancaram a escolha, levantando o filme com orçamento de US$ 1 milhão. Pensaram em Carrie Snodgress e Susan Sarandon para viverem Adrian, mas quem levou a personagem foi Talia Rose Coppola Shire, maninha de Francis Ford. Para o lugar de Apollo, o Doutrinador, pensou-se no boxeador Ken Norton, mas quem ganhou o short com as cores e listas da bandeira dos EUA foi Carl Weathers.

Sessão no dia 2, 19h40, no Telecine: Stallone e Carl Weathers

Sessão no dia 2/11, 19h40, no Telecine: Stallone e Carl Weathers

 Dia 21/11/1976 foi a première em Nova York e no dia 3 de dezembrou aconteceu a estreia nacional do longa-metragem, que faturou US$ 225 milhões nas bilheterias, rendeu seis continuações (sendo Creed, de 2015, a mais elogiada), inspirou um musical à Broadway e rendeu uma mítica sem precedentes. Até aqui no Brasil, onde pipocou gente batizada com o nome Silvestre e Silvester ou apelidada de Balboa ou Stallone.

E houve também, em torno de Rocky, casos de geopolíticas, como se pode conferir no livro É Fundamental o Cinema na Vida da Gente, organizado pela designer Hannah 23, que será lançado no dia 10 de novembro, Instituto Europeu de Design, no Rio, com depoimentos sobre filmes que salvaram vidas. O P de Pop entrou lá para falar do longa no qual um pugilista de beira de esquina se transformava em ídolo nacional ao desafiar o campeão. Essa história (real), depende que você volte 31 casas (ou anos) até 1987. Estamos no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, em Bonsucesso. Naquela época a Polícia – com o apoio das Forças Armadas – instalaram um posto de vigia por lá, em função de suas trocas de tiros com os traficantes locais. A fim de controlar a população, revistava-se a tudo e a todos, inclusive um português já cinquentão àquela época, que andava sempre sujinho de poeira de batatas e de graxa. O nome dele era João dos Reis, egresso de Armamar, em Lamego. Seu João, quase analfabeto, falava com um sotaque carregado e não sabia escrever muito mais do que números e seu próprio nome. A cada subida na ladeira da Cajuípe, com seu falar rústico, ele tomava uma bordoada na cara de um fardado que abusava do Poder. E isso era testemunhado por seu filho de sete anos, trepado no cume de uma poltrona desbotada. Da janela do Adeus, o guri vislumbrava a agressão como um destino sem volta. Isso até o dia em que viu Rocky, um Lutador na TV.

A Filadélfia à luz de James Crabe

Filadélfia à luz do fotógrafo James Crabe, nos acordes de Bill Conti

Aquela versão suarenta e suburbana de Cinderella deu ao rapazinho de sete anos um horizonte maior do que o Complexo do Alemão: no cinema, havia redenção. O Tempo passou, seu João morreu (sem numa ter pisado numa sala de exibição), mas o filho dele – que escreve este blog – seguiu por outras lutas – algumas melhores, outras piores – mas nunca tirou Rocky do coração. A proximidade desse aniversário de 40 anos da série de Balboa diz mais do que a imortalização midiática de um filme: abre a deixa para uma reflexão sociológica do peso do cinema na formação de todos nós.

Obrigado, Stallone, por ser o meu amigo imaginário há tanto tempo.

p.s.: De acordo com o site Awards Daily, maior termômetro dos prêmios audiovisuais de Hollywood, a lista de potenciais indicações ao Oscar inclui: La La Land: Cantando Estações; Manchester à Beira-Mar; Moonlight; A Chegada;  Loving; Jackie;  Sully; Lion; Hell or High Water; 20th Century Women; Até o Último Homem; Miss Sloane;  A Longa Caminhada de Billy Lynn e Denial. Mas nada me tira da cabeça que a disputa vá ficar entre Fences, de Denzel Washington, e Silêncio, de Martin Scorsese.

p.s.2: A partir desta terça, três cults da obra do dínamo luso José Miguel Ribeiro serão exibidos na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, no menu da MONSTRA – Mostra Oficial de Animação Portuguesa, em cartaz até o dia 13: A Suspeita (2000), Abraço do Vento (2005) e Viagem a Cabo Verde (2010). É uma mostra primorosa pela seleta de títulos.