Rocky Balboa em apogeu documental

Rocky Balboa em apogeu documental

Rodrigo Fonseca

20 de março de 2020 | 14h21

Rodrigo Fonseca
Zapeando o catálogo da Amazon em busca de algo para preencher o vazio destes dias de quarentena por conta do Coronavírius, esta joia documental salta aos olhos:
https://www.amazon.com/King-Underdogs-Sylvester-Stallone/dp/B0751PPRVP
Derek Wayne Johnson é um ator e diretor americano que vem se especializando em mapear a mítica de uma certa linhagem sociológica do cinema de seu país feito nos anos 1970, com base na obra do cineasta John G. Avildsen (1935-2017) e de seu mais famoso longa-metragem: “Rocky, um lutador” (1976). “King of Underdogs” é um estudo sobre o legado de Avildsen em seu olhar sobre excluídos de uma classe operária paupérrima que se afirmam pela resiliência, como o Garanhão Italiano e Daniel San, de “Karatê Kid: A Hora da Verdade” (1984). Em seguida, DWJ dirigiu um .doc sobre o cantor Frank Stallone, o irmão caçula de mano Sylvester. Este, “Stallone, Frank: That Is”, já ganhou prêmios por sua arejada estrutura narrativa de foco biográfico. E ele tem agora “40 Years of Rocky: The Birth of a Classic”, que há de ser lançado quando a pandemia passar.
“Tanto o filme sobre Rocky quanto o longa sobre Frank vão ser lançados este ano”, disse Derek ao P de Pop, tendo selecionado imagens raras da saga de Balboa para seu novo filme.

Hoje mítica, a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia virou História a partir do dia 21 de novembro de 1976, data da primeira exibição pública de “Rocky, um Lutador”, que comemorou em 2016 seu 40º aniversário, num momento no qual o heroísmo marxista representado pelo filme – a volta por cima na luta de classes, com uma redenção do proletariado – parece ter desaparecido das discussões cinéfilas. Quando vendeu seu roteiro (escrito em três dias e meio, como ressaca pós uma luta de Muhammad Ali) para a United Artists, sonhando protagonizá-lo, Stallone ouviu nomes mais famosos do que ele serem citados como potenciais escolhas para interpretar o Garanhão Italiano. Os mais cotados eram Robert Redford, Ryan O’Neal, Burt Reynolds e James Caan. Mas Stallone bateu o pé: só venderia o script se o papel central fosse seu. E Irwin Winkler e Robert Chartoff bancaram a escolha, levantando o filme com orçamento de US$ 1 milhão. Pensaram em Carrie Snodgress e Susan Sarandon para viverem Adrian, mas quem levou a personagem foi Talia Rose Coppola Shire, maninha de Francis Ford. Para o lugar de Apollo, o Doutrinador, pensou-se no boxeador Ken Norton, mas quem ganhou o short com as cores e listas da bandeira dos EUA foi Carl Weathers.
Dia 21/11/1976 foi a première em Nova York e no dia 3 de dezembro aconteceu a estreia em circuito expandido nos EUA do longa-metragem, que faturou US$ 225 milhões nas bilheterias, rendeu seis continuações (sendo “Creed”, de 2015, a mais elogiada), inspirou um musical à Broadway e rendeu uma mítica sem precedentes. E houve também, em torno de Rocky, casos de geopolíticas, como se pode conferir no livro “É Fundamental o Cinema na Vida da Gente”, organizado pela designer Hannah 23, apresentado como dissertação no Brasil, no Instituto Europeu de Design, no Rio de Janeiro, com depoimentos sobre filmes que salvaram vidas. Está lá a saga do pugilista de beira de esquina se transformava em ídolo nacional ao desafiar o campeão mundial. Fala-se muito da franquia Balboa também em “The Ultimate Stallone Reader – Sylvester Stallone as Star, Icon, Auteur”, organizado pelo professor Chris Holmlund, da Universidade do Tennessee, com o apoio de um corpo docente de teóricos das maiores faculdades dos EUA. O livro traz Rocky na capa, também numa forma de celebrar seus 40 anos e entender sua mítica ao longo das décadas, de 1976 pra cá.
Obrigatório como reflexão sobre a evolução comportamental dos gêneros, a partir do audiovisual, o livro, publicado pela Wallflower Press, começa com um mapeamento dos bilhões que Stallone rendeu para os estúdios americanos, seja em fenômenos como a franquia Rocky quanto em produções de menor rentabilidade (mas marcadas pela adoração popular) como “Falcão, o Campeão dos Campeões” (“Over The Top”, de 1987). Orçado em US$ 35 milhões, Creed arrecadou US$ 172 milhões na venda de ingressos. Na comparação com os demais astros de ação, Holmlund mostra que, diferentemente de Schwarzenegger ou Bruce Willis, que apenas atuam, Sly sobressaiu-se em outros terrenos, produzindo, escrevendo e dirigindo. Os professores apontam o fato de que foram raríssimos os atores, em toda a História do Cinema, que conseguiram emplacar DOIS personagens icônicos e míticos, como Stallone conseguiu com Balboa e Rambo. Quando recebeu o Globo de Ouro de melhor coadjuvante por Creed, ele chamou Rocky de seu “amigo imaginário”, referindo-se a ele como “o melhor amigo que alguém poderia ter”. De uma certa forma, Rocky virou o amigo imaginário de todos nós. Longa vida a essa amizade.

p.s.: Neste domingo, às 14h, tem “Menino Maluquinho” (1995), de Helvécio Ratton, na TV Brasil. Na trama, Maluquinho (Samuel Costa) é um garoto travesso de classe média. Apesar de sua peraltice, ele sofre um baque com a separação dos pais. Vovô Passarinho (Luiz Carlos Arutin) decide o levar em férias para o interior de Minas Gerais. Lá o menino vive aventuras incríveis com os amigos. O gênio Ziraldo é a fonte desta delícia do cinema da Retomada.

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