‘Rocketman’ e a rapsódia de Elton John: um astro still standing

‘Rocketman’ e a rapsódia de Elton John: um astro still standing

Rodrigo Fonseca

30 de maio de 2019 | 11h36

Rodrigo Fonseca
Estreia hoje o que pode vir a ser o maior blockbuster “adulto” de 2019: “Rocketman”, longa-metragem com cicatrizes, mas de possante transbordamento poético na discussão sobre a cultura das celebridades e sobre a incapacidade nossa de aceitar nossas identidades essenciais.
Veio lá de Cannes. E a Coisette tem seus ditados populares, jargões e bordões: “O rock’n’roll salvou minha vida” é um deles, dito múltiplas vezes neste solo sagrado da imagem por um adorador da música Wim Wenders. Há duas semanas, no dia 16/5, um desses salvamentos executados pelo tal de roquenrol pediu passagem pela telona do Palais des Festivals cannoise, com plumas, paetês, purpurinas, dor e quilos de afeto: “Rocketman”, um monumental ensaio sobre sabotagens emotivas na estrada de tijolos amarelos que pavimenta o caminho para o sucesso na cultura pop.

Embora entorne da mesma torneira de onde veio “Bohemian Rhapsody”, unido à cinebiografia do Queen por códigos de um gênero, o biopic musical, e pela direção artística do inglês Dexter Fletcher, “Rocketman” não borbulha como seu antecessor, nem exultando picardia, nem gotejando ousadias, uma vez que optou por um recorte narrativo mais engessante, que faz da forma um opressor das liberdades, as morais e as dramatúrgicas. Não estamos diante de um filme de autor, calcado numa antologia de memórias sensoriais como foi o fenômeno popular sobre os feitos de Freddie Mercury (que custou US$ 52 milhões e faturou US$ 903 milhões). A releitura alegórica das peripécias criativas e emotivas de Reginald Kenneth Dwight, aka Elton John, está mais preocupada em ser uma ponte de fatos reais com a tradição dos musicais, não obedecendo códigos realistas, nem respeitando precisões históricas. Bom… o filmaço de Bryan Singer sobre Mercury também não se preocupava em ser acurado com a cronologia factual na qual se inspirou (vida a troca de datas do Rock in Rio), mas, ali, havia uma ordenança autoral em prol da mitomania. Singer é um realizador sobre pessoas que iludem para se inventar. Não há ainda um traço identitário perceptível no cinema de Fletcher, ator de “Caravaggio” (1987) e “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (1998), que lançou-se em uma carreira paralela de produtor e de realizador. Foi ele quem produziu “Bohemian…”, desenhando o perfil final do longa-metragem depois que Singer acabou afastado por problemas pessoais e profissionais com a equipe. Mas Fletcher se esforçou lá. E se esforça mais ainda aqui.

Fez até pensar em Wenders. E em Freddie Mercury. Que mistura!

Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em “Paris, Texas” (1984), Wenders, o diretor de joias como “Buena Vista Social Club” (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois ele mostra o limite entre tédio e vazio existencial”. Poucos longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que “Bohemian Rhapsody”, um “filme de autor” com “A”, feito por um realizador sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, enxerga a relação essencial da imagem com outros vertores da arte, como a canção pop. Bryan Singer é seu nome e você o conhece da franquia “X-Men”. Mas ao ser afastado dos sets desta releitura personalíssima dos feitos do grupo Queen, sob acusações, reclamações e gasturas com o astro Rami Malek, Singer ganhou o auxílio de um ator-diretor de evolução notável: Dexter Fletcher. Ele finalizou a suntuosa saga do Queen, que custou US$ 54 milhões e faturou cerca de US$ 900 milhões. O resultado de seu toque de Midas se faz notar em “Rocketman”. Um toque autoral. Ambos os filmes abordam a questão da autorregeneração. Freddie e Elton são Wolverines da cena roqueira: mutantes com o poder de se regenerarem de suas próprias cicatrizes, de seus próprios boicotes.

Regada a lágrimas, salvas de aplausos durante a projeção e coro da plateia em suas canções mais famosas, a sessão de “Rocketman” se candidata ao posto de exibição mais comovente do evento, em 2019. Elton foi à Croisette conferir o que Fletcher fez a partir das memórias de sua vida, da infância ao recomeço, nos anos 1990, após uma guerra contra o alcoolismo. O músico foi saudado, ao fim da projeção, com dez minutos de palmas inflamadas, de pé. E havia umas 2 mil pessoas no Grand Théâtre Lumière, a maior das salas do Palais des Festivals.

Envolvido desde setembro numa turnê de despedida nos palcos, com previsão de rodar 300 cidades do mundo em sua trajetória, o cantor e compositor inglês de 72 vai conversar com a imprensa sobre “Rocketman” nesta sexta. Ele vai comentar licenças poéticas da direção, que aposta num tom não realista de musical, com direito a cenas de Elton levitando e até sendo catapultado ao espaço, como se fosse um foguete. Dirigido pelo ator Dexter Fletcher, o longa-metragem é uma cinebiografia centrada a habilidade  de Elton para se sabotar. Fletcher seguiu uma linha dramatúrgica de conflitos nos moldes do fenômeno popular “Bohemian Rhapsody, que  conquistou quatro Oscars. Há uma torcida por um destino similar para a produção de US$ 40 milhões que põe o jovem ator britânico Taron Egerton (herói da franquia “Kingsman”) na pele de Reginald Kenneth Dwight, o nome verdadeiro de Elton. E ele está inspiradíssimo em cena, em estado de graça. Sua dinâmica começa numa sessão de terapia para Alcoólicos Anônimos. Ali, ele, fantasiado, senta e desfia seu rosário de mágoas.

“Eu sou muito feliz com a minha arte, não consigo me imaginar sem fazer música, mas tenho dois filhos para criar, o que me dá a sensação de que é chegada a hora de parar com os shows pelo mundo e ficar com eles. Esta turnê agora é a minha chance para agradecer os fãs por todo o carinho desses anos todos”, disse o cantor em entrevista à imprensa americana quando sua biopic começou a ser filmada.

Há dissonâncias nela. Mas apesar delas, Fletcher constrói sequências memoráveis. O batismo de Elton para o estrelato, com “Crocodile Rock”, com a plateia flutuando, candidata-se à eternidade. Há uma força similar na sequência em que ele entra numa reunião dos Alcoólicos Anônimos, com uma de suas fantasias, para assumir seu vício. E não há possibilidade de se arrancar a sequência em  que se ouve “I’m still standing” da cabeça. No roteiro, subserviente demais à dinâmica dos números de canto e dança – como se espera de um bom musical, mas não de um biopic -, a rejeição que sempre marcou sua rotina com o pai e a relação um tanto distante com a mãe (Bryce Dallas Howard, perfeita) fizeram com que Reginald buscasse outra identidade. Daí virar Elton. No filme, esse processo se mistura com a caça ao sucesso, mas também com a solidão. Um dos destaques dessa travessia é o casamento de alma com o letrista Bernie Taupin, papel que Fletcher confiou a um luminoso Jamie Bell, o astro mirim de “Billy Elliot” (2000), hoje já adulto. As brigas entre Taupin e Elton servem de motor ao filme, que revela os excessos do cantor. Mesmo com os conflitos, Taupin nunca deixou de se preocupar com o amigo, o que dá ao longa uma dimensão comovente de bromance, vitaminada plasticamente pela fotografia de George Richmond.

Aos 29 anos, Egerton, que contracenou com Elton em “Kingsman: O Círculo Dourado”, de 2017, afirmou à imprensa europeia que não quer alimentar grandes ambições comercias acerca do filme, para que a expectativa não vire contra o projeto. “Estarei em paz com a bilheteria que ele fizer, mas torço para que vá muito bem”. A julgar pela apaixonada reação do público, e pelo abraço que ganhou de Elton, ele foi aprovado. E o público há de aprová-lo também. É um desempenho para ficar na memória… e no coração.

Diante dessa celebração toda, temos um movimento no ar. Frente ao estouro de “Bohermian Rhapsody” em sua trajetória pelas telas, a indústria do cinema hoje saliva por filmes que abordem a história real de músicos pop cuja vida foi cheia de som e de fúria, como é o caso agora de “Rocketman” edo esperado “Variações”, de Portugal. Dirigido por João Maia, que escreveu o roteiro com Karen Sztajnberg (de “Casa Grande”), o longa-metragem, previsto para estrear em 22 de agosto, é o biopic sobre o Freddie Mercury dos portugueses, o cantor António Variações (1944-1984), cuja carreira meteórica hoje é objeto de culto na Europa. Ele era um cabeleireiro, dono de salão unissex e de barbearia, que virou ícone na cena pop a partir de 1981, quando se apresentou no programa “Passeio dos alegres”, de Júlio Isidro. Amália Rodrigues era sua diva.

“Não é bem rock o que ele fazia: diríamos que Variações foi pop”, explica o crítico luso Hugo Gomes, do site “C7nema”. “Para além de ter sido um icone LGBTQ de um país que ainda lidava com o conservadorismo deixado pelo Estado Novo, António Variações foi um artista acima do seu tempo no panorama português, cruzando a tradição musical com a sofisticação pop e queer. Os seus hits são hoje hinos que atravessam gerações e mentalidades  Em termos musicais, Variações fica ligeiramente abaixo de Amália”.

Nascido António Joaquim Rodrigues Ribeiro, Variações tinha um lema: “Nunca me preocupei com a moda. Preocupo-me, isso sim, com a estética”. Seu primeiro álbum foi editado em 1983 e recebeu o título de “Anjo da Guarda”. Incluía canções como “É pra amanhã” e “O corpo é que paga”.  No ano seguinte, grava o que viria a ser seu último álbum, “Dar e receber”, que incluía a memorável Canção de engate”. No filme, Sérgio Praia interpreta o músico. Um dos maiores atores do Brasil na atualidade, Augusto Madeira está no elenco no papel do jornalista Luís Vitta (1945-2015), paulista radicado em solo português, onde escreveu sobre música para a “Blitz” e para o programa “Meia de Rock”. Maria José Pascoal vive Amália no filme, que merecia um destaque nos festivais brasileiros.

 

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