Roberto Berliner em saudades documentais

Roberto Berliner em saudades documentais

Rodrigo Fonseca

21 de novembro de 2020 | 11h36

Roberto Berliner no Zoom do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Baile da saudade em forma de reminiscências documentais, a participação do diretor Roberto Berliner no seminário Na Real_Virtual, na noite de sexta-feira, tirou o evento das CNTP, levando-o a um coeficiente passional dos mais comoventes, em especial nas lembranças de bastidor dos fatos que alimentaram o seminal “Farra do Circo” (2013), codirigido por Pedro Bronz. Seus depoimentos aos curadores Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes levaram a sala de Zoom do NRV (povoada por cerca de 250 ouvintes inscritos por cada encontro) em uma viagem no tempo. Um tempo de liberdade.
“Essa coisa do tempo para mim, é engraçada. Na juventude, eu tinha certeza que seria ator. Escolhi uma faculdade de comunicação e lá participei de um grupo de teatro, nos anos 1970. Em seguida, fundamos um cineclube para mostrar filmes clandestinos. Um dos integrantes tinha uma Super-8 em casa e pedi para ele levar pra gente. Foi o meu primeiro contato com uma câmera dessas, filmando manifestações estudantis. Depois, em 1980, fiz um concurso para entrar no Cedoc (departamento de pesquisa) da TV Globo. Fiquei apaixonado, pois ali é provavelmente a fonte mais rica fonte de audiovisual no Brasil. No meu primeiro dia, eles estavam introduzindo o computador na recuperação de imagens. Essa coisa da importância do tempo, aprendi ali. O efeito teve a ideia de a gente fazer um circo. Acabamos fundando o Circo Voador. Comei a filmar em VHS e o Circo Voador foi um acontecimento muito importante na minha carreira. Saí da Globo para entrar no Circo. Com o dinheiro do fundo de garantia, eu comprei uma câmera VHS e filmava os bastidores do Circo. Fiquei um bom tempo registrando tudo”, disse Berliner, que teve sua obra como cineasta revisitada no simpósio, promovido na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.

Ao estruturarem a conversa, Abrantes e Mattos adotaram um dos maiores sucesso do diretor, “A Pessoa É Para O Que Nasce” (prêmio de melhor filme no Cine Ceará de 2005) como motor de arranque do papo. O longa-metragem é centrado na trajetória de três irmãs cegas cuja profissão é cantar e tocar ganzá. “Haveria muitos eixos para explorarmos a presença de Roberto Berliner no seminário”, diz Mattos. “O interesse pela música, pedra fundamental de sua carreira, seria um deles. Mas foi justamente a música que acabou levando-o a se relacionar com personagens especiais como as cantoras cegas de Campina Grande e o roqueiro Herbert Vianna, que ficou paraplégico após um grave acidente. Berliner tem o pendor para tratar esse tipo de personagem com delicadeza, mas sem paternalismo. O mesmo se percebe na maneira como ele e Pedro Bronz filmaram os integrantes do circo de Pindorama: A Verdadeira História dos Sete Anões. Isso chamou a atenção da nossa curadoria, e o escalamos para falar desse processo cheio de desafios. Há aí, talvez, um certo ineditismo no manejo desse assunto no campo dos documentários”.
Ao relembrar as experiências das três protagonistas de “A Pessoa É Para O Que Nasce”, Mattos perguntou: “O que é filmar o que não vê? Quem não vê? Qual tipo de preocupação passava pela sua cabeça em temos de como essas mulheres apareceriam?”. A resposta de Berliner: “Esse era um tema recorrente da própria filmagem. Com elas, era um tema recorrente: a visão era uma questão chave da história no início, mas o que me aproximou delas foi como as três se organizaram para viver naquele mundo tão hostil. É um tema recorrente nos meus filmes, o coletivo. Fui percebendo como cada uma tinha uma função ali dentro. Quando encontramos as três, elas viviam em um mundo cruel, a miséria era muito grande, faltava tudo: comida, roupa, educação. Acho que aquelas mulheres tão desprezadas passaram a ter um destaque muito grande com a equipe de filmagem ali. Toda a linguagem do filme é visual. De alguma maneira, todos os personagens de filmes são um pouco cegos ao que o filme será depois de montado. Essa questão está lá”.

Segunda é dia de o Na Real_Virtual falar de documentário de gênero com Claudia Priscilla e Kiko Goifman, a partir do fenômeno “Bixa Travesty” (2018). No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo, o aplauso e um lugar de honra na História, a do nosso cinema, por ser uma reação e uma proposição em um tempo de doença (em múltiplos níveis). Cada conversa é um curso de em si.

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