Rithy Pahn e sua fábula.doc

Rithy Pahn e sua fábula.doc

Rodrigo Fonseca

11 de fevereiro de 2022 | 14h13

Cineasta cambojano evolui o dispositivo do aclamado “A Imagem Que Falta” e cria dioramas com bonecos de animais em “Everything Will Be Ok”

RODRIGO FONSECA
É difícil saber o que é fábula e o que é um retrato factual da realidade no belíssimo “Everything Will Be Ok”, .doc com cara de instalação, de videoarte e até de animação stop motion feita pelo cambojano Rithy Pahn em disputa pelo Urso de Ouro de 2022. Mais difícil ainda é tirar da cabeça suas abrasivas reflexões sobre a opressão política representada como uma distopia, por meio de dioramas de bonecos em formas animais. Animas que escravizam seres humanos numa metáfora para a falência democrática em vários países. Sua recepção foi polêmica na capital alemã, na competição oficial da 72. Berlinale, uma vez que sua maneira de retratar a crueldade por meio de bichos parece não ter sido entendida ou apreciada de modo integral. Sua amargura assustou. Mas não houve quem não se encantasse com a força plástica do novo longa do realizador de “A imagem que falta” (prêmio Un Certain Regard em Cannes, em 2013).
“Gosto do processo de edição e gosto da dimensão poética que há na tecnologia que arranja as imagens em movimento numa cadência, mas nunca sei, de largada, qual é a ideia de dominação que a edição de uma narrativa vai me revelar quando faço um filme ao discutir o totalitarismo. O que eu tento é pensar o quanto o nosso tempo está fragilizado e saber qual é o papel do cinema nele”, disse Pahn em resposta ao Estadão. “Estamos perdendo nossa memória. E estamos perdendo nossa liberdade. Neste momento de covid, não sabemos o que estamos vivendo, mas a máscara talvez seja uma libertação”.

Rithy Pahn no evento germânico

Há dois anos, Pahn saiu da Berlinale com o Prêmio de Melhor Documentário por
“Irradiés”, mistura de imagens de arquivo com balé pra falar do horror da guerra. “Ao lidar com a Natureza, eu tento buscar essências”, diz o diretor.
Logo após a projeção de “Everything Will Be Ok”, a competição pelo Urso de Ouro levou a Berlinale de volta à França, onde o evento começou, na quinta, com “Peter von Kant” (só se fala do belíssimo trabalho de seu protagonista, Denis Ménochet, por aqui, numa reinvenção do cineasta Rainer Werner Fassbinder), mas agora pela mão de Claire Denis. Aos 75 anos, a diretora de “Bastardos” (2013) volta às telas com “Avec Amour et Acharnement”. Batizado inicialmente de Feu, seu novo longa, acompanha um turbilhão afetivo na vida de um casal: Sara e Jean (Juliette Binoche e Vincent Lindon). A paz deles pode ser abalada quando um antigo amor do passado de Sara, François, vivido por Grégoire Colin, reaparece. “Eu penso filmes como experiências. E esta nasceu no meio da pandemia. Foi escrita quando eu estava isolada, sem ir ao cinema”, disse a diretora ao Estadão. “É menos um filme sobre um amor a três e mais uma história sobre algo que não se resolveu”.

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