Ritesh Batra e a lente do querer

Ritesh Batra e a lente do querer

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2019 | 15h35

Sanya Malhotra é uma jovem estudante que se encanta pelo fotógrafo vivido por Nawazuddin Siddiqui em “Retrato do Amor”

Rodrigo Fonseca
Traduzido no Brasil como “Retrato do amor”, a iguaria cinematográfica indiana “Photograph”, que arrancou lágrimas no Festival de Berlim, vai entrar em circuito no Brasil no próximo dia 8. Um dos últimos filmes a estrear no evento alemão, onde passou em sessão hors-concours, cercado de elogios, o longa-metragem é dirigido por Ritesh Batra, conhecido nestas terras por “Lunchbox”, que grudou no gosto dos frequentadores do Grupo Estação e de outras salas de arte do Rio há cinco anos. De uma delicadeza rara, o diretor levou Berlim a uma Índia pé no chão, do dia a dia, sem a suspensão do realismo dos musicais de Bollywood, muito coloridos e cheios de fantasia. Sua trama é uma espécie de “Cinderela”, só que troca o sapatinho de cristal por um retrato: um lambe-lambe pobretão revira Mumbai para encontrar a estudante que fotografou numa tarde, encantado pela beleza da jovem. Nela, há algo de transcendente.

“Cada filme se comporta de um jeito particular, sem repetir, necessariamente, o que os nossos trabalhos anteriores fizeram. A boa recepção a ‘Lunchbox’ se deu em função de um estilo, que, neste novo longa, vai por uma aposta numa narrativa realista, com locações ao ar livre. Existe muita diversidade nas plateias da Índia: há espaço para todo tipo de história”, disse Batra na Berlinale.

Com sabor de conto de fadas (ao curry) e temperos de comédia romântica com Julia Roberts, “Retrato de amor” foi um sopro de doçura em uma seleção como a da Berlinale, sempre pautada pela política e por filmes combativos. Marcada pelo multiculturalismo, o filme acompanha o dilema amoroso do fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que ganha o pão do dia a dia tirando retratos em pontos turísticos. Um dia, ele tira um retrato de uma moça de alta classe média, Miloni (Sanya Malhotra, estrela do fenômeno de público indiano “Dangal”). Interditada por dilemas financeiras, a paixão entre eles, discretíssima, vai sendo desenhada na tela como um ritual etnográfico sobre tradições da Índia. Miloni quer evitar um noivado forçado. Rafi precisa de uma noiva, para dar satisfação à família. O encontro é perfeito… sobretudo por eles se gostarem de verdade. Mas contratempos financeiros vai dar um gostinho de folhetim ao longa, de inegável apuro dramatúrgico.

“Os filmes ganham mais força quando dialogam com outras obras”, diz Batra. “Tem algo do cinema de Alexander Payne e de Asghar Farhadi aqui, mas com um esforço de olhar a Índia sob o meu ponto de vista, minha subjetividade”.

p.s.: Mais prestigiada maratona cinéfila da Espanha, o Festival de San Sebastián, cuja 67ª edição vai de 20 a 28 de setembro, vai realizar uma retrospectiva da obra do cineasta mexicano Roberto Gavaldón (1909-1986), consagrado mundialmente por longas como “A escondida” (1956) e “O menino e a névoa” (1953). Sua obra é um dos pilares do melodrama hispânico.

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