Rita Azevedo Gomes desafia ranços medievais nos maiores festivais da Europa

Rita Azevedo Gomes desafia ranços medievais nos maiores festivais da Europa

Rodrigo Fonseca

06 de junho de 2019 | 10h30

Ecos da Idade Média dão um tom histórico ao longa “Danses macabres, squelettes et autres fantaisies”, em concurso na seleção oficial do Festival de Marselha

Rodrigo Fonseca
Prestes a celebrar seus 30 anos de investigação sobre o Real, com um pacotão de 125 filmes de 35 anos, o Marseille International Documentary Festival, agendado de 9 a 15 de julho na França, vai dar espaço a uma das provocantes autoras cinematográficas da língua portuguesa em atividade na Europa: a lisboeta Rita Azevedo Gomes. Aos 67 anos, a diretora do premiado “Correspondências” (2016) participa da competição oficial, na seção de títulos franceses, com  “Danses macabres, squelettes et autres fantaisies”, pilotado a quatro mãos com Pierre Léon e construído com base em investigações sobre a imagem da Morte na Idade Média. Vão ter dois longas-metragens brasileiros em concurso lá: “Tremor Iê”, de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, e “Fendas”, de Carlos Segundo. A seleção é forte, com filmes de ficção nas franjas da estética documental e documentários de toada ficcional à flor da tela. Mas os holofotes que recaem sobre Rita estão ligados ao sucesso e o prestígio que a diretora alcançou no Festival de Berlim, em fevereiro, com uma radicalíssima (na forma e nas metáforas políticas) produção, em tom de fábula, vinda de Lisboa, exibida na mostra paralela Fórum: “A Portuguesa”. Foi um longa que tomou a 69ª Berlinale de assalto com sua reflexão sobre a magnitude feminina (pelas vias da sagacidade) e sua poética pacifista.

Revelada em 1990 com “O som da Terra a tremer”, Rita dirigiu esta viagem à Idade Média inspirada pelo desejo de entender a universalidade de conflitos ligados à fragilidade. Neste drama histórico, a cineasta parte de um diálogo com a literatura de Robert Musil (1880-1942) a fim de narrar a luta de uma jovem nobre para transformar um castelo em um lar, enquanto seu marido não se desgarra de seus compromissos com uma guerra nos confins do mundo. Na entrevista a seguir, ao Estadão, em solo alemão, Rita faz uma digressão sobre o tempo das narrativas.

“A portuguesa” foi um dos acontecimentos da Berlinale, arrebatando críticos com sua narrativa silenciosa, cheia de planos-sequência, com poucos diálogos. O que está dito nesse silêncio acerca da moral lusa?
Rita Azevedo Gomes: O silêncio que está impresso é o silêncio do Tempo. É o silêncio de toda a introspecção de uma mulher que busca entender o mundo à sua volta, falando o mínimo de si. Até os ruídos de batalhas eu diminuí. Há guerra. Mas o conflito que eu quero entender é o da portuguesa. E ela não vai contar o que se passa dentro de si. Precisamos nos aproximar dela para entender. 

E o quanto dessa introspecção, que se espalha também por “Danses macabres, squelettes et autres fantaisies”, alinha-se com os debates sobre empoderamento feminino dos novos tempos?
Rita Azevedo Gomes: Fala-se hoje de mulheres fortes. A força que me interessa é outra. É a força que existe na fragilidade. Minha protagonista é uma mulher frágil. E é nessa condição que reside sua potência.

Que Idade Média você busca recriar nesses filmes? 
Rita Azevedo Gomes: Aquela que fuja dos Romeus e Julietas. A imagem que temos do período medieval é de peste, de inquisição, de guerras religiosas. Temos pinturas que nos sugerem o que aquele tempo pode ter sido. Pinturas que ainda não carregam em si a dimensão teatral que as artes plásticas ganharão com a Renascença. O que eu tento é olhar para as figuras que tenho como se fossem pessoas de sempre, pessoas de hoje com roupas de ontem.

Seria uma forma de projetar o real de hoje no passado histórico?
Rita Azevedo Gomes:  Real é aquilo que eu toco. É uma mão que afago. É uma pedra que taco. Realidade é algo distinto. E é algo complexo. A realidade da História é eu estar na capital alemã e passar por um lugar por onde o Muro de Berlim passava e ainda me chocar que o alumbramento dessa percepção, mesmo sabendo o que o Muro foi e sabendo que ele caiu.

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