RIP John G. Avildsen, cronista dos (quase) derrotados

RIP John G. Avildsen, cronista dos (quase) derrotados

Rodrigo Fonseca

17 de junho de 2017 | 11h01

John G. Avildsen orienta o jovem Stallone nos bastidores de “Rocky, um Lutador”

RODRIGO FONSECA
Apelidado nos EUA de “o cronista dos derrotados”, por seu interesse em loosers em vias de dar a volta por cima, o cineasta americano John G. Avildsen morreu nesta sexta, aos 81 anos, deixando estagnado o projeto do drama Nate & Al (com Richard Dreyfuss) no momento em que sua memória vinha sendo celebrada por um par de documentários. Ambos dirigidos por Derek Wayne Johnson, os dois filmes em questão são The King of Underdogs e 40th Years of Rocky – The Birth of a Classic. O segundo explica-se pelo título: bastidores do sucesso de 1976, o maior êxito popular da carreira de Avildsen, que deu aos contos de fada uma dimensão social, numa espécie de Cinderela de luvas de boxe. Já o primeiro é uma investigação sobre a trajetória de sucessos do finado cineasta, resgatando o processo pelo qual transformou Sylvester Stallone em astro e investigando sua dedicação à franquia Karate Kid, outro marco da cultura pop que ele dirigiu. Meu Mestre, Minha Vida (1989), com Morgan Freeman, foi outro de seus pontos altos como realizador, antenado com os desequilíbrios sociais dos EUA.

O cineasta dirige o lutador Daniel San (Ralph Macchio) em “Karate Kid”

Hoje mítica, a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia virou História a partir do dia 21 de novembro de 1976, data da primeira exibição pública de Rocky, o Lutador, marco de um heroísmo marxista – a superação pela luta de classes, com uma redenção do proletariado – que parece ter desaparecido das discussões cinéfilas. Avildsen assumiu o projeto enquanto ainda colhia os louros pelo êxito de crítica de Sonhos do Passado (1973), pelo qual Jack Lemmon recebeu um merecido Oscar. Não havia no cineasta nenhum interesse em filmar box. “Mas havia naquele script escrito por Stallone uma jornada humanista de busca por um lugar na sociedade, um esforço redentor de um homem para se sentir incluído”, disse Avildsen, em uma das entrevistas alinhavadas pelos docs de Derek.

Avildsen era a minha principal referência estética de direção, além de ser um mestre, um amigo”, disse Derek ao P de Pop.

Quando vendeu seu roteiro (escrito em três dias e meio, como ressaca pós uma luta de Muhammad Ali contra Chuck Wepner) para a United Artists, sonhando protagonizá-lo, Stallone ouviu nomes mais famosos do que ele serem citados como potenciais escolhas para interpretar o Garanhão Italiano. Os mais cotados eram Robert Redford, Ryan O’Neal, Burt Reynolds e James Caan. Mas Stallone bateu o pé: só venderia o script se o papel central fosse seu. E Irwin Winkler e Robert Chartoff bancaram a escolha, levantando o filme com orçamento de US$ 1 milhão. Pensaram em Carrie Snodgress e Susan Sarandon para viverem Adrian, mas quem levou a personagem foi Talia Rose Coppola Shire, maninha de Francis Ford. Para o lugar de Apollo, o Doutrinador, pensou-se no boxeador Ken Norton, mas quem ganhou o short com as cores e listas da bandeira dos EUA foi Carl Weathers.

Dia 21/11/1976 foi a première em Nova York e no dia 3 de dezembro aconteceu a estreia em circuito expandido nos EUA do longa-metragem, que faturou US$ 225 milhões nas bilheterias, rendeu seis continuações (sendo Creed, de 2015, a mais elogiada), inspirou um musical à Broadway e rendeu uma mítica sem precedentes. E Avildsen saiu do primeiro filme com um Oscar de melhor direção nas mãos.

E houve também, em torno de Rocky, casos de geopolíticas, como se pode conferir no livro É Fundamental o Cinema na Vida da Gente, organizado pela designer Hannah 23, apresentado como dissertação no Brasil, no Instituto Europeu de Design, no Rio de Janeiro, com depoimentos sobre filmes que salvaram vidas. Está lá a saga do pugilista de beira de esquina se transformava em ídolo nacional ao desafiar o campeão mundial. Fala-se muito da potência criadora de Avildsen na série sobre Balboa também em The Ultimate Stallone Reader – Sylvester Stallone as Star, Icon, Auteur, organizado pelo professor Chris Holmlund, da Universidade do Tennessee, com o apoio de um corpo docente de teóricos das maiores faculdades dos EUA. O livro traz Rocky na capa, também numa forma de celebrar seus 40 anos e entender sua mítica ao longo das décadas, de 1976 pra cá.

Celebração do Oscars de melhor filme e direção dados pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, em 1977

Obrigatório como reflexão sobre a evolução comportamental dos gêneros, a partir do audiovisual, o livro, publicado pela Wallflower Press, começa com um mapeamento dos bilhões que Stallone rendeu para os estúdios americanos, seja em fenômenos como a franquia Rocky quanto em produções de menor rentabilidade (mas marcadas pela adoração popular) como Falcão, o Campeão dos Campeões (Over The Top, de 1987). Orçado em US$ 35 milhões, Creed arrecadou US$ 172 milhões na venda de ingressos. Na comparação com os demais astros de ação, Holmlund mostra que, diferentemente de Schwarzenegger ou Bruce Willis, que apenas atuam, Sly sobressaiu-se em outros terrenos, produzindo, escrevendo e dirigindo. Os professores apontam o fato de que foram raríssimos os atores, em toda a História do Cinema, que conseguiram emplacar DOIS personagens icônicos e míticos, como Stallone conseguiu com Balboa e Rambo.

Quando recebeu o Globo de Ouro de melhor coadjuvante por Creed, ele chamou Rocky de seu “amigo imaginário”, referindo-se a ele como “o melhor amigo que alguém poderia ter”. De uma certa forma, Avildsen também representou, com sua obra, um tipo imaginário de tutor para todos os que buscam no cinema um alimento para a perseverança.