Rio Fantastik: Shimamoto no traço da invenção

Rio Fantastik: Shimamoto no traço da invenção

Rodrigo Fonseca

13 de dezembro de 2020 | 10h38

Aos 81 anos, Julio Shimamoto é o homenageado do Festival Rio Fantastik

RODRIGO FONSECA
Todo dia é sexta-feira e toda hora é meia-noite, como se dizia no antigo reclame publicitário do gibi “Kripta”, também na obra horrorífica do quadrinista Julio Shimamoto, o shogun do chiaroscuro nas páginas da nona arte nacional, que tem uma HQ inédita para deslumbrar os leitores. Na ativa desde 1958, o desenhista de origem japonesa, nascido em Borborema, vai renovar (mais uma vez) o uso do preto & branco nas páginas do quadrinho brasileiro, ao lançar “O Lobisomem Errante”, uma saga de licantropia, com toques eróticos, já à venda no site https://www.mmarteproducoes.com/product-page/lobisomem-errante. O flerte desse seu trabalho com o sobrenatural ilustra a intimidade de Shimamoto com o universo do terror, o que justifica (ainda mais) a homenagem que recebe no 5ª Rio Fantastik Festival Internacional de Cinema Fantástico, que termina neste domingo, no Estação NET Botafogo. Autor de pilares da Nona Arte, como “Dança Macabra” e “O Ditador Frankenstein”, Shimamoto, hoje com 81 anos, brilhou também na publicidade, em paralelo à sua (oni)presença em revistas ligadas ao sobrenatural e a aventuras de samurai. Seu “Musashi”, sobre um espadachim oriental lendário, é considerado por muitos sua obra-prima. Uma de suas aventuras, “O Ogro”, virou filme de animação em 2011, num trabalho memorável de Márcia Deretti e Márcio Jr. Na entrevista a seguir, o veterano ronin do desenho fala de seu processo criativo ao P de Pop.

O lobisomem errante uiva para a lua cheia

O que esperarmos da narrativa de “Lobisomem Errante”?
Julio Shimamoto: Essa minha HQ fugiu totalmente do meu próprio padrão da época, produzida em inícios dos anos 1980, 38 anos atrás. É terror pornográfico, feito diretamente com esferográfica em formato de storyboard horizontal sem apoio de esboço. O personagem sofre de síndrome de licantropia em fases de lua-cheia, e busca tratamento com uma jovem psicóloga, e acabam se envolvendo afetivamente. Estava inédita todo esse tempo, devido à recusa do fanzine “Voyeur” em publicá-la. Quando mostrei ao Márcio Jr., da Ed. Marte, ele gostou e decidiu editar em serigrafia no formato de talão de cheque. Seguem oito páginas do total de trinta.
Como funcionam as influências do expressionismo sobre o senhor, a partir de sua relação com o cinema de F. W. Murnau e Fritz Lang?
Julio Shimamoto: É a estética do cinema que me inspira, mais do que os quadrinhos. O claro-escuro denso dos filmes expressionistas germânicos como “Nosferatu”, “O testamento do Dr. Mabuse”, “O gabinete do Dr. Caligari” e “Metrópolis” sempre me fascinaram. Emulo nos quadrinhos o estilo xilo por se traduzir mais de perto a estética noir dos diretores Murnau, Fritz Lang, Wiene e até Sergei Eisenstein.
Quais são as suas predileções no cinema brasileiro?
Julio Shimamoto: Gosto muito da fase que chamaram de Cinema Novo, dos diretores Cacá Diegues, Glauber Rocha, Anselmo Duarte, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, David Neves.

Qual foi o último bom gibi que o senhor leu?
Julio Shimamoto: Sinceramente, não me recordo, por ter perdido o hábito faz muito tempo. Acho que é a idade, a falta de tempo… ou as duas coisas.
O que mais fascina o senhor no universo dos samurais, um dos temas centrais de sua obra?
Julio Shimamoto: A filosofia zen, busca da evolução ou caminho, honra, e anulação do medo da morte. E o heroísmo é fato dominante na minha obra, sem o qual o meu trabalho não teria nenhum sentido.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.