‘Reza a lenda’ que a ação resiste

‘Reza a lenda’ que a ação resiste

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2020 | 21h15

RODRIGO FONSECA
Thriller policiais nacionais andam fazendo a festa no terreiro do streaming, como Arcanjo Renegado e A Divisão, mas ainda carecem de maior atenção no cinema, onde as incursões do país na representação do heroísmo é sempre mal falada, mesmo quando tem vontade de potência, como “Reza a Lenda”. Visto por cerca de 400 mil pagantes em sua espinhosa trajetória pelo circuito nacional, no qual passou pelo arame farpado da intolerância contra o pop e contra a ação, o longa-metragem de Homero Olivetto vai ter uma janela de honra na TV aberta nesta sexta: é o destaque do Corujão da TV Globo, às 3h16. Este tenso exercício de reflexão sobre resiliência alcançou, lá fora, um reconhecimento superior ao desfrutado em casa: em 2016, o thriller sob duas rodas protagonizado por Cauã Reymond recebeu o prêmio especial do júri no Tallin Black Nights Film Festival, na Estônia. Esta mostra vem se tornando uma referência dentro do cinema pop contemporâneo, ao investir em gêneros como terror e ação. Este resultado é mais do que uma redentora volta por cima para Olivetto: ela representa uma vitória para o cinema de gênero da América Latina, em seu terreiro mais vilipendiado.

Mescla de O Amuleto de Ogum (1975) com Vereda da Salvação (1964), numa paçoca saborosa, com tempero de Sergio Leone, Reza a Lenda está muito longe de ser o Mad Max udigrudi que seu trailer sugeria. Acaba surpreendendo por suas muitas ousadias. É, antes de tudo, o regresso de um filão 100% brasileiro, que mobilizou nossas telas entre as décadas de 1950 e 70, do Cinema Novo à Boca do Lixo, ligado ao ciclo do banditismo social nordestino, o cangaço: o dito “western macaxeira”, “faroeste feijoada” ou nordestern, tradição que voltou às baila em 2019 com o memorável Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho (Prêmio do Júri em Cannes). No caso, é um neonordestern: com bandidos de motoca na Caatinga e um Lampião formato Marlon Brando vivido por um Cauã Reymond mais maduro do que nunca (taciturno, ofegante, breve, mas preciso). Falta água e uma profecia diz que uma estatura santa, adorada como Bezerro de Ouro, pode fazer chover se espatifada: uma missão para o rebelde Ara (Cauã) e seus centauros de Yamaha.

Salgada a tiros e peixeiras afiadas, a cartilha do nordestern está toda ali, conjugadinha com precisão de CDF. De um lado, tem pobres transformados em justiceiro pela inexistência de reforma agrária (ou melhor, hídrica) num Nordeste sedento; do outro, latifundiários que fazem do sadismo um esporte, como é Tenório, vivido por um Humberto Martins incorporado por um Trem Ruim que atua bem pacas. No meio, tem uma aguerrida Luisa Arraes e tem Julio Andrade vivendo uma mistura de pajé, pai-de-santo, Zora Yonara e Highlander. Seu personagem é a chave bivolt para acender o termostato de duas tradições de nossa cinematografia.

Nos anos 1960 e 70, fitas inspiradas pela cartilha clássica do faroeste americano, como Gregório 38 (1969) e Rogo a Deus e Mando Bala (1972), Pedro Canhoto, o Vingador Erótico (1973), trouxeram o vocabulário dos filmes de caubói para o Brasil, buscando imprimir malandragem e sensualidade locais ao Velho Oeste, recriado na geografia nacional. Apesar da essência caça-níqueis, esses longas testaram a potência épica do cinema nacional, provando ter lugar para pistoleiros estilizados em nosso imaginário. Corriam em paralelo às feijoadas os chamados nordesterns ou filmes de cangaço, gerados a partir da memória do banditismo social, que geraram sucessos de bilheteria como O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto (que, segundo estimativas, foi assistido por 20 milhões pagantes mundo afora, tornando-se o longa de DNA brasileiro mais visto no planeta) e cults como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), ambos de Glauber Rocha.

Sem abrir mão de seu sotaque pop, Reza a Lenda fala essa língua do passado e o xamã Galego Lorde, encarnado por Julio Andrade, é a chave para a tradução para os nossos tempos. Tem nele um pouco do Beato vivido por Lídio Silva em Deus e o Diabo… mesmo nas cenas em que ele aparece de espadas Kill Bill na mão. Ele é o Antonio Conselheiro daquele Canudos fedido a charlatanismo: sua presença ancora o longa de Olivetto aos painéis sobre a fé desmedida (a fé para remediar a fome) nos filmes-discurso do cinemanovismo nacional. Ao mesmo tempo, com sua sensualização pecaminosa, Galego Lorde é uma greta escancarada para que se discuta os abusos da religião (pagã ou não). Todo o filme se digladia contra o cabresto do fanatismo a começar pela condição fervorosa de seu herói empoeirado.

Embalado na trilha sonora do coletivo Instituto, Reza a Lenda é um cangaço HQ, uma tentativa de vivificar à moda deste nosso país a estética da ação. Sofre solavancos nos quebra-molas da expedição por um código mais comum aos gringos do que a nossos diretores, mas cria um espetáculo mais profundo do que parece. É um filme sobre o quanto a gente (às vezes) crê errado e sobre o saldo a pagar pelas velas acesas a divindades impuras. Olivetto tentou. Tentou bonito. Ponto pro moço.

p.s.: Às vésperas da passagem de seu “Sibéria” no 70. Festival de Berlim, Abel Ferrara ainda está às voltas com “Tommaso”, joia que, segundo o IMDB, estreia por aqui no próximo dia 20. Oxalá! Aliás, o título que pode dar o Urso de Ouro ao diretor nasceu desta produção aqui, que nasceu em Cannes. É o melhor filme de ficção dele em anos. É a saga de um diretor, ator e professor de atuação americano, residente na Itália, que lida com conflitos de amor e com a educação de sua família pequena. “Abel e eu já trabalhos umas cinco vezes juntos e eu sempre volto porque ele me dá chances de fazer coisas que não são muito comuns no cinema”, disse Dafoe ao apresentar “Tommaso”.

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