Revolução à francesa no Festival do Rio

Revolução à francesa no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

12 de dezembro de 2021 | 14h02

“A Fratura”, de Catherini Corsini, é uma das apostas do Festival do Rio 2021

Rodrigo Fonseca
É dia de animação na competição pelo troféu Redentor do 23º Festival do Rio, com a projeção do desenho baiano “Meu Tio José”, de Ducca Rios, às 20h30, no Cinépolis Lagoon. Mas antes de se deleitar com a saga de um estudante às voltas com o fantasma da ditadura militar, o público da maratona cinéfila carioca tem tempo de fazer baldeação na França de Catherine Corsini e conferir o melhor filme da cineasta: “A Fratura” (“La Fracture”). Tem sessão dele às 18h45, no Reserva Cultural, em Niterói. Graças a esse ensaio sobre sororidades, Catherine saiu de Cannes, em julho, com a Queer Palm, a láurea de simbolismo LGBTQ+ da Croisette. Em sua narrativa tensa, as namoradas Raf (uma inspirada Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs) encaram uma jornada infernal em um hospital em meio a um piquete na França. A sala de espera da ala de Emergência, onde as duas estão, será palco para uma guerra entre classes, na qual heróis, mártires e vítimas se equiparam. É um dos títulos esperados pelo 24º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de promoção agendado para ocorrer via Zoom, de 14 a 17 de janeiro, tendo Paris como sua base de transmissão.
Comovente em seu olhar sobre parcerias de uma vida inteira, “A Fratura” foi um dos indícios da saúde criativa do cinema francês, neste ano em que a terra de Truffaut conquistou o Leão de Ouro – com “L’Evénement”, de Audrey Diwan – e a Palma dourada de Cannes – dada a “Titane”, de Julia Ducournau – de julho a setembro, sem contar os troféus conquistados na Berlinale, Locarno e em San Sebastián. Não estamos no melhor dos anos para o cinema deles. Estima-se que até, o final de dezembro, o berço mundial da cultura audiovisual vai fechar as contas com 60 milhões de ingressos vendidos (a contar de janeiro). É a mesma cifra de 2020, quando a covid-19 forçou uma série de confinamentos. É uma queda de cerca de 65% em comparação com o resultado de ocupação de telas comerciais pela produção feita em Paris, Nice, Marselha e arredores.
“Cerca de 25% da seleção anual dos grandes festivais do mundo é feita de filmes franceses, com alguns títulos capazes de alcançar grande evidência na decisão dos júris. Temos muita coisa no Festival do Rio, como ‘Titane’, por exemplo. Depois do México, o Brasil e a Argentina são os países das Américas que mais consomem nossos filmes”, diz Gilles Renouard, o diretor adjunto da Unifrance, órgão governamental responsável pela circulação de filmes francófanos mundo afora. “Este ano, ‘A Dona do Barato’, com Isabelle Huppert, foi o filme francês que mais se destacou no Brasil”.

“Lágrimas de Sal”, de Philippe Garrel

Segundo ele, dois blockbusters de seu país garantiram a alegria dos exibidores: “Kaamelott – Premier Volet”, sobre o Rei Arthur, foi prestigiado por 2,6 milhões de pagantes; e “Bac Nord: Sob Pressão”, um thriller policial com Gilles Lellouche, contabilizou 2,2 milhões de tíquetes vendidos. “Novembro está registrando um boom de volta às salas, em comparação com o que vivemos em 2020, quando tivermos um lockdown”, disse Renouard.
Um dos filmes franceses mais esperados do Festival do Rio 2021 é “Lágrimas de Sal”, que, aliás, entrou nos 10 Mais da “Cahiers du Cinéma” de 2020, graças ao prestígio de seu realizador: Philippe Garrel. Com cerca de cem minutos, esplendidamente fotografados por Renato Berta, o mais recente drama d’amor do realizador de “O Ciúme” (2013) fala de um estudante francês aspirante a carpinteiro, Luc (Logann Antuofermo), que é siderado por seu velho pai (André Wilms). Fiel aos ensinamentos de seu velho sobre a fragilidade do verbo viver, ele apaixona por uma jovem de família imigrante, Djemila (Oulaya Amamra), em meio a uma mudança de cidade. O rapaz se muda para tocar seus estudos, mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar. Onde e quando ver em solo carioca: Dia 14, Estação NET Gávea 5 – 16h.

p.s.: Tal qual aconteceu no Kursaal de San Sebastián, cidade do norte espanhol, em setembro de 2020, o público que comungou da homilia woodyalleniana sobre amores não correspondidos, na sessão de 23h59 de “Rifikin’s Festival”, no Estação NET, foi ao delírio com as tiradas de Louis Garrel. No papel do cineasta Philippe, referência direta a seu pai (Philippe Garrel), Louis soltou sua veia de comediante e tornou o lonha-metragem uma delícia de crônica de costumes afetivos. O título no Brasil, utilizado pela Imagem, é “O Festival do Amor”. Foi bonito ver o Festival do Rio, em sua edição número 23, dar um espaço nobre a um diretor que, historicamente, sempre mobilizou sessões em suas mostras de panorama mundial. E Garrel é um senhor ator.

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