Revisitado no Brasil como musical, ‘Love Story’ leva mel à estrada Easy Rider

Revisitado no Brasil como musical, ‘Love Story’ leva mel à estrada Easy Rider

Rodrigo Fonseca

18 Julho 2016 | 02h01

Ali MacGraw e Ryan O'Neal no célebre drama romântico de 1970

Ali MacGraw e Ryan O’Neal no célebre drama romântico de 1970, revivido nos palcos do Rio

RODRIGO FONSECA

Anda lotando o Imperator – mítica casa de espetáculos no Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro – a temporada de Love Story – O Musical, em cartaz até 31 de julho, com direção de Tadeu Aguiar, trazendo Kacau Gomes e Fabio Ventura na pele do casal de personagens imortalizados nos cinemas por Ali MacGraw e Ryan O’Neal. Apoiada no empenho de um elenco majoritariamente negro, no qual Sérgio Menezes (no papel do pai da protagonista) tem um desempenho notável, a produção serve não só como um ritual de descarrego para desatenções e desatinos com o querer, mas também como uma espécie de biotônico para reavivar a força simbólica de um marco das telas.

Cheia de impasses, financeiros e físicos, do marxismo à leucemia, a trama encenada no Imperator – com Kacau em sua plenitude, cantando letras adaptadas por Artur Xexéo – se concentra no romance descabelado de Oliver Barrett IV, um estudante de Harvard com uma carreira no Direito à sua espera, pela desbocada Jennifer uma musicista em formação. Ele é rico; ela, pobre. Mas cifra$ não subornam paixões. O pai dele detesta a ideia de vê-lo casado com uma pobretona. O pai dela só quer alguém que embale os sonhos de sua menininha. É açúcar na veia, do puro. E, nos cinemas, a trilha sonora de Francis Lai potencializava os suspiros em volta do projeto, que nasceu como um roteiro de Erich Segal, transformado, de véspera, num romance recebido como best-seller por leitores ávidos de lirismo.

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Visto por multidões de olhos chorosos, impondo-se diante deles pela frase “Amar é nunca ter que pedir perdão”, o longa-metragem Love Story custou US$ 2 milhões aos cofres de uma Paramount Pictures em tempos de bonança e de redefinição estética, graças aos feitos do produtor Robert Evans. O custo voltou aos bolsos de quem o financiou num estalar de dedos: sua bilheteria chegou a US$ 134 milhões. Iracundos eram os tempos em que ele estreou, tendo Arthur Hiller como realizador. Protestos políticos espocavam de um lado, na reverberação (tardia) pelos EUA das manifestações de maio de 1968, ao mesmo tempo em que a centelha flower power perfumava o céu com a esperança hippie. E nessa era de extremos, o cinema madeinusa passava por um processo de revolução, onde filmes de lágrimas eram óvnis a serem torpedeados.

Objeto pontiagudo por excelência, o amor parecia enferrujado ali naquele tempo de Love Story, pois, em 1970, a América passava por uma hemodiálise poética da imagem. Para entendê-la é necessário voltar no tempo.

Houve uma vez um verão, o de 1967, no qual o cinema americano engajou-se numa bossa nova para seus padrões, diante de dois filmes Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, e A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols. Em ambos, dois diretores com experiências em outras mídias (o primeiro da TV, o segundo do teatro) contextualizaram a juventude dos EUA sob uma ótica alarmista de percepção do cerceamento moral e da violência das instituições, seja pela caretice da Família seja no chumbo quente do Estado. Dali pra frente, a filmografia do Tio Sam tomou uma curva à esquerda, imbuindo-se do espírito cinemanovista – aquele que pariu Truffaut, embalou Bertolucci, ninou Polanski, pôs Glauber para arrotar – para tirar cascas das feridas nas veias abertas da América profunda.

Naquele momento, uma trupe surgiu com uma proposta de engajamento social, político, comportamental e estético. Entre eles estavam Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), Martin Scorsese (Taxi Driver), Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema), Bob Rafelson (Cada Um Vive Como Quer), Michael Cimino (O Franco-Atirador), Bob Fosse (Cabaret), Jerry Schatzberg (O Espantalho), Hal Ashby (Muito Além do Jardim), a esquecida Elaine May (O Rapaz Que Partia Corações), George Lucas (Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança) e um certo Steven (o de Tubarão e de Contatos Imediatos do 3º Grau). E ponha ao lado deles um documentarista de peso como Peter Davis (Corações e Mentes) e ficionistas mais velhos, como Robert Altman (M.A.S.H.), John Cassavetes (Maridos), Monte Hellman (Briga de Galo), Sidney Lumet (Serpico) e Sydney Pollack (A Noite dos Desesperados). Embora muito esqueçam, foi aí que Woody Allen (Bananas) apareceu. E essa patota trouxe para o primeiro plano da tela as varizes éticas que impediam a oxigenação do sangue americano. Eles eram os chamados Easy Riders, em referência ao filme homônimo de Dennis Hopper, lançado em 1969 e tido como a carta de intenções de uma nova poética fílmica desesperada pelas chagas de sua pátria. Essas chagas eram, em geral, políticas e sociais – com destaque para a exclusão dos pobres e o dos imigrantes e o massacre dos ragazzi fãs de Beatles e Rolling Stones mortos no Vietnã. Mas também havia a chaga da própria imagem, ou seja, a impotência que o próprio cinema teve de deflagrar uma revolução a partir de sua habilidade de (re)interpretar o mundo ao colocar sua memória em movimento.

Versão brasileira no Imperator

Versão brasileira no Imperator

Em meio a uma falta de ar, na ânsia de oxigênio ético puro, Love Story apareceu como um nebulizador para aqueles que não se sentiam contemplados nas garupas dos Easy Riders. O filme serviu ainda como um entorpecente para os cinéfilos engajados que não enxergavam saídas políticas se materializando no país. Encarado de formas variadas, o longa de Hiller rendeu ainda uma bela sequência – A História de Oliver, de 1978, doidinha para ser redescoberta – e abriu uma fenda de fragilidade cardíaca num tecido de sangue retinto e quente. Os modos de amar se amplificaram e se diversificaram ao longo das décadas – lá se vão 46 anos desde seu lançamento!-, mas o olhinho de O’Neal para Ali ainda liberta borboletas em nossos estômagos. É o que conta. E a peça deles derivada é bonita de ver e de ouvir.