‘Return to Dust’: fortaleza chinesa em Berlim

‘Return to Dust’: fortaleza chinesa em Berlim

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2022 | 07h44

“Return to Dust” (“Yin Rin Chen Yan”)

RODRIGO FONSECA
Ainda que a espera por inéditos de Wong Kar Wai e Jia Zhangke não tenha se concretizado em filmes, a Berlinale não ficou sem um bom filme chinês em sua competição oficial de longas-metragens de 2022, oferecendo essa vaga ao doído “Return to Dust” (“Yin Rin Chen Yan”), de Li Ruijun, diretor nascido em Zhangye, há 39 anos. É o trabalho de montagem mais delicado de todo o festival até agora, somado a uma fotografia igualmente pautada pelo lirismo, avessa a saturações. É um retrato de uma China rural, pintado a partir de um casamento arranjado entre um fazendeiro rústico e uma mulher com dificuldades de socialização. A partir do dia a dia deles, vemos uma transformação histórica daquele país. Mas o casório que surge como mera convenção vai, pouco a pouco, como o passar dos dias, dando lugar a um querer genuíno, que o cineasta consegue expressar de modo tocante a partir da covalência entre seu elenco central. É um fortíssimo candidato ao Prêmio de Contribuição Artística, por sua edição, assinada pelo próprio realizador, antes conhecido por “Fly With The Crane”, de 2012.
“O Tempo e o Amor são os valores mais importantes no meu filme”, disse o diretor em Berlim.
Também se fala de amor, mas de uma maneira bem-humorada e moralmente controversa em outro concorrente ao Urso, o alemão “A E I O U – A Quick Alphabet Of Love”, de Nicolette Krebitz, exibido ao evento na manhã deste domingo, com um sabor delicioso de cinema dos anos 1970, sobretudo o Europeu, de Fassbinder a Bertrand Blier. É um romance entre uma atriz e dubladora (Sophie Rois, majestosa) e um pivete (Milan Herms) com problemas de dicção. Udo Kier faz uma participação como o melhor amigo da protagonista. Há uma cena antológica, na Côte d’Azur, quando o rapaz, peladão, carrega sua amada (igualmente nua) nos braços, pelas ruas lotadas de uma França grã-fina.

Charlotte Gainsbourg em “Les Passagers De La Nuit”

Brilhando divinamente nos gramados alemães desde que a Berlinale começou, com François Ozon e seu maduro “Peter von Kant”, o cinema francês pode virar o jogo aqui hoje, segundo palpiteiras e palpiteiros locais, e vencer… à força de “Les Passagers De La Nuit”, de Mikhaël Hers, parisiense de 47 anos consagrado via Festival de Veneza, em 2018, com “Amanda”. Em seu novo longa, as eleições francesas de 1981 são recriadas a partir da rotina de Elisabeth (Charlotte Gainsbourg), cuja vida acaba de virar do avesso com o fim de seu casamento. É um dos concorrentes mais esperados da luta pelo Urso deste ano.
Entre tudo o que já se viu, com uma alta qualidade generalizada, percebe-se algum favoritismo em torno de “Avec Amour et Acharnement”, nevrálgico ensaio da francesa Claire Denis sobre os fragmentos do discurso amoroso que espatifado durante a pandemia. Tem Juliette Binoche de um lado e o Antonio Fagundes europeu, Vincent Lindon (de “Titane”), do outro, como um casal sob o riso da atomização. A câmera espasmódica do fotógrafo Eric Gautier merece um troféu.
Neste domingo, o Brasil bate ponto na Berlinale, via Forum, com “Mato Seco em Chamas”, de Joana Pimenta e Adirley Queirós, e de “Três Tigres Tristes”, de Gustavo Vinagre.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.