Resquícios de Bradley e Lady Gaga no streaming

Resquícios de Bradley e Lady Gaga no streaming

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2020 | 12h41

Rodrigo Fonseca
Só se fala em “Parasita” no planisfério cinéfilo, mas o rescaldo da noite do Oscar, no domingo, jogou luz sobre vencedores recentes, entre eles “Nasce uma estrela”, que bate ponto agora no streaming HBO Go: coube a ele uma estatueta, a de melhor canção, dada a Lady Gaga. Atualmente envolvido numa refilmagem do romance “Nightmare Alley”, de William Lindsay Gresham (fonte do cult “O beco das almas perdidas”, de 1947), Bradley Charles Cooper foi o diretor deste binômio folhetim + música. Trata-se do grande “filme de ator” de 2018: orçado em US$ 36 milhões, seu “A star is born” fechou seu caixa US$ 436 milhões em ingressos vendidos. É um exercício de maestria, com uma segurança invejável na condução dos planos.

Consagrado como astro há onze anos, quando “Se beber, não case” (2009) virou um fenômeno de bilheteria, Cooper passou perto de levar o Oscar para casa três vezes, por seu desempenho como ator e por seu trabalho como produtor: filmes como “O lado bom da vida” (2012), “Trapaça” (2013) e “Sniper americano” (2014). Em 2019, ainda fez bonito como produtor, ao produzir Todd Phillips em “Coringa” (“Joker”), cuja bilheteria beirou US$ 1 bilhão. Agora, aos 44 anos, esse multiartista dá seu passo profissional mais arriscado: dirigir Lady Gaga na releitura de uma trama, nos moldes de “Pigmaleão”, que ganhou múltiplas refilmagens e consagrou grandes estrelas. A julgar pelas primeiras resenhas a seu trabalho por trás (e também na frente) das câmeras em “Nasce uma estrela”, ele prova uma versatilidade artística rara. Seu próximo passo como cineasta, agora, será dirigir a cinebiografia do compositor Leonard Bernstein, que roteiriza e estrela.

A sorte do projeto “A Star is Born” foi lançada fora de concurso no Festival de Veneza, onde sua esperadíssima love story com acordes musicais virou um acontecimento. Lá no Lido, a desenvoltura dele como cineasta pôs muitos concorrentes ao Leão de Ouro no chinelo. No The New York Times, a resenha da crítica Manohla Dargis crava a palavra “belo” para definir o filme e frisa que “Bradley tem muitos acertos na direção, a começar pela escola do elenco, com uma atuação naturalista, desarmada de Lady gaga”. Ensaio sobre o fardo por vezes trágico da fama, “Nasce uma estrela” não vem sendo vendido como remake. Temos aqui um drama romântico sobre um cantor autodestrutivo (o próprio Bradley, numa atuação memorável) que ajuda uma aspirante a cantora a explodir no mercado fonográfico. Mas essa é uma premissa levada às telas pela primeira vez em 1937. Janet Gaynor estrelou o original, que, de tanto sucesso, inspirou mais duas refilmagens: uma de 1954, com Judy Garland, e outra de 1976, com Barbra Streisand. E no novo longa, Lady Gaga está à altura delas.

Cantando ao lado de Lady Gaga, a plenos pulmões, Cooper investe ao máximo no realismo ao filmar os shows de seu personagem, Jackson Maine, e as apresentações da cantora vivida por Lady Gaga, Ally. A fotografia de Matthew Libatique potencializa a potência trágica da paixão entre os dois. O destaque vem do monstro sagrado Sam Elliott (da série “The ranch”), que rouba a cena, com sua voz gutural, no papel do irmão mais velho de Bradley. Na versão brasileira do filme, Duda Espinoza e Carol Crespo dublam Bradley e Lady Gaga.

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