Reserva latina de poesia: Paulina García

Reserva latina de poesia: Paulina García

Rodrigo Fonseca

22 de abril de 2021 | 13h49

Rodrigo Fonseca
Aditivado por um encantamento atípico para o realismo crônico nas veias abertas da América Latina, o combustível que faz “A Noiva do Deserto” arrancar streaming adentro é a sua habilidade de produzir instabilidade diante do que existe de corriqueiro na vida, com ênfase para os verbos “saber perder” e “saber esperar”. É um achado entre os 250 filmes escolhidos para abrir os trabalhos do Reserva Imovision, a nova plataforma brasileira de filmes de verve poética e de narrativas pautadas pela inquietação. Evoca “Central do Brasil” (1998) em sua pele áspera, rachada. Claro que ter na dianteira de suas cenas uma atriz em fase apogeu profissional, como é o caso da chilena Paulina García (de “Gloria”), regula a potência de qualquer carburador. E é encantador ver como ela ilumina paisagens de galhos secos, pedras e pneus queimados ao encarnar a resignação como um viés poético. Mas existe algo de belo além dela, no quadro, sobretudo quadros construídos em plano-sequência, sem corte, para apreciar a geografia física com a mesma curiosidade que a geografia humana nos dá. Esse filme de tônus esperançoso marca a estreia das cineastas argentinas Cecilia Atán e Valeria Pivato e foi revelado ao mundo no Festival de Cannes de 2017, onde foi cercado de elogios. Sua estrutura de rodas movie funciona como um atalho de leveza na estrada tragicômica da desilusão dos que abriram mão do sonho.

Seu momento de maior beleza plástica e dramatúrgica se dá pela fresta da janela de uma bodega de beira de rodovia, de onde se vê um esboço de jantar romântico entre a faxineira Teresa (Paulina) e o mascate Gringo (Claudio Rissi, dono de uma voz rascante única, à la Paulo César Peréio). Na direção de arte e na fotografia, construídas a partir de uma geometria retangular de perfeita simetria, vemos copos, pratos, uma luz meio avermelhada, um tom de fossa e um bolero na vitrola. Mas o que existe de mais singular é um espelho. É o espelho que desvela intenções e fraquezas, de Gringo sobretudo… e do casal que ele almeja formar com a mulher sem lastro e sem sorrisos à sua frente. Quem assina essa potente direção de fotografia é Sérgio Armstrong, o mesmo de “No” (2012) e de “O Clube” (2014).

A chilena Paulina García é hoje uma das estrelas de maior talento das Américas

À luz de Armstrong, seguimos a andança de Teresa. E a casa passo, sua intérprete, Paulina, deslumbra nosso olhar. Depois de anos refugiada em um trabalho em uma casa em Buenos Aires, Teresa, que deixou o filho no Chile e foi para a Argentina ganhar a vida, agora precisa dar uma guinada em sua rotina, uma vez que seus patrões venderam a casa onde ela fincou as raízes de sua invisibilidade. Sabemos disso por flashes que funcionam como respiros para o roteiro. Flashes de desdém entre classes sociais, parecidos com a mirada social do brasileiríssimo “Que horas ela é volta?” (2015) – afinal, a diferença classista é comum a todos nós, latinos. Não há muito mais a se saber sobre Teresa. Pelo menos ela não acredita que tem… pois não acredita em si como gente, não se vê como alguém digna de atenção. Mas ao cair nas ruas, Teresa, que um dia foi invisível, passa a ser vista. Gringo, a quem pede carona, é o primeiro a enxergá-la. Talvez por uma certeza: “Somos pedras no caminho”, diz ele.

Há um quiproquó como deflagrador da trama: Teresa perde sua mala no trailer do caixeiro viajante e fica desesperada atrás de seu único bem material. Ali estão todos os resquícios de sua dignidade. Ela corre atrás dele para recuperar seus pertences. Mas Gringo acredita ter deixado a mala em um dos postos de conveniência que abasteceu com suas quinquilharias. A saída: levá-la pelo caminho, até reaver a maleta. No trajeto: descobertas, trocas, papos e o tal espelho, que reflete a sombra pálida da desconexão entre os povos latinos e o desemparo (universal) dos que foram ensinados a viver com pouco. E nesse reflexo a gente se vê… E se dói.

p.s.: Às 15h desta quinta, a Globo exibe a aventura sci-fi “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” (1993), marco da década de 1990 que reafirmou o nome de Steven Spielberg como grife de sucesso. Orçada em US$ 63 milhões, esta superprodução, baseada na prosa de Michael Crichton, arrecadou US$ 1 bilhão na venda de ingressos, abrindo uma franquia que já emplacou mais quatro filmes. O quinto está no forno. Na trama, um milionário, Sr. Hammond (Richard Attenborough), cria um resort a partir de dinos recriados por clonagem de um DNA incrustado em âmbar. Para garantir um atestado ao parque, ele convida um casal de paleontólogos – Ellie, vivida por Laura Dern, e Grant, numa antológica atuação de Sam Neill – e o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum). Ao chegarem lá, uma sabotagem tramada por um funcionário acaba por criar uma pane no sistema o que abre as cercas, desliga o sistema e solta o apetite de um T-Rex e de velociraptores afoitos por carne. Na cerimônia do Oscar de 1994, o longa ganhou as estatuetas de melhor som, efeitos visuais e efeitos sonoros. No Brasil, o filme teve duas dublagens. Estima-se que a versão brasileira a ser exibida hoje seja a da Álamo, com um inspirado Carlos Campanile dublando Neill e Lúcia Helena emprestando o gogó a Laura.

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