República de Assassinos morais com Anselmo Vasconcellos

República de Assassinos morais com Anselmo Vasconcellos

Rodrigo Fonseca

05 de novembro de 2017 | 15h03

 

“O Filho do Presidente” é uma alegoria sobre a retidão moral na política: Teatro Nelson Rodrigues

Rodrigo Fonseca
Parte indelével do elenco do Zorra!, o carioca Anselmo Vasconcellos esculpiu seu nome na história do audiovisual travestido como Eloína em República dos Assassinos (1979), na mais delicada representação do travestismo e do transformismo de nosso cinema. A delicadeza se dá porque a maneira de Anselmo atuar nunca é afirmativa e sim investigativa, levemente brechtiana, de um distanciamento de mascar, como chiclê de bola: pop… ploc. O mesmo se deu quando ele foi viver o vigilante Paco na série de TV A Justiceira (1997): cada tiro de seu personagem era imbuído da dúvida trágica, acerca do limite moral entre fazer o Bem e perder o controle. Mesmo fazendo piada, aos sábados na televisão, a partir dos textos da equipe de redação de Celso Taddei, no humorístico da Rede Globo, ele dá um jeito de nos fazer enxergar algo mais do que o chiste. Por isso, quem for vê-lo em cena no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro do RJ, na obrigatória peça teatral O Filho do Presidente (Now or Later), de Christopher Shinn, vai conferir a habilidade dele de esculpir lacunas – de reflexão e inquietação – a cada frase. E nem se prenda tanto nos verbos de ação quando ele entrar em cena, no papel do líder político dos EUA: é o jogo de corpo dele que traduz a doença de um império caído.

Quem dirige a peça é Marcus Vinícius Faustini (de Capitu), um cineasta, cronista e encenador cuja gênese nos palcos vem da linhagem política. A partir do texto de Shinn, ele traça uma espécie de análise crítica sobre posições absolutas nas variáveis do jogo do Poder. É uma trama sobre figuras aristocráticas tentando eliminar valores de X que podem alterar a aritmética das equações da nobreza eleita – sobretudo se o x da (e em) questão for o desejo. O desejo vem do filho mais moço do chefe da Casa Branca: um estudante gay (o ótimo Felipe Cabral) que vai numa festa fantasiado de Maomé. Seu gesto irrita as comunidades islâmicas, o que exige uma intervenção dos pais do jovem.

O líder dos EUA (Anselmo Vasconcellos) e seu rebento (Felipe Cabral)

Quase por uma disposição arquetípica, a mãe (Ingra Liberato, com um vigor cênico surpreendente) toma a cena com o carinho de quem afaga e arrefece ânimos em fervura máxima. Mas o pai, o presidente (Anselmo, com uma altivez que faz lembrar Sterling Hayden em Dr. Fantástico), chega para a conversa não com a compreensão exigida por um familiar preocupado, mas sim com a fúria de um político que não tolera rachaduras na vidraça de seu castelo.

Marcus Vinícius Faustini assina a direção da peça, que é a versão nacional do texto “Now or Later”, de Christopher Shinn

Na condução das pensatas de Shinn para o palco nacional, Faustini é feliz em buscar (e encontrar) interseções universais, sobretudo da discussão do amo LGBT e da vida em família. Não existe um esforço de paralelos entre o presidente da peça e Temer – seria algo forçado. Mas naquela figura onipotente, Anselmo simboliza tudo o que há de torto seja nos EUA, seja em Brasília. A trilha sonora assinala o clima de opressão ali estabelecido, sublinhado na iluminação elegante de Aurélio de Simoni. Vale destaque à parte para o desempenho da atriz Vanessa Pascale ao orientar o passos do personagem de Felipe.

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