Replicantes de Villeneuve entre os eleitos da ACCRJ

Replicantes de Villeneuve entre os eleitos da ACCRJ

Rodrigo Fonseca

17 Janeiro 2018 | 23h56

K (Ryan Gosling) e Deckard (Harrison Ford) em ação no longa-metragem de Denis Villeneuve: “Blade Runner 2049” custou US$ 150 milhões

Rodrigo Fonseca
Na ponta do lápis da aritmética cinéfila, Blade Runner 2049 foi um fracasso: custou US$ 150 milhões e faturou apenas US$ 92 milhões nas salas dos EUA. Mundo afora, sua renda total beira US$ 259 milhões. Mas foi pouco. Bem menos do que esta joia merecia. Se você perdeu na telona, corre pra mostra Melhores Filmes do Ano de 2017 do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, que vai de 24 de janeiro a 11 de fevereiro. A retrospectiva foi organizada pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). Este cult nato de Denis Villeneuve abre o evento.

Sempre que o mundo se vê sob o garrote de uma crise econômica, o noir brota na arte como uma representação da nossa desesperança, como um grand guignol de cortinas de veludo abertas para a ambiguidade, a incerteza. No início dos anos 1980, a ressaca moral pela falência das utopias revolucionárias dos 1960 e 70, substituídas por um liberalismo castrador, por um capitalismo de couraça e pelo nematelminto chamado inflação, fez necessária a presença do noir, só que numa forma repaginada, mais chique e esfumaçada, chamada neon noir. Esse formato foi importado da Alemanha, ou melhor, de Wim Wenders, e ganhou contornos mais chapados (e desolados) ao cruzar com a new age no cult Liquid Sky, sobre um ET andrógino, de 1982. Naquele mesmo ano, a mistura do neon noir com a new age apimentado por uma estética integrada e futurista chamada cyberpunk, serviu como uma luva para delinear os vislumbres da dramaturgia sobre o Amanhã. Um Amanhã onde tudo é suspenso pela força gravitacional da tecnologia, num voo breve, na fugacidade da lógica binária. Essa alquimia filosófica traduziu-se em arte com o nome de Blade RunnerO Caçador de Andróides, um longa-metragem de muito estilo, mas de tutano ralo em relação a seu poder de refletir (e fazer pensar) sobre as mazelas existenciais da Raça Humana.

Luzes e cores do futuro

Era algo de uma virtuosidade ímpar na direção de arte e no ritmo narrativo, sublimando-se n’algum existencialismo graças ao desempenho singular de Rutger Hauer. Mas como sua direção coube a um artesão (autoral) e não a um filósofo, sua habilidade de gerar transcendência tinha um fôlego limitado. Ao contrário do que se vê em sua sequência, 2049, de um desbunde fotográfico de tirar o fôlego, mas capaz de escavar mais fundo na sua observação e na sua discussão sobre o Humano. A escavação vai na margem oposta à metafísica que o primeiro filme buscava. Fala-se agora de alma, mas não se quer o espírito e sim o corpo. E, por sorte, temos um antropocentrista de amplo escopo filosófico, o canadense Denis Villeneuve (de Sicário), na direção.

Vivemos dias de carteiras vazias, no Brasil e no mundo: logo, por inércia das trevas econômicas, Blade Runner 2049 preserva sua raiz noir. É uma trama de investigação na qual quase ninguém é confiável, tudo é dúbio e existe uma femme fatale: a ciborgue executiva Luv, talvez a mais ousada personagem feminina de 2017, vivida com frieza assustadora pela holandesa Sylvia Hoeks. Mas esse noir do novo longa é mais seco do que o do primeiro filme. Aquele era mais gingado, mais charmoso. O novo tem o tom ensanguentado, de coágulos pisados, do rosto de K, uma espécie de Prometeus acorrentado ao dever vivido por Ryan Gosling com a grandeza habitual do ator. Nele, Villeneuve desopila sua veia nietzschiana: K é o estado de espírito do ódio, um leão que ruge em nome de uma verdade suposta.

Villeneuve entre seus astros

Nietzsche pousa no ombro de Villeneuve com muita frequência, em sua estética iconoclasta, levando seus personagens a um estágio de endurecimento, onde afetividades frágeis como carvão ganham resistência de diamante frente a mergulhos trágicos no ambiente onde tentam escavar um abrigo para suas certezas. Foi assim com o historiador (Jake Gyllenhaal) de O Homem Duplicado (2013) ao perceber que tem um sósia perfeito de si mesmo, andando por sua cidade. Era assim com a agente do FBI Emily Blunt, afogada nos bastidores do tráfico de drogas no seminal Sicário (2015). Foi assim agora com a linguista Louise (Amy Adams), de A Chegada (2016), ao ser informada sobre presença alienígena na Terra.

 

K vai se embrutecer ao cumprir a missão de encontrar e matar uma criança que teria nascido do ventre de uma replicante, um construto cibernético de feições humanas. A busca pelo alvo o leva a um milionário excêntrico, Niander (Jared Leto), e sua auxiliar, Luv. Com ela, K trava uma batalha de resfolegar plateias. É uma das pocuas sequências de ação do filme. Existem algumas. Todas magistrais. Mas elas não são o foco. O eixo do filme está em se debater a hipótese de um robô ter gerado vida. Não poderia ser diferente, já que o cinema de Villeneuve é “matéria”, é carne, é útero, é toque. E tudo isso aqui chega potencializado na fotografia de Roger Deakins.

 

É nela que vemos potencializada a expressão trágica de Harrison Ford, na melhor atuação de sua carreira desde A Testemunha (1985), expressando a angústia do caçador de andróides aposentado Deckard diante de um jovem tira desesperado para entender qual é a lógica dos organismos dos anos 2040. O rosto sulcado de Ford é uma Guernica que carrega todas as brutalidades daquela ficção e toda a mítica de nossa realidade. É o rosto de um mito – de Han Solo e de Indiana Jones – que se fragmenta diante de nós na fragilidade de um herói caído, mas na força de um corpo que se impõe como um aríete da biologia num universo da cibernética.

 

Programação – Melhores 2017

24/1 (quarta)
16h Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos
19h Dunkirk (106 min) 14 anos

25/1 (quinta)
16h Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos
18h30 Comeback (89 min) 16 anos

26/1 (sexta)
16h Terra Selvagem (107 min) 16 anos
18h30 A Qualquer Custo (102 min) 14 anos

27/1 (sábado)
14h30 Já visto Jamais visto (54 min) Livre
16h Logan (137 min) 16 anos
19h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos

28/12 (domingo)
16h Corra! (104 min) 14 anos
18h30 Moonlight – Sob a Luz do Luar (111 min) 16 anos

29/1 (segunda)
15h30 Dunkirk (106 min) 14 anos
18h Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos

31/1 (quarta)
16h Comeback (89 min) 16 anos
18h30 Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos

1/2 (quinta)
15h30 A qualquer custo (102 min) 14 anos
17h30 Terra selvagem (107 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Carlos Brito e Gilberto Silva Jr.

2/2 (sexta)
16h30 Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
18h30 No intenso agora (127 min) 12 anos

3/2 (sábado)
16h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos
18h Logan (137 min) 16 anos

4/2 (domingo)
16h Terra Selvagem (107 min) 16 anos
18h30 A Qualquer Custo (102 min) 14 anos

5/2 (segunda)
15h30 Corra! (104 min) 14 anos
17h30 Moonlight – Sob a Luz do Luar (111 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Luiz Fernando Gallego e Marcelo Janot

7/2 (quarta)
16h30 Já visto Jamais visto (54 min) Livre
18h Comeback (89 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Ana Rodrigues e Leonardo Luiz Ferreira

8/2 (quinta)
15h30 No intenso agora (127 min) 12 anos
18h Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Daniel Schenker e Nelson Hoineff

9/2 (sexta)
15h30 Logan (137 min) 16 anos
18h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Filippo Pitanga e Rodrigo Fonseca

10/2 (sábado)
14h30 Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos
17h30 Dunkirk (106 min) 14 anos
19h20 Debate com os integrantes da ACCRJ Francisco Russo e Mario Abbade

11/2 (domingo)
14h Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos
16h30 Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
18h30 No intenso agora (127 min) 12 anos