Rendez-vous com o ‘imparável’ François Ozon

Rendez-vous com o ‘imparável’ François Ozon

Rodrigo Fonseca

12 de janeiro de 2021 | 11h31

Rodrigo Fonseca
De uma produtividade assombrosa, beirando um longa-metragem por ano, todos com sucesso de pública e crítica, o realizador parisiense François Ozon acaba de adaptar um exercício literário de tons doidamente autobiográficos de Emmanuèle Bernheim (1955 – 2017) – o livraço “Tudo Correu Bem”, sobre o empenho da escritora em ajudar o pai, um colecionador de arte, a cometer uma eutanásia após um AVC -, transformando a prosa dele em longa-metragem: “Tout s’est bien passé”. No elenco, estão Sophie Marceau e André Dussollier. O projeto foi feito às pressas, em meio à pandemia, enquanto o realizador de 53 anos colhia os louros pelo sucesso de seu mais recente filme, “Verão de 85” (“Été 85”), selecionado por Cannes, indicado à Concha de Ouro de San Sebastián, no norte da Espanha, e agraciado com a venda de 304 mil ingressos em seu mês de estreia na França. Seu êxito comercial torna o projeto um chamariz para a 23ª edição anual do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum audiovisual francófono que começa nesta quarta, em Paris, chegando ao resto do mundo via Zoom. O evento é organizado com invejável competência pela Unifrance. Esse é o órgão governamental europeu que cuida da circulação e da promoção de longas e curtas franceses pelo mundo, tendo apoiado, por aqui, o Festival Varilux, no qual os trabalhos de Ozon se consagram como grife de excelência e como um ímã de espectadores, tendo sido premiado na Europa por cults como “Dentro da Casa” (2012) e “O Refúgio” (2009). Em 2019, ele deixou a Berlinale com um Urso de Prata, após receber o Grande Prêmio do Júri da competição germânica por “Graças a Deus”, no qual denunciou casos de pedofilia cometidos por sacerdotes católicos. Para o circuito exibidor da França, ele também é um xodó, encarado como uma garantia de salas lotadas desde o sucesso de “8 mulheres” (2002). Público e crítica costumam adorar seu estilo sensual, eventualmente de carga LGBT, protagonizado por estrelas classe AA do Velho mundo, repleto de beldades de ambos os sexos. Mas, vez ou outra, Ozon vai transcende sua própria média e chega perto do adjetivo “obra-prima”, termo usado para definir petardos autorais como o suspense erótico caliente “O Amante Duplo”, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2017, visto por 340 mil pagantes mesmo sem ter qualquer chamariz midiático. Com suas cenas de tensão, este Ozon cálido tem Hitchcock nas veias e chega a parecer um bom Brian De Palma, à la “Vestida para matar” (1980). Não por acaso, foi parar na grade da Amazon Prime, que também exibe seu “Jovem e Bela”, de 2013, também indicado à Palma cannoise.
“Gosto muito de histórias geracionais, sobretudo aquelas que dialogam com um certo cinema francês à beira-mar, de praia, como foi o caso de ‘Verão de 85’. Gosto das descobertas que cercam as pulsões que não sabemos verbalizar. Sei que o cinema patina entre dificuldades das mais diversas, mas ele se reinventa, pois se reafirma no desejo. O mesmo vale para as formas que o cinema representar o sexo: filmar corpos nus ainda pode inquietar e gosto que meus filmes provoquem. Suspense inquieta. Foi o que me levou a um thriller explícito, como é ‘O Amante Duplo’, que tem algo de Brian De Palma, como todo filme de suspense que se preze tenso”, disse o cineasta em San Sebastián, em setembro.

Lá, seu “Verão de 85” arrancou aplausos e suspiros. Classifica-se o longa como história de autodescoberta, num ritmo que pode ir da love story ao thriller. Pontuada de romantismo e embalada a The Cure e Rod Stewart, em sua reconstituição da década de 1980, “Verão de 85” segue os passos do jovem e rebelde Alexis (Félix Lefebre) que passa seus 16 anos em uma praia da Normandia, assolado por explosões hormonais. Durante um passeio de barco, ele é salvo por David (Benjamin Voisin), um jovem sedutor que vai mexer com os afetos e com os impulsos sexuais do rapaz. Mas David parece interessado em meninas, o que vai tirar toda a estabilidade de Alexis, conduzindo um enredo sobre ritos de passagem ao terreno inflamável do ciúme e da incerteza.
“Toda época, olhada com distanciamento, parece uma pintura. E eu trabalho o visual dessa representação de praia preocupado em retomar a granulação”, disse Ozon ao P de Pop em solo espanhol. “Existe um empenho neste filme em buscar uma dimensão universal do amor”.

Menos idílico, “O Amante Duplo” põe Marine Vacth numa louca jornada de prazeres com seu psiquiatra, chega antes às telas nacionais como atração de destaque do Festival Varilux. Nossa maratona anual de longas franceses este ano vai de 7 a 20 de junho, em 63 cidades brasileiras. Há 21 atrações novinhas em folha e um clássico de 1969 (“Z”, de Costa-Gavras, em cópia nova) no pacote do evento. Mas é difícil prestar atenção no menu quando Ozon desponta como prato principal. “Tem muitos cinemas no cinema francês, tem Godard, tem Astérix, tem eu… O que talvez me diferencie é o interesse por pequenas situações do dia a dia: elas engrandecem qualquer um”, contou Ozon, que vitaminou seu “L’Amant Double” com uma atuação inspirada do belga Jérémie Renier, ator fetiche dos irmãos Dardenne (“A criança”).

Ele vive um psicanalista e psiquiatra que cai de amores por uma paciente, Chloé (Marine), sem se dar conta do quão perturbadora é sua psiquê. Chloé é funcionária de um museu que, abalada por conflitos internos, busca a ajuda da Psiquiatriaa a fim de parar de somatizar (com dores de estômago) suas angústias. Suas primeiras sessões com o Dr. Paul (Renier) são ótimas até que ele se apaixona por ela. O amor é mútuo e rende um namoro feliz… até ela saber que ele tem um irmão gêmeo – ainda mais sedutor. Aí começa uma sequência de cenas de mistério com molho de Freud. Ozon ainda trouxe Jacqueline Bisset para um papel surpreendente. “Cinema é lugar de mitos. Gosto da mitologia que atrizes como Jacqueline carregam”.
O Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français segue até sexta, online.

Ozon, aos 53 anos, é um dos mais prolíficos diretores da Europa @Unifrance

p.s.: O projeto “Férias no Teatro”, que une recreação, música, diversão e espetáculo para toda a família, vai ocupar o palco e o foyer do Teatro Multiplan Village Mall, na Barra da Tijuca, de 14 a 31 de janeiro, com atividades de quinta a domingo. No foyer do teatro, a partir das 15h, haverá recreação com monitores e brincadeiras com as crianças. Às 17h, no palco do teatro, as famílias poderão se divertir com o espetáculo “Luiz e Nazinha – Luiz Gonzaga para Crianças”, do projeto Grandes Músicos para Pequenos, que conta passagens da infância de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, no interior do Nordeste. Visto por mais de 100 mil pessoas, o musical acompanha a descoberta do amor do jovem Luizinho, que se apaixona por Nazarena, filha de um coronel que não permite o namoro deles. O resultado é uma fábula inocente, voltada para todas as idades, e embalada por grandes sucessos do músico, como “Asa Branca”, “Que Nem Jiló”, “Baião”, “O Xote das Meninas”, “Olha Pro Céu”, entre outros. Todos os protocolos de segurança, distanciamento e combate ao Covid-19 serão adotados no evento, de acordo com as instruções das secretarias municipais e estaduais de saúde. Link para ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/67258/d/93542
p.s.2: Qual a implicação do corpo no ato de escrever? É possível escrever enquanto nos movemos? Quais são os afetos percebidos entre razão e sensibilidade? Como a poesia do corpo pode interferir no ato criativo? Essas são algumas das perguntas que guiam o Laboratório Corpo Palavra – Coreografias e Dramaturgias Cartográficas, trabalho artístico-pedagógico desenvolvido pela bailarina, coreógrafa e professora de dança Aline Bernardi há seis anos. Estão abertas de 13 a 22 de janeiro (no link https://bit.ly/2XseblL) as inscrições gratuitas para uma nova etapa do laboratório, com início no dia 25, que vai investigar também os novos hábitos que nosso corpo está vivenciando durante a pandemia com quarentena estendida. O lançamento oficial do projeto será no dia 16 de janeiro, em encontro virtual, das 19h às 21h, transmitido ao vivo pelo canal de Facebook do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro (https://bit.ly/3boRvuV). Na ocasião, haverá a apresentação das atividades e conversa com profissionais da dança e das artes do corpo. O projeto tem patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Cultura, Secretaria Especial de Cultura, Ministério do Turismo e do Governo Federal através do Prêmio Fomento a Todas as Artes.
p.s.3: No dia 29 de janeiro, a MUBI (www.mubi.com) lança no Brasil o monumental “Dasatskisi”, mundialmente conhecido como “Beginning”, da cineasta Dea Kulumbegashvili, estreante em longas vinda da Geórgia que arrebatou a Concha de Ouro e os troféus de melhor direção e roteiro no Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro. A trama aborda a hostilidade contra um grupo de Testemunhas de Jeová a partir das vivências de uma atriz que, afastada dos palcos, tornou-se a mulher de um pastor.

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