Rendez-Vous com Gauguin

Rendez-Vous com Gauguin

Rodrigo Fonseca

09 de janeiro de 2021 | 10h46

Vincent Cassel brilha no papel de Paul Gauguin

RODRIGO FONSECA
Maior maratona francófona de cinema do mundo, o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français é um fórum tradicionalmente realizado em Paris, há 22 anos, reunindo cerca de 400 profissionais (cineastas, atrizes, atores, produtora/es) e cerca de cem longas-metragens com o intuito de promover a França no mundo. Nesta quarta-feira vai começar a edição número 23 do evento, a primeira a ser feita online, via Zoom, incluindo uma mostra competitiva na web: www.myfrenchfilmfestival.com. Quem organiza o evento é a Unifrance, órgão do governo responsável por promover mundo afora produções filmadas em solo parisiense, em Nice, em Marselha, em Toulouse e arredores. Este ano, títulos de peso como “Police”, de Anne Fontaine, e “Le Dicours”, de Laurent Tirard, estarão sob os holofotes. E muito vai se falar sobre a onipresença de longas e séries de CEP francês na “streaminguesfera”, como é o caso da recente “Lupin”, com Omar Sy. Mas filmes de edições posteriores do Rendez-Vous andam sendo badaladas nas plataformas digitais de projeção também, como “Gauguin”, que integra a grade da Amazon Prime.

Diante do lastro imagético deixado por narrativas arejadas pela experimentação formal como “O Mistério de Picasso” (1956), de Henri-Georges Clouzot, “Van Gogh” (1991), de Maurice Pialat, e “Basquiat” (1996), de Julian Schnabel, a crítica costuma exigir das cinebiografias de artistas plásticos uma ousadia que espelhe o temperamento de seus personagens centrais. O instinto de ousar, inegavelmente, tira os filmes biográficos da modorra do simples registro, como se vê em “Camile Claudel 1915” (2013), de Bruno Dumont. Mas “experimentar” não é um verbo obrigatório no cinema, cuja linguagem mais clássica, domesticada, merece aplausos se bem utilizada, como se vê em “
Gaugin – Viagem ao Taiti”, de Edouard Deluc. Sua câmera peca pela mansidão excessiva. Mas, no centro de cada plano, há um Vincent Cassel inflamado, devastador, o que compensa a falta de ambição visual de seu realizador. Coube a ele viver o pintor Paul Gauguin (1848-1903) no terço final de sua vida, na época de obras como o quadro “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” e o busto “Tête tahitienne”

Há, na maneira visceral como Cassel encarna Gauguin, uma degradação física nítida. Entediado com o impressionismo europeu, o pintor desencadeia um estilo figurativo marcado por telas carregadas de simbolismo, com traços que, em vez de descrever, apenas sugerem. As viagens ao Taiti e a mudança para as Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, marcam sua carreira não apenas pela imersão no colorido das matas e do artesanato dos povos locais, mas pela liberdade. O ônus de ser livre é o debate central do roteiro filmado por Deluc.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.