Rendez-vous com Claude Lelouch

Rendez-vous com Claude Lelouch

Rodrigo Fonseca

05 de janeiro de 2020 | 14h13

O reencontro de Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée torna “Les plus belles années d’une vie” uma garantia de lágrimas e de encanto

Rodrigo Fonseca
Aos 82 anos, em plena atividade, Claude Lelouch tem um filme inédito para lançar até o fim do semestre: “La vertu des impondérables”, com Elsa Zylberstein e Béatrice Dale. O sucesso de seu trabalho mais recente, o comovente “Les plus belles années d’une vie”, visto por 85 mil pagantes apenas nos seus três primeiros dias de estreia, impulsionou o interesse por sua obra. Esse longa-metragem que lançou em 2018, logo após uma projeção de gala em Cannes, é uma retomada dos personagens de “Um Homem, Uma Mulher” (1966), pelo qual ele conquistou a Palma de Ouro e os Oscars de melhor roteiro e de melhor filme estrangeiro. Não por acaso, ele resgatou os personagens da década de 1960: a roteirista Anne Gauthier (Anouk Aimée) e o piloto de corridas Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant). A mítica trilha sonora de Pierre Barouh e Francis Lai também foi ressuscitada. Na trama atual, Duroc está em uma casa de repouso para adultos, com a memória debilitada, a imaginação em fuzarca e um olhar que parece caçar a câmera, para nos fitar e desnudar seu abandono. Seu filho resolve ir atrás de Anne, a fim de leva-la para um encontro outonal com seu velho pai. Ela topa, o mel escorre. E esse mel agora há adocicar as operações do Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, evento idealizado para atrair os holofotes mundiais para a nova safra da França no audiovisual. Sua vitalidade e diversidade de gêneros serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris.

Claude Lelouch

Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral (como o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian e a badalada investigadora existencial Justine Triet). Lelouch é um dos medalhões que vão passar pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da 22ª edição do Rendez-vous, fórum realizado anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica. No início do ano que vem, emissários de 70 filmes (e esse número deve aumentar) vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 120 jornalistas de 30 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo.
Passarão pelo evento bambas de múltiplos talentos. Tem: Céline Sciamma, ganhadora do prêmio de melhor roteiro de Cannes com “Retrato de uma jovem em chamas”; Michel Hazanavicius, o ganhador do Oscar por “O Artista” (2011), com “Le Prince Oublié”, estrelado por Omar Sy; o analítico Benoît Jacquot, hoje em cartaz no Brasil com “O Último Amor de Casanova”; e Alice Winocour, com “Próxima”, produção sobre dramas de maternidade de uma astronauta (Eva Green) que deu à cineasta o Prêmio Especial do Júri em San Sebastián. E tem Jacquot, que disputou o Urso berlinense em 2018 com o suspense “Eva”. Lelouch vai estar lá para falar de suas expectativas para o Amanhã e sua revisão história do longa que o consagrou. “Eu estava no fundo do poço, após dois fracassos seguidos, quando tive a ideia de filmar a saga de Duroc e Anne após ver uma mulher passeando com seu cão em uma praia. Era a ideia plena da simplicidade e da tentativa de estudar as angústias do amor romântico”, disse Lelouch, que trouxe imagens do longa de 1966 para “Les plus belles années d’une vie”, um romance arejado pela canção (homônima ao título do filme) de Calogero & Nicole Croisille. “Filmei ‘Un homme et une femme’ em meio ao sucesso da Nouvelle Vague, movimento do qual nunca fiz parte e ao qual sempre olhei com certa distância, por buscar, nas minhas criações, um contato mais afetivo e diretor com os espectadores, em vez de apostar em ideologias”.

p.s.: “Um Homem, Uma Mulher” conquistou também o Globo de Ouro, em 1967, eleito pela Hollywood Foreign Press Association (HFPA) o melhor filme estrangeiro daquele ano. Agora, em 2020, tudo indica que o troféu vai para o sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon-Ho, que ganhou a Palma de Ouro em maio.

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