‘Rendez-vous’ com Betrand Blier inédito

‘Rendez-vous’ com Betrand Blier inédito

Rodrigo Fonseca

24 de dezembro de 2019 | 08h00

“Convoi Exceptionnel”, de Betrand Blier

Rodrigo Fonseca
Depois de um hiato de nove anos sem lançar longas-metragens em circuito, um craque da ironia no cinemão francês, o diretor Betrand Blier (de “Meu Marido de Batom”) voltou às telas de seu país, em 2019, com um filmaço, perfumado a metalinguagem, que há de ganhar uma sobrevida em 2020: “Convoi Exceptionnel”. Gérard Depardieu e Christian Clavier protagonizam este exercício de fino humor do realizador de “Corações Loucos” (1974), sobre dois homens de classes sociais distintas que se unem após descobrirem um roteiro que detalha o futuro de suas vidas. Blier é um dos anzóis mais luminosos para atrair os holofotes mundiais para a nova safra do cinema francês, cuja vitalidade e diversidade de gêneros serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris. Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de reputação autoral (como o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian e a badalada Justine Triet) vão passar pelo Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da 22ª edição do Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, mostra realizada anualmente pela Unifrance, que, desta vez, terá Blier como chamariz. A Unifrance é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada anão, ele promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica. No início do ano que vem, emissários de 70 filmes (e esse número deve aumentar) vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 120 jornalistas de 30 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo.

Passarão pelo evento bambas como Michel Hazanavicius, o ganhador do Oscar por “O Artista” (2011), com “Le Prince Oublié”, estrelado por Omar Sy; o veteraníssimo Claude Lelouch, que vai exibir a terceira parte de seu “Um homem, uma mulher” (1966), chamada “Les plus belles années d’une vie”; e Alice Winocour, com “Próxima”, produção sobre dramas pessoais de uma astronauta (Eva Green) que deu a ela o Prêmio Especial do Júri em San Sebastián. Um dos títulos mais esperados do Rendez-vous 2020 é “Retrato de uma Jovem em Chamas” (“Portrait de la jeune fille en feu”), de Céline Sciamma. O prêmio de melhor roteiro em Cannes e a Queer Palm (a láurea LGBTQ+ da Croisette) foram reconhecimentos obrigatórios para esta produção diante da excelência de dramaturgia deste ensaio sobre a sororidade. Uma pintora do século XVIII (Noémie Merlant) tem uma tarefa de retratar uma jovem nobre (Adèle Haenel) forçada pela mãe a um casamento nào desejado. Da pintura vai brotar uma paixão cúmplice. E libertadora.

Também de Cannes vem para o Rendez-Vous “Les Misérables”, de Ladj Ly (França), que levou o Prêmio do Júri da Croisette empatado com “Bacurau”. De descendência maliana, Ladj Ly, francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais.

p.s.: Tem um filmaço na “Sessão da Tarde” da Globo deste Natal: o blockbuster “Alice no País das Maravilhas” (2010), de Tim Burton, cuja bilheteria beirou US$ 1 bilhão, no ano em que o realizador presidiu o júri de Cannes. Johnny Depp vive o Chapeleiro Louco, numa atuação que beira o surrealismo. A sessão será às 15h11. A madrugada da Globo vai ter mais um toque da estética burtoniana, com a transmissão de “Peixe Grande” (“Big Fish”, 2003), às 3h40.

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