‘Relatos do Mundo’ no Oeste de Tom Hanks

‘Relatos do Mundo’ no Oeste de Tom Hanks

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2021 | 12h38

Tom Hanks é dublado por Marco Ribeiro no Brasil, onde o longa-metragem estreou na Netflix

RODRIGO FONSECA
Mais vívido e mais sereno de todos os filmes na disputa por uma indicação ao Oscar 2021, “Relatos do Mundo” (“News of the World”, 2020), trabalho de maturidade do inglês Paul Greengrass (“Voo United 73”), é uma ode aos contadores de histórias capaz de vitaminar a tradição do faroeste como um gênero narrativo. Em sua melhor atuação desde “Capitão Phillips” (2013), Tom Hanks usa todo o James Stewart que tem dentro de si para compor a figura do Capitão Kidd, ex-militar que ganha a vida “contando” notícias, lendo os fatos mais importantes dos Estados Unidos e do mundo, no século XIX, a partir de jornais antigos. Numa se suas andanças, ele esbarra com uma menina, Johanna (Helena Zengel), uma europeia que viveu entre povos indígenas e, agora, está longe de sua população. Kidd, um viúvo solitário, resolve entregar a garota à sua família biológica, num gesto que traduz o racismo estrutural em sua formação. Mas essa postura vai sendo demolida conforme ele vai exercitando uma paternidade inesperada por Johanna, reinventando-se afetivamente. E essa reinvenção, registrada pela câmera do polonês Dariusz Wolski (de “Maré Vermelha”) com uma fome insaciável por espaços abertos, abrange os próprios códigos do western, tão surradas pela correção política. Indicada ao Globo de Ouro de melhor trilha sonora (James Newton Howard) e melhor coadjuvante (Helena), a produção, já na grade na Netflix, desbrava novas veredas na streaminguesfera, com Marco Ribeiro (um gigante entre os atores de voz do país) dublando Hanks.

Há muito a se explorar do passado do Western. Dirigido por Edwin S. Porter, “O grande roubo do trem”, de 1903, é considerado a pedra fundamental do faroeste. Em 1909, com a estreia de “O caubói milionário”, Thomas Hezikiah Mix, ou apenas Tom Mix, torna-se o primeiro ídolo da linhagem do bangue-bangue na telona, abrindo precedentes para os heróis pistoleiros vividos por John Wayne, Gary Cooper e Henry Fonda. Segundo a reflexão feita pelo pesquisador B. A. Botkin no livro A Treasury of American Folklore, filmes como o de Porter surgiram porque “os americanos, por falta de mitos e de tradições, tiveram de conceber seus próprio heróis, saídos estritamente de seus mundos. Eles escolheram ou criaram heróis à sua semelhança. O western, assim, evoca a epopeia dos pioneiros que conquistaram e colonizaram a nação, satisfazendo no coração de seu povo (leia-se os espectadores) os anseios de uma consciência mítica ancestral. Esta consciência nasceu de uma revisão dos causos narrados em baladas de menestréis nas ruas e nas dime novels ou pulps, vendidos a centavos nas bancas”.

Segundo Paulo Perdigão em “Western Clássico – Gênese e estrutura de ‘Shane’” (Porto Alegre, L&PM, 1985), a encarnação ideal do westerner (o caubói) é “a imagem do homem que, vindo do horizonte, porta uma aura de mistério, condenado à solidão dos degredados”. Perdigão segue: “Com a majestade dos cavaleiros andantes, os caubóis debatem-se entre a honra e o dever, fazendo toda uma noção (os EUA) e seus demais consumidores pelo mundo a entenderem que o mito é sempre uma história acompanhada de um ritual. E existem quatro antinomias centrais na mitologia do faroeste: Bem/Mal; Força/ Fragilidade; Dentro/ Fora da Sociedade; e Selva/ Civilização. Soma desses quadrantes num cabo-de-guerra de sentidos, o herói do Oeste clássico é sempre um herói de excepcional habilidade em busca de ingressar em um grupo social, mesmo sendo de fora dele, e alcança seu objetivo impondo sua força e sua virtude”.
Tratado como uma variável das histórias de aventura, o termo Western foi aplicado ao cinema pela primeira vez em 1912, na revista Motion Picture World Magazine, para caracterizar narrativas voltadas para o desbravamento das fronteiras americanas.

Hanks e Helena Zengel, indicada ao Globo de Ouro de melhor coadjuvante

No Brasil, o faroeste serviu de matéria-prima a um gênero, o Nordestern, que teve como marcos longas como “O cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha. Fora isso, o filão foi refeito aqui pelos moldes da cartilha básica em longas como “Rogo a Deus e mando bala” (1972), de Osvaldo de Oliveira, com o diretor Carlão Reichenbach, no elenco, e como “Gregório 38” (1969), de Rubens da Silva Prado. Vale lembrar das influências dos caubóis de Howard Hawks e John Ford em “A herança” (1970), a versão de Ozualdo R. Candeias, para “Hamlet”, de Shakespeare, com David Cardoso de Omeleto e Aguinaldo Rayol de Fortimbrás.
Meat Pie Western é o jargão para designar os bangue-bangues produzidos na Austrália, como “Herança de um valente” (1982), de George Miller, o mesmo realizador da trilogia (em breve ‘tetra’) “Mad Max” (1979-1985).
Ostern é o termo usado para designar faroestes produzidos no Leste Europeu, muitos deles com verba da União Soviética, para retratar os índios como heróis e os caubóis americanos como vilões. O sérvio Gojko Mitic era o John Wayne desse filão, produzidos entre 1965 e 1980, tendo a franquia “Apachen” (1970) como maior destaque para exportação.

p.s.: Na madrugada de domingo pra segunda, o “Cinemaço” da Globo exibe o etéreo “O Aviador” (“The Aviator”, 2004), de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio a viver o cineasta e magnata da aviação Howard Hughes (1905-1976). A produção de US$ 110 milhões arrecadou US$ 213,7 milhões e faturou os Oscars de melhor figurino (Sandy Powell), direção de arte (Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo), montagem (Thelma Schoonkamer), fotografia (Robert Richardson) e atriz coadjuvante, dado à australiana Cate Blanchett, pelo papel de Katherine Hepburn. Miriam Ficher dubla Cate com toda a sua potência trágica de grande atriz. Já DiCaprio ganha a voz, a ironia e a inteligência de Christiano Torreão, um dublador capaz de perceber cada sutileza de um diálogo. A projeção na Globo será à 1h.

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