Regra 34, Big Bang e Noite na América em Locarno

Regra 34, Big Bang e Noite na América em Locarno

Rodrigo Fonseca

03 de agosto de 2022 | 10h42

RODRIGO FONSECA
Locarno começou. Um ano depois de conquistar o prêmio de melhor curta por lá, com “Fantasma Neon”, o cinema brasileiro regressa ao festival suíço, um dos mais prestigiados do mundo, hoje em sua 75ª edição, disputando o Leopardo de Ouro apoiado nas inquietações autorais de Julia Murat e seu “Regra 34”. É um dos títulos com mais fôlego para prêmios. Na trama já divulgada, uma jovem advogada que estuda kung fu com uma colega, com quem divide aspirações feministas para a evolução da sociedade brasileira, é apresentada ao universo do BDSM (o sexo com práticas sadomasoquistas) e passa por uma transformação em que enfrenta ranços sexistas. Laureada na Berlinale de 2017 com o Prêmio da Crítica por “Pendular”, Julia vai concorrer com 16 produções de diferentes países, incluindo o trabalho mais recente do mestre russo Aleksandr Sokurov: “Fairytale”. Na seleção elaborada por Giona A. Nazzaro, crítico e atual curador de Locarno (que renovou o evento em 2021, abrindo espaço para um flerte com filmes de gênero), chamam atenção novos trabalhos da artista visual de Tel Aviv Ann Oren (“Piaffe”), do italiano Alessandro Comodin (“Gigi La Legge”) e da costa-ricense Valentina Maurel (“Tengo Sueños Eléctricos”). Essa turma será julgada por um júri presidido pelo produtor Michel Merkt (Suíça), reunindo cineastas (a italiana Laura Samani, a galesa Prano Bailey-Bond e o francês Alain Guiraudie) e o produtor americano William Horberg.

Vai ter uma coprodução Brasil-Itália-França concorrendo na seleção Cineasti Del Presente: É “Noite na América”, de Ana Vaz. É a mesma realizadora do elogiado “Apiyemiyekî?” (2020). Tem ainda o premiado Carlos Segundo, na disputa Curtas de Autor, com “Big Bang”.
Para sua abertura, Locarno investiu pesado e trouxe o novo filme protagonizado por Brad Pitt, “Trem-Bala”, de David Leitch, para uma sessão na Pizza Grande, onde uma multidão confere longas ao ar livre. Por lá serão exibidas ainda promessas de polêmica (“My Neighbor Adolf”, de Leon Prudovsky) e produções com pinta de sucesso popular (“Une Femme de Notre Temps”, de Jean Paul Civeyrac).
Flertando com o melodrama, a partir de uma retrospectiva do diretor alemão Douglas Sirk (1897-1987), realizador de “Imitação da Vida” (1959), a programação arquitetada por Giona para Locarno inclui uma série de tributos. No rol de homenageados estão: a realizadora Kelly Reichardt, a compositora e artista visual Laurie Anderson, o ator Matt Dillon, o produtor Jason Blum e o realizador Costa-Gavras.

Kelly Riechardt é um das vozes autorais que vão receber tributo em Locarno

Uma outra aposta de sucesso é “MEDUSA DELUXE”, longa de estreia do diretor britânico Thomas Hardiman, que fará sua estreia mundial na Piazza Grande, no dia 6. O drama, que se desenrola em meio a um assassinato num concurso de penteados extravagantes, chega com exclusividade à MUBI em breve. Escrito e dirigido por Hardiman, o filme apresenta Clare Perkins, Anita-Joy Uwajeh, Kae Alexander e Harriet Webb no elenco.

p.s.: As novas vozes femininas da música carioca fazem homenagem a Elza Soares no espetáculo “A Menina do Meio do Mundo – Elza Soares para Crianças”, que estreia, dia 06 de agosto, no Imperator – Centro Cultural João Nogueira, no Méier. Crias de Sâo Gonçalo, Merícia Cassiano, que vive Elzinha, e Ella Fernandes, na pele de sua mãe Rosária, protagonizam o musical com texto de Pedro Henrique Lopes, direção de Diego Morais, direção musical de Gabriel Quinto e Tony Lucchesi e coreografias de Viviane Santos. A trama acompanha a relação afetuosa entre Elza e sua mãe Rosária, os desafios na criação de uma criança com poucos recursos financeiros, a importância do afeto entre as pessoas, a finitude da vida e, principalmente, a valorização da mulher negra em uma sociedade regida por homens brancos. Este é o sétimo espetáculo do projeto Grandes Músicos para Pequenos, criado com o objetivo de apresentar os grandes nomes da MPB para as novas gerações, em espetáculos que reúnem toda a família. A partir de 10 de setembro, a peça fará temporada no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. “Elza Soares está na nossa lista de homenageados desde o começo do projeto. É uma artista que admiramos muito não só pela importância musical, mas pela trajetória de vida, pelo que ela representa para a mulher preta e para o povo brasileiro” conta o diretor Diego Morais.

p.s.2: Depois de concorrida temporada no Teatro Poeirinha, o elogiado espetáculo “Cora do Rio Vermelho” inicia apresentações pelas unidades do Sesc: Nova Friburgo (05/08), Teresópolis (06/08), Duque de Caxias (13/08), Ramos (18/08), Madureira (19/08), Barra Mansa (01/09), São Gonçalo (03/09) e São João de Meriti (10/09). “Cora do Rio Vermelho” foi aprovado no Edital Sesc RJ Cultura 2022. Com dramaturgia de Leonardo Simões e direção de Isaac Bernat, o espetáculo é forte e delicado, assim como a escrita da poeta. “Como bem disse Carlos Drummond de Andrade: ‘Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil Velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária’”, celebra o diretor Isaac Bernat. Ao longo da encenação, há músicas populares, que unem vozes femininas de cantoras-atrizes do cenário teatral brasileiro: Aline Peixoto, Chiara Santoro, Clara Santhana, Cyda Moreno e Soraya Ravenle.

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