Reforços autorais pra San Sebastián

Reforços autorais pra San Sebastián

Rodrigo Fonseca

20 de agosto de 2020 | 13h02

“The Woman Who Ran”: melhor direção para o sul-coreano Hong Sangsoo

Rodrigo Fonseca
San Sebastián não deixa de surpreender: no empenho de potencializar o vácuo deixado pela ausência de Cannes e de outras grandes maratonas cinematográficas, o festival espanhol, agendado de 18 a 26 de setembro, em edição presencial, não cessa de inchar sua grade de guloseimas autorais, buscando, agora, o melhor da Berlinale. Medalhões do cinema de autor foram chamados para reforçar o evento, na disputa pelo Prêmio Zabaltegi-Tabakalera, uma das láureas paralelas à disputa pela Concha de Ouro, incluindo nessa leva uma promessa de excelência vinda de Portugal: Catarina Vasconcelos e seu “A Metamorfose dos Pássaros”. Uma promessa a mais vem da América Latina: o colombiano “Los Conductos”, de Camilo Restrepo. Mas, ao redor deles, o bonde de autorias é imenso, começando pela prata da casa: ás da leva de cineasta de Barcelona, Carla Simón (“Verão 1993”) entra em cena com “Correspondencia”, sobre uma troca de cartas entre diretoras. Aí vem o taiwanês Tsai Ming-Liang com o belíssimo “Days” (“Rizi”), que deu a ele o prêmio Teddy (troféu LGBTQ) em Berlim. Também da capital alemã, os espanhóis importaram “The Woman Who Ran”, já adquirido para o Brasil, pela distribuidora Pandora. O longa consagrou com o Urso de Prata de melhor direção a estética palavrosa (e existencialista) de Hong Sangsoo. Foi um troféu emblemático que o artista responsável por joias como “Você e os Seus” (2016) e “A Visitante Francesa” (2012) recebeu das mãos do realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Bacurau”, que integrava o time de jurados presidido pelo ator inglês Jeremy Irons. Kleber usou o adjetivo “o grande” para se definir ao realizador, cuja carreira começou em 1996, com “O Dia Em Que o Porco Caiu no Poço”.
“Generalizações de sentido, de significados, não me servem. O cinema que eu faço não obedece nenhuma lógica teórica prévia que engesse o meu senso de descoberta. A questão que me interessa é observar a vida e valorizar aquilo que o momento possa me trazer”, disse Sangsoo após a projeção de seu “The Woman Who Ran” em terras germânicas.

“Le Sel Des Larmes”

Cozido num banho-maria que contagia, seu novo longa (“Domangchin yeoja” no original), é um estudo sobre companheirismo. Parceira de vida e de obra do diretor, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, mulher de um tradutor que, em um dia sem a companhia do marido, vai visitar amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher lhe pergunta ‘Você ama seu marido?’ e ela dá um riso azedo e um tempo de silêncio como resposta), Gamhee disseca a lógica mais redentora da desatenção, encarando uma solidão existencial.
Com a pandemia, histórias intimistas sobre relacionamentos dispararam na triagem (e no desejo) dos internautas, para reciclar afetos, o que elevou o cacife de cineastas especializados nas aritméticas do querer, como o diretor francês Philippe Garrel, de 72 anos, cujo novo filme, “Le Sel des Larmes”, também integra a micareta de San Sebastián. Indicado ao Urso de Ouro, este drama de paixão rachou opiniões por sua representação das vaidades masculinas num embate romântico. Com distribuição no Brasil assegurada pela Fênix, o novo trabalho do realizador de “A cicatriz interior” (1972) e “A fronteira da alvorada” (nomeado à Palma de Ouro de Cannes, em 2008) fala de um estudante francês, Luc (Logann Antuofermo), siderado por seu velho pai (André Wilms), que se apaixona por uma jovem de origem africana, Djemila (Oulaya Amamra) em meio a uma mudança de cidade. Ele se muda para tocar seus estudos. Mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar.
“O discurso da História mente: ele é interpretação, não vivência. Se eu abordo a História pela chave do amor, não importa a mentira: importa a permanência e a universalidade dos sentimentos”, explica Garrel ao Estado de S. Paulo. “Cinematograficamente, eu posso fazer a História avançar, indo pelo terreno dos sentidos, das vivências”.

“Casa de Antiguidades”

Na seara dos Novos Diretores, mais uma de suas seções competitivas paralelas, San Sebastián se abre para o Brasil com “Casa de Antiguidades”, com Antônio Pitanga em uma reflexão sobre o racismo institucionalizado. A direção é de João Paulo Miranda Maria. Na briga pela Concha de Ouro, o evento traz inéditos da japonesa Naomi Kawase (“True Mothers”), do dinamarquês Thomas Vinterberg (“Another Round”) e do francês François Ozon (“Été 85”). Viggo Mortensen será homenageado pelo festival com direito ao prêmio honorário Donostia pelo conjunto de sua obra. E ele exibirá por lá seu primeiro trabalho na direção: “Falling”.

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