‘Redemoinho’ está chegando pra agitar o cinema autoral

‘Redemoinho’ está chegando pra agitar o cinema autoral

Rodrigo Fonseca

19 Janeiro 2017 | 12h26

Gildo (Julio Andrade) encara Luzimar (Irandhir Santos) no olho do

Gildo (Julio Andrade) encara o amigo Luzimar (Irandhir Santos) no olho do “Redemoinho”: 9 de fevereiro nas telas

RODRIGO FONSECA

Pátria do pioneiro da brasilidade nas telas do cinema verde e amarelo, o diretor Humberto Mauro (1897-1983), a cidade mineira de Cataguases, imortalizada nas telas como instância poética de invenção de uma identidade nacional, voltou a ser palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para o cinema com Redemoinho, longa-metragem de estreia do diretor de TV José Luiz Villamarim como cineasta. Dia 9 de fevereiro ele chega às telas, com a promessa de sacudir certezas estéticas na seara mais autoral da produção cinematográfica nacional. Escalado para a mostra Ópera Prima do Festival de Havana, em Cuba, esta produção conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio, em outubro, onde fez sua estreia mundial, após uma espera quase de dois anos pelo projeto. Recebeu ainda o prêmio de melhor ator para Julio Andrade.

Desde 2014 reinava entre as classes audiovisuais do Brasil a curiosidade de saber como o responsável por hits televisivos como a novela Avenida Brasil (2012) e as minisséries Amores Roubados (2014) e Justiça (2016) sair-se-ia com outro léxico. E valeu esperar, pois este drama natalino baseado em tramas do segundo volume de Inferno Provisório, a Comédia Humana de Luiz Ruffato, fez jus à expectativa ao iluminar o Cine Roxy com procedimentos de linguagem mais próximos de uma certa estética iraniana que dos filmes do Brasil. Mais do que impactar pela sisudez de uma Minas operária (sem o barroquismo com o qual as Gerais costumam ser retratadas), a produção impactou por uma estrutura de roteiro sofisticadíssima. Na dramaturgia de George Moura o eixo central – o reencontro de dois velhos amigos – é arejado por microsituações que lhe servem de satélites, estruturadas simbolicamente quase como flashes do correr da vida, algumas servindo para esclarecer dúvidas, outras abrindo caminhos autônomos, num processo de diálogo com a prosa de Ruffato.

 

É o silêncio que reina senhorial nesta narrativa, na qual a direção de fotografia feita por Walter Carvalho (talvez a mais ousada de sua carreira, em anos recentes, desde Baixio das Bestas) dá tanto valor a rebites de pontes e a ribanceiras quanto à gente ao seu redor. É um filme de clima, de construção climática, onde as revelações do enredo chocam menos do que os desabafos de inquietação frente a um lugar onde o Tempo escorre pela chuva que esfria ímpetos de renovação. É também filme de assombração, pelo fantasma de um menino morto que pesa no mormaço local. Mas não é um filme de causalidade: no ritual de observação orquestrado por Villamarim a partir das palavras de Moura e das lentes de Carvalho as ações não correm em P.A. (progressão aritmética) nem P. G. (progressão geométrica), pois, nem sempre, um fato deflagará outro, nem sempre uma ação esperará reação.

Ali é Minas. Uma Minas secular. Uma Minas que não sem pressa, pois viciou-se na segurança da rotina. Uma Minas vista de seu ventre social, mas sem uma politização. Vimos nos últimos dez anos aquele estado renascer nos experimentos nas franjas de uma certa videoarte, com a produtora Teia, com A Falta Que Me Faz (2009), de Marília Rocha, com as ruminações de Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. Mas há nas Gerais de Villamarim uma mistura ardida de metafísica e carnalidade, de ausência e de pertença, de pouca metáfora e muita metonímia: temos partes representando o todo, vestígios indicando onde estão os cadáveres de sentido. E temos uma das cenas mais belas do nosso cinema, na qual Camila Amado deposita em águas egressas do leito do Rio Pomba flores para o filho morto, pedindo para que ele volte.

77 a 7 Redemoinho 77 Villamarim

Numa genealogia cinéfila, o parente mais próximo de Redemoinho, no discurso e na investigação de mundo, seria o italiano As Maravilhas (2014), de Alice Rohrwacher, sobre uma família de genes etruscos. Mas a gente pisa, com Villamarim, em um chão esturricado que lembra o do Irã que o cinema de lá nos apresentou.

 

É difícil não pensar no Jafar Panahi de Ouro Carmin (2003) ao acompanharmos as andanças do que parece ser o protagonista, o operário Luzimar (Irandhir Santos), da tecelagem onde bate ponto até sua casa, onde a mulher (Dira Paes) o espera com a ceia de Natal e com um segredo. Mas no meio de seu caminho há uma pedra, Gildo (Julio Andrade), amigo das peladas de infância, ligado de alguma forte à perda do tal menino, da qual se sabe bem pouco (e da qual saberemos apenas o necessário para galvanizar a sensação de nó na garganta de todos). Gildo convida Luzimar para uma cerveja e dela outra e outra e outra numa sucessão de goles para regar a necessidade soterrada de ambos de deixar as angústias tomarem um ar.

Walter Carvalho fotografa Cataguases com o mesmo peso que dá aos personagens centrais

Walter Carvalho fotografa Cataguases com o mesmo peso que dá aos personagens centrais

Mas não espere soluções, nem mistérios, nem conflitos redefinidores. Redenção é uma palavra absoluta. O mundo de Ruffato, não: é provisório ao pé da letra. Absoluto, em Redominho, só se manifesta em dois pontos. A) Na certeza de que dois dos maiores atores deste nosso país (Irandhir e Andrade) vão entregar o melhor de si num embate que não fala a língua da dialética, nem da retórica: são os instintos primais que darão as cartas ali; b) Na percepção de que Villamarim teve uma estreia apoteótica, lançando-se como realizador no ápice da forma e da fome, permitindo uma reinvenção contextual a um planisfério que nos deu O Padre e a Moça (1965), A Casa Assassinada (1970) e Cabaré Mineiro (1979), entregando algo que parece, à primeira vista, um filme definitivo sobre alguma coisa que finge ser amizade, mas se chama rancor.

 

Dois dedos de prosa com Villamarim

 

Que Minas Gerais o senhor encontrou na prosa de Luiz Ruffato?

VILLAMARIM: A Minas dele é diferente da minha, que nasci na cidade de Três Marias, numa filha de classe média, e cresci em Ipatinga, por sete anos, até me mudar para Belo Horizonte. Ele vem de uma origem mais pobre, filho de pipoqueiro. A Minas dos livros dele é a Minas Gerais do existencialismo, dos desgarrados, do desejo de partir, da poesia e do mistério. O nosso encontro se deu menos pela questão geográfica e mais pelo meu interesse em seus personagens e em seu universo. O universo dele é o da crueza. Eu cresci numa outra Minas Gerais, representada por autores como Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, que nos deram um olhar mais mítico para a região. Curiosamente, assim como os personagens do Ruffato, esses escritores e poetas que eu citei também saíram de lá. Minas tem uma coisa muito forte com a partida. Seu povo está sempre partindo. Eu mesmo saí de lá e fui trabalhar na TV Globo, onde estou há 23 anos.   

 

Sua carreira na TV é marcada por um diálogo com o documentário, para renovar o realismo na ficção. O quanto o cinema ampliou sua relação com o real?

VILLAMARIM: No cinema eu pude ir mais fundo ainda nisso, atrás de algo ainda mais radical: o hiperrealismo. Quando eu filmo a vida de um jovem operário, a casa dele no filme é uma casa operária de verdade, que corresponda ao padrão financeiro de vida que aquele personagem leva. E eu interfiro o mínimo possível no ambiente. Tenho a necessidade de buscar identificação entre o que eu represento e a vida real. Hoje, na arte, o farsesco me interessa pouco. Partindo do real, eu me sinto menos no escuro.

 

Qual foi o saldo experimental mais forte dessa sua investida no cinema?

VILLAMARIM: O que mais me fascinou no cinema foi a possibilidade de realizar a síntese, algo mais difícil de fazer na TV, onde existe muito excesso, seja de texto, seja de volume de trabalho. Como eu passei quase dez anos idealizando este projeto, cheguei a ele mais preparado, com tempo. Essa experiência me fez ver e viver algo bem próximo do que o Tarkóvski chamava de “esculpir o tempo”, de moldá-lo atrás de um sentido.