‘Redemoinho’ agita a TV

‘Redemoinho’ agita a TV

Rodrigo Fonseca

03 de setembro de 2020 | 11h19

José Luiz Villamarim dirige Irandhir Santos e Julio Andrade no set de “Redemoinho”

Rodrigo Fonseca
É dia de reencontrar uma obra-prima da representação das classe operária brasileira que não recebeu o devido carinho em sua estreia em circuito: “Redemoinho” tem sessão esta noite, às 20h10, no Canal Brasil. Baseado na obra literária de Luiz Ruffato (“Inferno Provisório”), o drama pilotado pelo cineasta estreante José Luiz Villamarim (jovem nas telonas, mas cascudo na telinha, onde dirigiu sucessos como “Amores Roubados” e “Avenida Brasil”) ganha novos contornos a cada revisita. E o espaço da TV é um caminho de se repensar a riqueza formal de uma história sobre amigos em colisão.
Pátria do pioneiro da brasilidade nas telas do cinema verde e amarelo, o diretor Humberto Mauro (1897-1983), a cidade mineira de Cataguases, imortalizada nas telas como instância poética de invenção de uma identidade nacional, voltou a ser palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para o cinema com o trabalho de Villamarim como cineasta. Escalado no fim de 2016 para a mostra Ópera Prima do Festival de Havana, em Cuba, esta delicada produção conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio daquele ano onde fez sua estreia mundial, após uma longa espera. Durante quase de dois anos falou-se do projeto no circuito nacional. Na competição carioca, ele ainda recebeu o prêmio de melhor ator, dado a Julio Andrade.
Desde 2014 reinava entre as classes audiovisuais do Brasil a curiosidade de saber como o responsável por hits televisivos como a novela “Avenida Brasil” (2012), atualmente envolvido com a volta das gravações de “Amor de Mãe”, sair-se-ia com outro léxico. E valeu esperar, pois este drama natalino baseado em tramas do segundo volume de “Inferno Provisório”, a Comédia Humana de Luiz Ruffato, faz jus à expectativa ao iluminar nosso olhar com procedimentos de linguagem mais próximos de uma certa estética iraniana que dos filmes do Brasil. Mais do que impactar pela sisudez de uma Minas operária (sem o barroquismo com o qual as Gerais costumam ser retratadas), a produção impactou por uma estrutura de roteiro sofisticadíssima. Na dramaturgia de George Moura o eixo central – o reencontro de dois velhos amigos – é arejado por situações micro que lhe servem de satélites, estruturadas simbolicamente quase como flashes do correr da vida, algumas servindo para esclarecer dúvidas, outras abrindo caminhos autônomos, num processo de diálogo com a prosa de Ruffato.
É o silêncio que reina senhorial nesta narrativa, na qual a direção de fotografia feita por Walter Carvalho (talvez a mais ousada de sua carreira, em anos recentes, desde “Baixio das Bestas”) dá tanto valor a rebites de pontes e a ribanceiras quanto à gente ao seu redor. É um filme de clima, de construção climática, onde as revelações do enredo chocam menos do que os desabafos de inquietação frente a um lugar onde o Tempo escorre pela chuva que esfria ímpetos de renovação. É também filme de assombração, pelo fantasma de um menino morto que pesa no mormaço local. Mas não é um filme de causalidade: no ritual de observação orquestrado por Villamarim a partir das palavras de Moura e das lentes de Carvalho as ações não correm em P.A. (progressão aritmética) nem P. G. (progressão geométrica), pois, nem sempre, um fato deflagará outro, nem sempre uma ação esperará reação.
Ali é Minas. Uma Minas secular. Uma Minas que não sem pressa, pois viciou-se na segurança da rotina. Uma Minas vista de seu ventre social, mas sem uma politização. Vimos nos últimos dez anos aquele estado renascer nos experimentos nas franjas de uma certa videoarte, com a produtora Teia, com “A Falta Que Me Faz” (2009), de Marília Rocha e com as ruminações do encantador “Girimunho”, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. Mas há nas Gerais de Villamarim uma mistura ardida de metafísica e carnalidade, de ausência e de pertença, de pouca metáfora e muita metonímia: temos partes representando o todo, vestígios indicando onde estão os cadáveres de sentido. E temos uma das cenas mais belas do nosso cinema, na qual Camila Amado deposita em águas egressas do leito do Rio Pomba flores para o filho morto, pedindo para que ele volte.

Numa genealogia cinéfila, o parente mais próximo de “Redemoinho”, no discurso e na investigação de mundo, seria o italiano “As Maravilhas” (2014), de Alice Rohrwacher, sobre uma família de genes etruscos. Mas a gente pisa, com Villamarim, em um chão esturricado que lembra o do Irã que o cinema de lá nos apresentou.
É difícil não pensar no Jafar Panahi de “Ouro Carmin” (2003) ao acompanharmos as andanças do que parece ser o protagonista, o operário Luzimar (Irandhir Santos), da tecelagem onde bate ponto até sua casa, onde a mulher (Dira Paes) o espera com a ceia de Natal e com um segredo. Mas no meio de seu caminho há uma pedra, Gildo (Julio Andrade), amigo das peladas de infância, ligado de alguma forte à perda do tal menino, da qual se sabe bem pouco (e da qual saberemos apenas o necessário para galvanizar a sensação de nó na garganta de todos). Gildo convida Luzimar para uma cerveja e dela outra e outra e outra numa sucessão de goles para regar a necessidade soterrada de ambos de deixar as angústias tomarem um ar.
Mas não espere soluções, nem mistérios, nem conflitos redefinidores. Redenção é uma palavra absoluta. O mundo de Ruffato, não: é provisório ao pé da letra. Absoluto, em Redominho, só se manifesta em dois pontos. A) Na certeza de que dois dos maiores atores deste nosso país (Irandhir e Andrade) vão entregar o melhor de si num embate que não fala a língua da dialética, nem da retórica: são os instintos primais que darão as cartas ali; B) Na percepção de que Villamarim teve uma estreia apoteótica, lançando-se como realizador no ápice da forma e da fome, permitindo uma reinvenção contextual a um planisfério que nos deu “O Padre e a Moça” (1965), “A Casa Assassinada” (1970) e “Cabaré Mineiro” (1979), entregando algo que parece, à primeira vista, um filme definitivo sobre alguma coisa que finge ser amizade, mas se chama rancor.
Tem reprise de “Redemoinho” no Canal Brasil na segunda, dia 07/09, às 18h05; terça, dia 15/09, às 16h40; sexta, dia 25/09, às 13h40; e quarta, dia 30/09, às 10h35.

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