‘Redacted’, um De Palma seminal, chega à MUBI

‘Redacted’, um De Palma seminal, chega à MUBI

Rodrigo Fonseca

28 de junho de 2021 | 12h12

Rodrigo Fonseca
Obra-prima incontestável no que envolve a reflexão dos saldos da cultura bélica e o papel das mídias digitais na alfabetização de novas práticas de discurso, “Redacted”, filme ganhador do prêmio de melhor direção do Festival de Veneza 2007, coroando a genialidade de Brian Russell De Palma, nunca estreou em circuito por aqui, tendo sido apresentado no Festival do Rio 2008 com um título em português: “Guerra Sem Cortes”. Por sorte, essa pérola acaba de estrear na MUBI. Há quem execre a narrativa fragmentada que combina filmagens improvisadas e vídeos no YouTube para reconstituir como thriller de ficção semidocumental os chamados Crimes de Mahmudiyah. O termo se refere ao estupro de uma adolescente iraquiana e a morte de sua família pelas mãos de tropas americanas, em um incidente que acabou sendo julgado. Era um fato real bem similar a situações que De Palma já havia retratado em “Pecados de Guerra” (1989), sobre o Vietnã. À época de seu lançamento, De Palma vinha do sucesso de “Dália Negra” (2006) mas fracassou na tentativa de convencer o púbico americano a se interessar por um filme que descascava a falta de ética dos exércitos do Tio Sam em seu intervencionismo. Para piorar, De Palma foi acusado de ter deturpado fatos e de ter pintado uma imagem nociva das Forças Aramadas dos EUA, o que ampliou o desprezo dos estúdios por seu trabalho. Seus dois longas seguintes, “Paixão” (2012) e “Dominó” (2019), foram esnobados pelo circuito. E hoje, o mítico cineasta sua seu tradicional jaleco cáqui para filmar de novo. Projetos recentes do midas do suspense da Nova Hollywood, como “Catch and Kill” e “Sweet Vengeance”, seguem em animação suspensa.

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, Brian Russell De Palma, um estudante de Física, estreou como realizador em 1960, ao rodar o curta-metragem “Icarus”. Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 35 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção “Dancing in the dark”. Na seara dos longas-metragens, contabiliza 31 produções, rodadas entre 1968 – quando debutou no formato, com “Murder à La mod” – e 2019 – quando “Dominó” entrou em cartaz em Israel e na Hungria. Avaliando-se tudo de bom que o diretor assinou, “Dublê de corpo” (1984), “Scarface” (1983) e “Carrie, a estranha” (1976) são considerados obras-primas em sua carreira, cujos maiores êxitos comerciais foram projetos de “encomenda”. Seus blockbusters: “Os Intocáveis” (1987), cujo faturamento beirou US$ 76,2 milhões, e “Missão: Impossível” (2006), que registrou uma arrecadação mundial de US$ 456,7 milhões.

De Palma no set de “Passion”

Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Em 2007, quando lançou “Guerra sem cortes”, usando elementos da linguagem digital retirados do YouTube, o cineasta declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência de sua gramática esses elementos complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”.

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