Recordações Na Real_Virtual de Coutinho

Recordações Na Real_Virtual de Coutinho

Rodrigo Fonseca

03 de novembro de 2020 | 08h19

Carlos Alberto Mattos com Eduardo Coutinho no Festival de Santa Maria da Feira, em 2003

Rodrigo Fonseca
Começa nesta quarta-feira mais uma jornada ao coração documental do audiovisual brasileiro, abençoada pela água benta da conversação, com a peregrinação pelas vozes e vivências do Na Real_Virtual, evento cinematográfico nacional de maior mobilização da pandemia, que, agora, inaugura sua Parte II, tendo Eduardo Coutinho (1933-2014) como sua Estrela de Belém. Há um time dos mais diversos na curadoria armada pelo diretor e roteirista Bebeto Abrantes e pelo crítico e escritor Carlos Alberto Mattos. A partir do dia 6/11, falam com online com o público, via https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, cineastas como Adirley Queirós, Alberto Alvares Guarani, Ana Luiza Azevedo, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Jorge Furtado, Kiko Goifman, Lúcia Murat, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Silvio Da-Rin, Susanna Lira, Vincent Carelli e Walter Salles. Antes de essa turma abrir o verbo, neste 4 de novembro, Abrantes e Mattos prestam um tributo ao realizador do cult “Edifício Master” (2002). A partir de uma análise da carreira dele, Mattos publicou um livro seminal: “Sete Faces de Eduardo Coutinho”. O legado desse documentarista, que formou uma igreja de seguidores e fãs com filmes como “Jogo de Cena” (2007), vai ser analisada amanhã (quarta) em conversas com o seu rol de colaboradores mais frequentes: Beth Formaggini, Carlos Nader, Consuelo Lins, Cristiana Grumbach, Jacques Cheuiche, João Moreira Salles, Jordana Berg, Laura Liuzzi e Valéria Ferro. Essa discussão acaba por se tornar um polo extra de discussão sobre a herança artística de Coutinho, uma vez que um dos mais prestigiados centros culturais brasileiros, o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, mantém aberta uma exposição dos seus pertences (como caderneta, máquina de escrever, cinzeiro) e imagens de Eduardo. Permanecendo em solo carioca até 21 de fevereiro, a Ocupação Eduardo Coutinho, organizada pelo próprio Carlos Alberto Mattos, revisita a trajetória do cineasta, a sua obra e o seu processo de criação. Há lá um precioso material audiovisual somado a documentos, objetos e fotografias do seu acervo pessoal e de amigos e colegas de profissão, que ajudam a conhecer e relembrar o realizador. Concebida e apresentada pelo Itaú Cultural em São Paulo, desde outubro a novembro de 2019, a mostra ganha, no Rio, uma nova “expografia”. A pedido do P de Pop, Mattos fala sobre a riqueza desse resgate de recordações coutinianas.

Qual é o desenho estruturado para a mesa de abertura do Na Real_Virtual em função do legado de Eduardo Coutinho e como esse desenho dialoga com a Ocupação do IMS?
Carlos Alberto Mattos:
A ideia de abrir a Parte 2 do Na Real_Virtual com a sessão “Eduardo Coutinho Presente!” nasceu da recorrência com que o seu nome veio à tona na Parte 1, confirmando ser ele uma das grandes inspirações para os documentaristas brasileiros contemporâneos. Pensamos, então, numa sessão informal, uma espécie de sarau virtual, em que seis colaboradores históricos dele, mais o diretor Carlos Nader, e eu faremos leituras, contaremos histórias e comentaremos algumas imagens menos conhecidas da sua vida e trabalho. Haverá imagens de bastidores e de projetos que não foram adiante. Não será um debate nos moldes do restante do seminário, mas uma celebração, uma reunião de amigos que o rodearam durante boa parte da sua carreira. Nesse sentido, não há um diálogo visível com a Ocupação, mas apenas possíveis reverberações.
Em que momentos da História do Cinema Brasileiro a obra de Coutinho mais reverbera os conflitos e as pluralidades sociais do país? O que há de político no cinema de Coutinho?
Carlos Alberto Mattos:
Na Ocupação, temos um módulo denominado “Fios da Memória”, onde abordamos os filmes em que Coutinho cruza memórias pessoais de seus personagens com um contexto histórico brasileiro específico. O exemplo mais clássico disso é, naturalmente, “Cabra Marcado para Morrer”. A história diaspórica da família de Elizabeth Teixeira era um eixo pelo qual Coutinho recuperava a história das Ligas Camponesas, da UNE Volante, do golpe militar e dos anos de ditadura e clandestinidade que se seguiram. Já em “O Fio da Memória”, o cineasta partia de uma efeméride – os 100 anos da abolição da escravatura – para investigar a permanência do legado da escravidão, assim como a presença dos afrodescendentes no tecido cultural e religioso do país. Em “Volta Redonda – Memorial da Greve” e “Peões”, ele saiu em busca da memória operária naquilo que dizia respeito à participação política. Sempre com o foco mais concentrado nas experiências pessoais do que nas análises macro, que ele rejeitava peremptoriamente como objeto do seu cinema. Embora esses sejam os filmes mais diretamente políticos na carreira do diretor, é preciso ter em mente que o seu cinema de conversa sempre examinou as micropolíticas do cotidiano, especialmente no que tange às questões de comportamento, gênero, espiritualidade etc.

Há uma seleção pluralíssima de vozes nessa segunda fornada do Na Real_Virtual, mas onde é que o legado de Coutinho se faz notar na seleção de cineastas convidados?
Carlos Alberto Mattos:
Constam ali alguns admiradores notórios da obra de Coutinho, como Silvio Da-Rin (autor do prefácio de “Sete Faces de Eduardo Coutinho”), Evaldo Mocarzel e Walter Salles. De alguma maneira, e em algum nível, pode-se talvez dizer que a filmografia coutiniana afetou a todos os que fazem documentário no Brasil das últimas décadas, seja pela reconfiguração dos sentidos da entrevista, seja pela importância hoje atribuída aos deslizamentos entre ficção e realidade. Mas eu creio que a diversidade de enfoques, preocupações e preferências desses 16 cineastas se sobrepõe a qualquer denominador comum. A pluralidade está garantida; as eventuais convergências surgirão no curso do seminário.

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