Começa San Sebastián, um ano após ‘Pacificado’

Começa San Sebastián, um ano após ‘Pacificado’

Rodrigo Fonseca

15 de setembro de 2020 | 10h53

RODRIGO FONSECA
Gina Gershon, Elena Anaya, Louis Garrel, Wallace Shawn e Christopher Waltz prometem fazer de “Rifkin’s Festival” uma iguaria provocativa para a abertura do 68º Festival de San Sebastián, nesta sexta-feira, levando uma brisa woodyalleniana para o evento do norte espanhol, que vai juntar medalhões na disputa pela Concha de Ouro de 2020. “True Mothers”, da japonesa Naomi Kawase; “Another Round”, do dinamarquês Thomas Vinterberg; “In The Dusk”, do lituano Sharunas Bartas; e “Été 85”, do francês François Ozon, são algumas das apostas para os prêmios da terra dos pintxos (acepipes da culinária local) que, em 2019, coroou um vigoroso longa-metragem brasileiro ainda inédito em circuito nacional: “Pacificado”. Dirigida por um americano, Paxton Winters, mas rodado todo no Rio de Janeiro, focado no dia a dia do Morro dos Prazeres, a produção abocanhou a Concha dourada, mais os prêmios de melhor ator, dado a Bukassa Kabengele, e fototografia, clicada por Laura Merians Gonçalves. Vieram ainda outros seis prêmios de outros festivais para esta cartografia da exclusão construída por Paxton, entre eles a láurea do júri popular da Mostra de São Paulo.
Duas lições dadas por gente que atua – gente das grandes – saltam à cabeça ao longo dessa travessia audiovisual por nossas feridas sociológicas que “Pacificado” é. Trata-se de um filme de samurai… um devastador filme de samurai sem katanas, mas com bushidôs (código de conduta). A primeira lição vem de Liv Ullmann: “A medida da tragédia que uma atriz ou um ator pode comportar a gente calcula pelo olhar. Olhar os olhos de um colega de cena é um gesto de generosidade; um gesto de troca, como se fosse mão dada; é uma forma de medir o abismo que nos aguarda e o abrigo que nos abraça”. A lição dois saiu de uma frase de Javier Bardem em Cannes, ao lançar “Todos já sabem”: “As maiores atrocidades que os seres humanos perpetram são justificadas com o uso da palavra ‘honra’, como se ela permitisse tudo, perdoasse tudo”. Olhos… Honra… São estes os faróis que um time de moradores do Morro dos Prazeres (RJ) e Paxton dão ao público para iluminar uma estrada pavimentada sociológica e cinematograficamente por clichês. Clichês que somem deste filme (produzido pelo pelos brasileiros Paula Linhares e Marcos Tellechea e pelo diretor americano Darren Aronofsky) como bolha de sabão, a partir da educação sentimental de uma adulta disfarçada em hormônios de 14 anos. A adulta Tati, vivida por Cássia Nascimento. Uma educação que é dela e de seu pai, Jaca, defendido nas raias do esplendor (e de muita dor) por um Toshiro Mifune cujo nome é Bukassa Kabengele… o Ronin desta trama.

Débora Nascimento encara Bukassa Kabengele em “Pacificado”

De maneira orgânica, quase casual, a câmera da diretora de fotografia Laura Merians sempre fita olhares em “Pacificado”, desde os planos iniciais… como se buscando mesurar o trágico de um Rio de Janeiro de 2016, no desmanche da estrutura dos Jogos Olímpicos. O primeiro olhar que grita em cena é o de uma titã de nossas telas, Léa Garcia… como Dona Preta, ou só a Vó… a fiel Vó de Jaca… bisa de Tati (que a chama de vó também)… Vó do morro todo. Uma Anna Mangnani à luz de Iemanjá. O olhar de maré branda de Tati logo se faz molhar… marejando sonhos despedaçados por toda a sorte de demanda e de agressões de sua mãe, Andréa. Esta também esbugalha a pólvora que reside em sua retina… retinas dilatadas por carreiras e mais carreiras de pó e pela esperança vã de ter um lote de terra à sua espera em São Paulo. Andréa é um corpo que se definha… um corpo desejado por muitos personagens mas que, já nos momentos iniciais do filme, revela um terçol digno de Capitu… na ressaca de um determinismo que Winters estuda quadro após quadro. Esse organismo que entra em entropia em cena dimensiona a grandeza de sua atriz, numa aula de perseverança e resiliência: a ótima Débora Nascimento. Famosa pela TV, em novelas de sucesso, Débora roubou holofotes de Hollywood para si numa rápida aparição em “O Incrível Hulk”, no já longínquo 2008. Mas a mulher-atriz Débora que aparece em “Pacificado” tem quilometragem de experiência e de vivência artística capaz de ombrear o tamanho do Golias da Marvel. É uma outra Débora… em imolação em nome do cinema, na mais comovente e rascante atuação de San Sebastián, entre as estrelas GG aqui vistas, em solo basco.
Tem outra mulher cujo olhar orienta o percurso de Tati… O olhar da amiga pinguça de Andréa vivida por Shirley Cruz, destaque de “Bom Sucesso”. Poço de carisma, ela encarna o lado Diaba da Terra do Sol onde a personagem de Cássia briga por um quinhão de sossego. Amiga âncora, que prende a colega na cachaça e no pó.

A jovem Cássia Gil vive uma testemunha da violência da periferia carioca

E eis que chega… como Charles Bronson em “Era uma vez no Oeste” (1968)… um olho-faca, uma mirada capaz de unir o tal “olhar” de Liv Ullmann com a tal “honra” de Bardem: a face resistente de Jaca. Dono do morro onde a trama se passa, num passado glorioso como líder do tráfico, ele regressa à sua comunidade depois de 14 anos de xilindró. Rgressa não para reaver o poder que perdeu, mas para se refazer do “que foi” e recomeçar “o que poderia ter sido”. É um Augusto Matraga da periferia, caído do cavalo, à espera de sua hora e de sua vez, um tanto reticente como o anti-herói de Guimarães Rosa. Sua chegada tem o tempo do trágico. Chega como chegava o cangaceiro Emerenciano, de “Os homens querem paz”, texto seminal de Péricles Leal, adaptado para a TV em 1991 por Luiz Fernando Carvalho. Emerenciano e Nhô Matraga observavam, curtiam o que havia de imperfeito no pretérito, ruminavam o silêncio. Jaca é desses. Como o Lobo Solitário dos mangás de Kazuo Koike e Goseki Kojima, ele tem uma Daigoro para chamar de sua… Tati, filha de um amor falido e brochado com Andréa.
Jaca retorna para uma realidade que anda triste, assombrada por uma visão intersticial das UPPs cariocas. Mais do que o fantasma de uma PM invasora, lá existe um Demônio nem um pouco dionisíaco batizado de Nelson, traficante com alma de Darth Vader, balançado entre seu lado Anakin e seu lado Império, encarnado a golpes de martelo por José Loreto. É um bandido ruim… mas cindido pela bissetriz de afetos tortos, de favores não pagos, de traições. Loreto lembra os vilões de Anthony Quinn: malvados, mas com recheio.
Nelson vê Jaca como um perigo. Andréa vê nele um covarde. Tati enxerga ali uma incerteza. E o morro espera dele uma espada que se desembainhe sedenta de sangue. A questão é que, ao contrário de Édipo e de Hamlet, Jaca pegou sua moira (destino) na mão e resolveu torcê-la a seu próprio favor. Sua sina, imposta pela política sociológica da Casa Grande brasileira, não cabe em seu peito de Yojimbo. O bushidô… a trilha da honra… de um samurai é um junco que se dobra em nome do equilíbrio. E equilíbrio é uma lei física que, na equação da brasilidade, nem sempre responde como ciência exata. Por isso, escolher seu próprio caminho é a forma de ele exercer seu fardo de samurai. Ser o Don Corleone de uma favela oprimida não é mais a Estrela de Belém que guia seus desejos… desejos de um guerreiro que envelheceu… desejos de um Ran que precisa dividir seu reinado.
Toda a poesia que brota desse estudo sobre fardos determinados por pressões sociológicas vem do instinto de investigação de Winters. Não é um filme Celso Furtado, nem Gilberto Freyre, nem de “homens cordiais”. É um filme de uma Era Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Luiz Eduardo Soares, Jailson de Souza, Julio Ludemir, Cacá Diegues e outros grandes pensadores da inclusão. É um filme mais Marcuse do que Adorno… mais questionador do que lacrador. Um filme que pode – e deve – dar a Débora e Bussaka prêmios ou menções honrosas. Um filme bonito e vivo, daqueles que doem, sobre olhos abertos e honras cerradas. Meio Liv, meio Bardem.

p.s.: Tem “Elle” (2016), de Paul Verhoeven, no Globoplay, levando o talento GG de Isabelle Huppert (indicada ao Oscar por seu desempenho como uma empresária dos games, vítima de um crime sexual) a novos públicos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.