‘Reality Show’ à moda 007: Bourne na telinha

‘Reality Show’ à moda 007: Bourne na telinha

Rodrigo Fonseca

20 de maio de 2020 | 17h14

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Perto de uma epifania da fricção como “Time to Hunt” (aqui, “Tempo de Caça”), joia sul-coreana do Festival de Berlim 2020, um filmaço como “Jason Bourne” soa como um melancólico réquiem para a resistência que o politicamente correto insiste em matar, mas que a pulsão estética da contemporaneidade impele a uma ressurreição sazonal. É dia do agente desmemoriado interpretado por Matthew Paige Damon na TV aberta: às 22h30, rola uma sessão desta pérola no “Cinema Especial da TV Globo. Marcus Jardym dubla Damon, que, aos 49 anos, voltará às telas em janeiro, à frente da aventura “The Last Duel”, de Ridley Scott. Há uma aura heroica que cai bem no ator, consagrado em 1997, em “Gênio Indomável”. O Bourne desta quarta é uma prova disso. Logo no início desta superprodução de US$ 120 milhões, ele é contatado por sua antiga paixão Nicky (Julia Stiles) e arranca dela a verdade de que o projeto para a “confecção” de um exército de espiões imbatíveis (como ele) tem a ver com seu pai, Richard Webb (o sumido Gregg Henry, de Dublê de Corpo), assassinado por um matador desconhecido. Com isso, a memória de Bourne volta a ter lampejos e ele parte pra cima de um dos chefões da Inteligência nos EUA e ex-amigo de Richard, o diretor Robert Dewey (Tommy Lee Jones, numa atuação de doer na alma). Dewey ativa um operativo com permissão para matar a fim de se livrar de Bourne: Asset (Vincent Cassel, igualmente iluminado). Mas nada disso vai deter o herói. A fera e a bela Tommy Lee Jones Alicia Vikander A fera e a bela Tommy Lee Jones Alicia Vikander Com inteligência, Greengrass (corroteirista com Christopher Rouse) monta um jogo de gato e rato levando consigo estratégias hiperrealistas que depurou filmando Capitão Phillips (2013). O timbre documental dos dois episódios Bourne que rodou antes estão lá, só que mais bem lapidadas, imprimindo tensão em fervura máxima sobretudo na sequência (antológica) de uma perseguição motorizada em Las Vegas.

Em 1988, no auge do prestígio popular de Richard Chamberlain por conta de projetos televisivos como “Shogun” (1980) e “Pássaros Feridos” (1983), o ator foi chamado para viver Bourne em uma minissérie da ABC, produzida pelos estúdios Warner, com Roger Young como diretor. A boa repercussão de produtos ligados a temas de espionagem em plena Guerra Fria garantiu ao produto uma audiência satisfatória, mas aquém do que Chamberlain alcançara antes. No início da década de 2000, logo após o 11 de Setembro, quando Hollywood buscava veículos para explorar o talento e o carisma de Damon, Bourne surgiu como uma aposta quemte. A nova versão de “Identidade Bourne”, com direção de Doug Liman, repaginou a cartilha da ação a partir de bases narrativas mais adequadas às novíssimas gerações. Mas foi com a chegada de Paul Greengrass, em “A Supremacia Bourne”, de 2004, que o herói e o próprio conceito de ação como gênero ganharam mais e melhores contornos. Laureado no Festival de Berlim com o Urso de Ouro por “Domingo Sangrento” (2002), Greengrass resolveu aplicar em um thriller os conceitos experimentais narrativos que alcançou no drama épico ao misturar recursos de filmagem típicos do cinema documental à ficção. O resultado foi uma espécie de “reality show versão 007”, no qual o hiperrealismo inerente ao documentário rendia cenas de violência mais vívidas e velozes. Um cult se fez, alimentado por um faturamento astronômico. Juntos, os três “Bourne” originais com Damon renderam US$ 944 milhões. O “Bourne” que a Globo revisita faturou US$ 415 milhões.

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