Rapha Montes, o ás do crime e o Dick Tracy da TV

Rapha Montes, o ás do crime e o Dick Tracy da TV

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2020 | 14h07

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Com planos para escrever um romance policial com ecos de terror, nos moldes de “O Bebê de Rosemary”, Raphael Montes – atual ás da literatura nacional de mistério, crime e investigação, responsável por joias literárias como “O Vilarejo”, de 2015, e “O Jantar Secreto”, de 2016 – mergulha nesta pandemia na obra de cineastas autorais e realizadores que brilharam mesmo sem ter uma marca pessoal, indo de Stephen Frears a Johnny To. Anda apaixonado pelo inglês Alan Parker (“Mississippi em Chamas”) e se prepara para estudar a obra da argentina Ana Piterbarg (de “Todos Temos Um Plano”). Cinema, na rotina de alguém que é hoje um pilar pop da prosa brasileira, é paixão, é aprendizado e é processos, como se vê num esperadíssimo par de longas-metragens “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” – sobre o assassinato associado a Suzane von Richthofen – que traz o nome do autor nos créditos. Montes conta ao P de Pop que os filmes estreiam quando nosso circuito reabrir e voltar ao funcionamento normal, lembrando ainda que a Netflix vai lançar uma série, também com a grife dele, baseado em “Bom Dia Veronica”, livro que escreveu junto com Ilana Casoy, com o pseudônimo de Andrea Killmore, em 2017. Toda a produtividade desse contador de histórias de 29 anos virá à tona hoje à noite, às 21h, numa live sobre o ofício do roteiro no Gabinete Digital de Leitura, no YouTube e no GShow. Quem conduz o bate-papo é Gustavo Gontijo, o Dick Tracy da dramaturgia televisiva. Ele e Montes vão falar da poética de escrever sobre crime, sobre o fascínio do Mal na arte e sobre multimídia.

“Meu principal universo de interesse é conhecer as ferramentas narrativas de cada uma das plataformas da arte de contar histórias, dominando os elementos que o cinema, a TV e a literatura podem me oferecer. Num romance, você pode resolver numa linha, com apenas uma frase, a expressão de um sentimento que, no audiovisual, vai consumir várias cenas. Já o cinema encontra, algumas vezes, uma cena de ação como solução climática de uma história. Isso, na literatura… de usar a ação como clímax… pode soar bobo. Qual é o limite entre o que é literário e o que é imagético”, diz Montes, que colecionou críticas elogiosas com seu mais recente romance: “Uma Mulher no Escuro” (Cia das Letras). “O que eu busco, sempre, seja na prosa, seja em roteiro, é explorar a psicologia humana. No gênero policial, estou mais para Patricia Highsmith do que para Agatha Christie”.

Autor de “Dias Perfeitos”, hoje publicado em 25 países, Montes aponta “Pequenos Incêndios Por Toda Parte”, de Celeste Ng, como o melhor livro que leu nesta 40ena. “Reli também ‘On-Filmaking’, de Alexander Mackendrick, que é uma leitura obrigatória para quem deseja se expressar pelas vias da imagem. E é sobre isso que vou conversar hoje na live com o Guto Gontijo”, diz Montes, que usou todo o seu domínio sobre as manhas investigativas do mistério para escrever os filmes sobre o Caso Richthofen.

Esse é o nome pelo qual tornaram-se conhecidos o homicídio, a consequente investigação e o julgamento das mortes de Manfred Albert von Richthofen e Marísia von Richthofen, casal assassinado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, a mando da filha Suzane von Richthofen. “O convite pra esses filmes veio do diretor Maurício Eça e da produtora Santa Rita Filmes. Eles convidaram a Ilana Casoy, que é criminóloga e especialista neste caso. Ela acompanhou de perto toda a investigação e o júri. Então Ilana me convidou para escrever junto com ela esse filme. A ideia original deles era fazer uma história contando o pós-crime, toda a repercussão da imprensa e desdobramentos”, explica Montes. “Quando nós chegamos no projeto, eu e a Ilana levantamos a ideia de que o que realmente interessava é o que veio antes do crime. Eu perguntei para a Ilana como era essa família, pois essa era a minha curiosidade, e ela me respondeu que não sabia a verdade e sim o que eles disseram. A partir disso, eu trouxe algumas referências de filmes que eu adoro, tipo ‘Rashomon’; um francês chamado ‘Bem Me Quer, Mal Me Quer’; e a série ‘The Affair’. Neles, há histórias que trabalham com versões. Então tivemos a ideia de fazer um filme em duas versões. A versão da Suzane von Richthofen, para ter feito o que fez, e a versão do Daniel Cravinhos, para ter feito o que fez. Era um filme dividido em duas metades, em que a primeira porção contava a versão dela e, a segunda, a versão dele, que foi a justificativa apresentada por eles no tribunal do júri. Mas são versões completamente opostas. Essa foi a ideia original do filme. A partir daí, a distribuidora e produtora Galeria, em parceria com a Santa Rita Filmes, decidiram pegar as duas metades e dividir em dois filmes. Então serão dois filmes nos cinemas, um chamado ‘A Menina que Matou os Pais’, que é a versão do Daniel Cravinhos. E tem outro, chamando ‘O Menino que Matou Meus Pais’, que é a versão da Suzane.

Desde que a quarentena começou, o Gabinete Digital de Leitura, de Gontijo, produziu ricas conversações sobre a arte de se fazer televisão e cinema, ouvindo Duca Rachid, Lázaro Ramos, Fernando Bonassi, Rosane Svartman, Thema Guedes, Adriana Falcão, Jorge Furtado, Antonio Prata, Marçal Aquino, Carla Faour, Mauro Wilson, Julia Spadaccini, George Moura, Antonio Prata, Carolina Kotscho, Alexandre Machado, Braulio Mantovani e Halder Gomes. Todos esses papos podem ser vistos no YouTube. Oxalá Gontijo os transforme em livros, pois são aulas sobre vivência na seara dramatúrgica. Juntos, eles formam um curso de escrita criativa.

p.s.: Esta noite, às 20h, a página no Facebook do professor Welbson Viana promove uma necessária live sobre violência doméstica com a assistente social Fernanda Araújo, o policial Jorge Abrolhos e o advogado Pierre Pontes Gaudioso, uma referência no país no atendimento a vítimas de agressões.

p.s.2: Nesta quinta-feira, às 18h, na véspera do Dia dos Namorados, Alice Braga, Gabriel Leone e o diretor René Sampaio conversam sobre o filme “Eduardo & Mônica” em uma live sobre amor e cinema no Instagram da Globofilmes.

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