‘Rambo’, vívido ‘até o fim’, em Blu-Ray

‘Rambo’, vívido ‘até o fim’, em Blu-Ray

Rodrigo Fonseca

21 de dezembro de 2019 | 10h47

Rodrigo Fonseca
Mesmo alvejado pelo mimimi de uma ala menos tolerante da crítica, “Rambo: Até o Fim” (“Last Blood”), que conquista agora um espaço em Blu-Ray, conseguiu rodar 57 países entre 18 de setembro e 23 de outubro, arrecadando US$ 91 milhões. Nesse trajeto, impulsionado por uma homenagem a Sylvester Stallone no Festival de Cannes, em maio, seu protagonista foi convidado para o projeto “Samaritan”, no qual interpreta um super-herói aposentado. Em paralelo, Derek Wayne Johnson, um dos mais ativos documentaristas dos EUA hoje, lançou em festivais as produções “Stallone: Frank, that is” e “40 Years of Rocky: The Birth of a Classic”. O culto ao astro só fez crescer.
Sobre o último “Rambo”…
Imagens documentais de arquivo da guerra do Vietnã rasgam a pele ficcional de “Rambo: Até o fim”, de um inusitado para os padrões memorialísticos da franquia, como num balizamento de fatos históricos. Fatos que moldaram a sangue o barro do qual John Rambo é constituído. São espasmos, vestígios de um pretérito imperfeito que ele doma com comprimidos de um frasco laranja. Pretérito que fica cada vez mais presente graças a uma falha – da Natureza – ocorrida em uma operação informal de resgate realizada por ele no preâmbulo do quinto filme de uma saga aberta em 1982. Em meio a uma chuva, o ex-combatente, hoje radicado no rancho de sua família, tenta salvar pessoas de uma inundação, em meio a uma tempestade, mas falha. Não é a idade que trava sua eficiência, mas sim o clima e o relevo. A paisagem é bem diferente das selvas da Ásia onde ele inscreveu sua coragem na pedra da imolação. Falhar agora parece ser um verbo inerente à sua rotina, afinal, já há sete primaveras em seu corpo… ou melhor, sete outonos, pois nada mais parece florescer na alma de Rambo, fora uma sobrinha amada, a estudante Gabrielle (Yvette Monreal). Com ela há um vínculo que mantém pulsante o resto de coração naquele corpanzil animado pelo carisma grisalho de Sylvester Stallone. “Last blood”, o novo “Rambo”, preparou sua estreia a partir da passagem pelo ator no Festival de Cannes de 2019, em maio, a fim de alcançar circuitos globais em 19 de setembro. E esse alcance contou com a mais requintada operação de mídia da carreira do astro em anos. Numa era dominada por super-heróis, num ano onde um único filme de ação à moda antiga (“Invasão ao Serviço Secreto”, com Gerard Butler) dominava as salas de projeção, às vésperas da volta de Rambo, Stallone ofereceu às plateias o ocaso do heroísmo OMAC (One Man Army Combat), o Exército de um Homem Só.
Seu Rambo, cansado de guerra feito “Tereza Batista”, lembra do Vietnã não mais na primeira pessoa, como se viu no longa de Ted Kotcheff, revivendo as torturas lá vividas: a memória da guerra agora se dá como documento. Passaram-se dez anos desde “Rambo IV” (2008). Pouco se fala sobre os embates entre as matas vietnamitas e seu cheiro de napalm. Agora estamos com combates nos cartéis da América Hispânica, que fica bem ao lado de seu rancho. O CEP do inimigo agora é mexicano, mas não por uma alteridade racista, mas sim por impunidades das mais diversas. “A polícia de lá não faz nada”, diz o herói, numa cena de perplexidade, quando sua Gabrielle é levada dele e transformada em refém de traficantes de escravas sexuais. Como responsável pelo bem da jovem seu papel paternal de tio que cuida, Rambo precisa ir atrás dela e encarar todos os males do mundo torto que se edificou em uma época sem ideologias. É dever dele copiar um outro “tio” lendário da ficção, Ethan Edwards, vivido por John Wayne em “The Searchers” (1956).

Como Edwards, um herói vencido da Guerra de Secessão dos EUA, Rambo também ostenta medalhas de derrota – e não se trata da jovem que a chuva levou, no início do filme. Ali era só mais uma garoa. Agora, no México, vem o vendaval. Os ventos que sopravam contra o caubói soldado de Wayne carregavam o bafo do racismo, numa reflexão do cineasta John Ford contra o racismo institucionalizado contra os índios: era uma tribo que roubava a sobrinha de Ethan. Agora, a Natalie Wood desta “crônica de uma morte anunciada” (a morte do heroísmo pop do cinema de ação clássico) não é cercada de conflitos raciais. Não há uma percepção de valores excludentes contra o povo do México. Gabrielle é de lá, assim como a senhora que a educou, Maria (Adriana Barraza). O perigo não vem da língua espanhola imposta pela colonização: o risco vem do tráfico, do submundo organizado. É ali que Rambo vai se meter. E é uma floresta tão densa quanto as do Vietnã, mas sem combustíveis de Cold War, sem East vs. West. Há só ruindade. “Você não sabe o quanto de Mal pode existir no coração dos homens”, avisa Rambo à sua querida menina.
Essa percepção dele, estruturada pela direção sólida de Adrian Grunberg, como um juízo moral de quem feriu-se demais, aumenta o amargor que perpassa toda a narrativa – de adrenalina crescente. Com a mesma desenvoltura informal que imprimou em “Plano de fuga” (2012), com Mel Gibson, Grunberg tira a cinessérie “Rambo” da zona de conforto do épico e dá ao quinto tomo das peripécias do herói um tom de filme B. Da maquiagem à direção de arte, com direito a um coração eviscerado a tapa, nada dispõe do verniz plástico dos tempos de Kotcheff e George Pan Cosmatos (o realizador do II, “A missão”). Em “Até o fim”, dublado aqui por Luiz Feier Mota, temos um “Rastro de ódio” talhado na cortiça, áspero, com farpas. A fotografia de Brendan Galvin (de “Atrás das linhas inimigas”) dispensa o charme do chiaroscuro e aposta no ocre, deixando o sol raiar só nas poucas cenas de placidez. Com seu esqueleto banhado pelo adamantium da brutalidade, Rambo sabe o valor singular de apreciar um amanhecer. Ele é um caubói… como Ethan Edwards. Como ele, Rambo aprendeu, um dia, a homilia de Gary Cooper em “Matar ou morrer”: um homem tem que fazer o que um homem TEM que fazer. Mas, antes, o verbo “ter” rezava pela desinência de uma pátria amada. Mas essa sua pátria hoje vive acossada pelo crime, pela corrupção, pelo sucateamento da Justiça como um valor inerente ao processo civilizatório. Talião é criminoso, mas do que os bandidos que furam sua pele e sua carne: o dente por dente é um delito grave.
Num mundo como esse… da aridez da ternura… do desdém com o velho modelo do lobo que se tornou solitário pela desatenção das matilhas… não há lugar para old men. Rambo é uma relíquia de um museu condenado (ao gueto nerd… ao gueto pop). Restar-lhe-ia errar. Mas há coisas que ficaram guardadas em seu porão. E eles não têm idade. E não respeitam os jugos do moralismo. Pontiagudas como sua faca afiada, essas coisas, ainda selvagens, talvez possam ser chamadas de “barbárie”, assim com o mesmo B dos filmes que esnobam a geometria da pedra polida. “Rambo: Até o fim” é pedra lascada. Mas diante da civilização que temos hoje, desleal com a tradição, que barbarismo é o seu, senão a resiliência… a poesia triste e trágica da resistência.

p.s.: Na busca por produções mais midiáticas para sua 70ª edição, o Festival de Berlim, que está agendado de 20 de fevereiro a 1º de março, parece estar de olho em “The Postcard Killings”, do bósnio Danis Tanovic. O filme promete ser um dos grandes sucessos de bilheteria da Europa este ano. Jeffrey Dean Morgan e Famke Janssen encabeçam o elenco deste policial sobre o assassinato de uma jovem em Londres. Fala-se ainda de “Home”, primeiro longa da atriz Fanka Potente como diretora, centrado no regresso de um presidiário recém-libertado a seu lar. Espera-se muita mídia também para “My Salinger Year”, produção canadense pilotada por Philippe Falardeau, e estrelada por Sigourney Weaver no que promete ser o melhor desempenho dela em anos. Há ainda uma promessa de holofotes quentes em torno em torno da coprodução luso-brasileira “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, na qual João Botelho dirige Chico Diaz com base na prosa de José Saramago.

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