‘Rambo’, versão brasileira: Luiz Feier

‘Rambo’, versão brasileira: Luiz Feier

Rodrigo Fonseca

04 de outubro de 2019 | 11h29


RODRIGO FONSECA
Há um documentário sobre as quatro décadas de sucesso de Rocky Balboa sendo gestado, nos EUA, pelo diretor Derek Wayne Johnson (de “King of Underdogs”), neste momento em que Sly – apelido de Sylvester Stallone – dribla o conservadorismo e a patrulha moralista para fazer de “Rambo: Até o fim” (“Rambo: Last Blood”) um sucesso de bilheteria. Orçada em US$ 50 milhões, a quinta aventura do ex-combatente do Vietnã, criado na literatura pelo escritor David Morrell, já faturou US$ 60 milhões pelo mundo afora, com 575 mil ingressos vendidos no Brasil em suas duas primeiras semanas em cartaz. Em território nacional, o filme dirigido por Adrian Grunberg chegou coalhado de cópias dubladas, tendo o gaúcho Luiz Feier Motta como a voz oficial de Stallone no país. Desde 1993, ele se responsabilizou em ser a versão brasileira do astro nova-iorquino de 73 anos.
“Eu o respeito muito. Tenho o maior prazer em dubla-lo, apesar das criticas que Stallone recebe dos setores mais intelectualizados da mídia. Mas ele tem o seu valor dentro do nicho que ele escolheu, atendendo ao público que gosta dele”, diz Feier, que empresta seu vozeirão para narrar trailers de uma série de filmes hollywoodianos lançados no Brasil. “Stallone não para, é de uma vitalidade impressionante. E assim ele vai mantendo o público dele mesmo já com 70 e poucos anos. Eu acho que ele merece todo o nosso respeito em função disso. É um cara que não para. Ele tem os seus objetivos e vai em frente. É um destemido, a exemplo de seus personagens. Esse cara merece todo o respeito como profissional do entretenimento e do cinema”.

Um dos atores mais requisitados pela dublagem brasileiro, Feier, vive em Caxias do Sul e grava muitos de seus trabalhos lá mesmo, enviando sua voz para os maiores estúdios do Brasil. Na entrevista a seguir, ele disseca a força estética de Sly como ídolo popular.
Como começou sua história com Stallone? Que outros atores ou personagens famosos vc já havia dublado antes dele?
Luiz Feier:
Fui assistir o “Rambo 5” e a dublagem ficou bem legal, bem bacana. É a minha avaliação, evidentemente, mas acho que ficou bem legal. Tudo começou no final de 1992 e início de 1993. Na época, o André Filho, por razões que desconheço, saiu da Herbert Richers – pediu demissão e foi embora. E, em seguida, chegou o filme “Risco Total” para ser dublado. O André Filho não estava mais na casa. Naquela época, na Herbert Richers, só dublava quem era funcionário, quem era dublador contratado, ou seja, com carteira profissional assinada. De fora, não se trabalhava na empresa, não se dublava como freelancer não. Eu estava contratado na época. Estava no lugar certo, na hora certa. Fizeram testes para o Stallone. Eu fiz o teste, mas provavelmente outras pessoas também fizeram. Não sei quem fez os testes, porque a gente fazia o teste individual, em horários diferentes. Então, eu não sei quem mais foi testado, mas eu acabei sendo o escolhido. E acho que quem escolheu foi a própria TV Globo na época, porque o filme “Risco Total” iria para a emissora (algumas fontes falam na Band). Fui escolhido e a partir disso, na Herbert Richers, e passei a dublar todos os filmes do Stallone que apareceram. Veio uma leva de filmes em seguida. Depois o André faleceu, mais adiante em 1997. E, a partir disso, passei a dublar o Stallone também em outras empresas, em outras casas de dublagem. Com a morte do André, eu passei a ser chamado para dubla-lo nas outras empresas, que estavam dublando com o André ainda. Havia muita mescla nessa época. Depois disso, eu redublei vários filmes do Stallone que o André tinha dublado. Por questões técnicas, naquela época se dublava em fita magnética. Depois veio a fita digital, depois o Software e a qualidade foi melhorando.
Que outros atores famosos você dublei antes do Stallone ou em paralelo à sua escalação para ser a voz brasileira de Sly?
Luiz Feier:
Os astros de que eu me recordo são: Michael Paré, em “Ruas de Fogo”, um filme clássico do cinema dos anos 1980; no desenho animado do Garfield, eu dublei o John… fui o primeiro dublador do dono do Garfield; dublei o Jack Lemmon no papel de Baxter em “Se Meu Apartamento Falasse”, filme em preto e branco. E fiz outras coisas: dublei o Sidney Poitier em “Ao Mestre Com Carinho”; teve o desenho animado “Cavalo de Fogo”, no qual eu dublava o próprio animal; teve o Cavalo da She-Ra. Era o tempo da Xuxa na TV Globo. A gente dublava desenho animado o dia inteiro. Eu não lembro agora quais eram os outros personagens. Teve “Thundercats”, também. É uma infinidade de personagens antes do Stallone.
O que Rambo, como personagem, traz como desafio à sua representação com a voz?
Luiz Feier: Eu acho que o desafio de todo bom dublador é fazer a melhor dublagem possível. Eu, particularmente, com relação ao Stallone, em especial, procuro me aproximar o máximo possível do original. O desafio que eu vejo é o tom de voz do Stallone nos filmes. Aquele tom mais baixo, mais contido. Ou o mais grave, que é difícil. Em uma cena de emoção, você tem que subir o tom. Subir com o grave e ficar quase que rouco. Mas o trabalho é procurar chegar o máximo possível no tom de voz dele. Procurar imita-lo da melhor forma possível. Fazer igual é impossível, mas chegar o mais próximo possível do original. Fazer uma boa dublagem, então, é associar tom de voz e sincronismo. Hoje, o Stallone está mais fácil de ser dublado. Anos atrás, era mais difícil. Aquela boquinha dele meio torta dele, às vezes, dava trabalho. Mas hoje, ele está bem amadurecido, está mais tranquilo. Já não quer mais inventar tanto.

O que John Rambo tem como diferencial, como herói?
Luiz Feier:
Os personagens do Stallone, em geral, são sempre os heróis. Aquele herói destemido, que não tem medo, que enfrenta os desafios e vai à luta, não interessa quem esteja à frente. E, de maneira geral, ele sempre consegue atingir seus objetivos, o que motiva as pessoas. Acho que o ideal do ser humano é esse: estabelecer um objetivo e atingi-lo sem medo. Ele vai em frente, confiante, com respeito por si mesmo e autoconfiança, sabendo do potencial que tem. Vai à luta. Esse é o diferencial dos personagens do Stallone, nos heróis que ele cria: Rambo, Rocky e todos os outros.
Que elementos poderiam justificar a química que Stallone tem com o público cinéfilo a quase cinco décadas?
Luiz Feier:
A química é essa que eu falei acima: esse biotipo do herói destemido, do cara que vai à luta e consegue vencer. O cara que enfrenta todos os desafios, vence e chega lá. É a vitória do ser humano nessa vivência terrena em que estamos. Ele atinge os objetivos dele e isso é o sonho de toda pessoa. Além de que o Stallone, inteligentemente, explorou um nicho bom de ação, com adeptos fiéis. Quem gosta de ação assiste a “John Wick”, assiste ao Stallone, ao Schwarzenegger. O filão tem o seu público cativo. A própria característica de um filme como “Rambo; Até o fim”, chamado “filme raiz”, sem efeitos. Isso também tem seu público cativo, por parecer bem natural. Eu acho que ele explorou muito bem que esse nicho, no qual se mantém até hoje. Ele raramente ficou fora da mídia. Ele começou nos anos 1970, fazendo sucesso com “Rocky”. Acho que ele bancou sozinho, escreveu, dirigiu, atuou, fez tudo, ganhou alguns Oscars e nunca mais parou. Ele não deixou um hiato. Todo ano tinha um filme do Stallone. Ele manteve o público dele sempre com alguma coisa para ser vista, algum filme para ser visto. Isso é a minha impressão pessoal. Ele sempre trabalhou, fazia um filme atrás do outro, dois por ano. Eu o considero um dos mais longevos do cinema. Está com 70 e tantos anos e continua atuando. E me parece que vem aí “Mercenários 4”.

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