‘Rambo’ nas telas: Sly e o ocaso dos heróis

‘Rambo’ nas telas: Sly e o ocaso dos heróis

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2019 | 20h08


RODRIGO FONSECA
Esquenta cada dia mais o namoro da mídia com Sylvester Stallone, num romance que voltou a ferver em janeiro de 2016 – com a conquista do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante pelo veterano ítalo-americano – e que, agora – com a estreia de “Rambo: Até o fim” – vive seu apogeu. Aos 73 anos, Sly, como é apelidado nos EUA, é “o” assunto cinéfilo da vez, ombro a ombro com o (fenomenal) ganhador do Leão de Ouro de 2019, “Coringa”, atraindo resenhas apaixonadas em variadas línguas. Pipocam notícias sobre projetos novos do astro, começando pela potencial continuação de “Tango & Cash: Os Vingadores”, que completa três décadas. Há quem espere cifras astronômicas do regresso de John Rambo, encarado como uma redenção para o cinema de ação, hoje em alta graças ao sucesso global de “Invasão ao Serviço Secreto” (“Angel Has Fallen”), ainda inédito no Brasil. A badalação em torno do novo “Rambo”, lá fora chamado de “Last Blood”, começou no 72º Festival de Cannes, em maio, numa noite em que a França festejou os 50 anos de carreira do Rei Midas do filão “pancadaria” de Hollywood. Em 1993, ele passou pela cidade com “Risco total”, thriller de alpinismo que repaginou sua imagem. Agora, ovacionado com gritos de “Bravo!”, Seu Sylvester foi lá exibir cenas inéditas da quinta aventura de John J. Rambo, retomando a figura do ex-combatente do Vietnã. Figura essa responsável por ampliar a popularidade que ele começou a construir após o Oscar de melhor filme dado a “Rocky, um lutador” (1976). De quebra, trouxe à Croisette uma cópia digital inédita de “Rambo – Programado para matar” (1982).
“Muita gente fala de Rocky e Rambo, mas eu tenho muito carinho por ‘Stallone Cobra’, cujo personagem é uma espécie de Bruce Springsteen com um distintivo. Ele fez muito sucesso à época e eu penso até hoje que poderiam fazer uma série com Cobra e sua força policial, o Esquadrão Zumbi, só que sem mim, que já não tenho mais idade para ele”, disse o ator ao Estadão, esbanjando bom humor.

Contando anedotas (“um dia o Schwarzenegger veio dizer que eu tenho sotaque falando… logo ele”) e disparando frases motivacionais (“você nunca pode baixar a guarda e deixar de socar os desafios”), Stallone foi tratado por Cannes, na conversa conduzida pelo crítico Didier Allouch, como um multiartista de verve autoral. De fato, desde 1978, quando filmou “A Taverna do Inferno”, ele dirige, roteiriza e produz. “Eu já fiz muito filme ruim, na entressafra entre projetos grandes que os estúdios armavam pra gente com muita antecedência. Às vezes, a minha filha mais nova vê algo ruim que fiz na TV e me sacaneia: ‘Pai, como você emabracou numa m… dessas’. E eu digo: ‘Bom, eu precisava pagar seus estudos, né?”.

No novo “Rambo”, dirigido por Adrian Grunberg, ele vai combater traficantes de um cartel do México, para salvar sua sobrinha em perigo. “Embora tenha essa pequenina fazenda no interior dos EUA, ele vive em um esconderijo subterrâneo, parecido com os buracos em que precisou se esconder no Vietnã. É um homem com uma alma sombria”, antecipou Stallone, garantindo que depois de “Creed II” não vai fazer um novo filme da série Rocky Balboa. “Meus planos iniciais, nos anos 1970, quando filmamos ‘Rocky, um lutador’, em 29 dias, em 1976, era parar a série no terceiro filme. Mas havia mais coisa a ser contada. Quero parar agora. Tive até uma boa ideia, de fazer Rocky treinar um refugiado que quer ser pugilista. Mas não vai rolar”.

Allouch chegou a levantar a hipótese de que um Rocky em prol de imigrantes poderia irritar o presidente Donald Trump, mas Stallone logo cortou a provocação: “Não sou um animal político e nem tento fazer tratados sobre Poder nos meus filmes. Quando Reagan chamou Rambo de republicano, eu percebi que tinha um problemão nas mãos”, disse o astro, que sonha dirigir uma cinebiografia do poeta Edgar Allan Poe.

Imagens documentais de arquivo da guerra do Vietnã rasgam a pele ficcional de “Rambo: Até o fim”, de um inusitado para os padrões memorialísticos da franquia, como num balizamento de fatos históricos. Fatos que moldaram a sangue o barro do qual John Rambo é constituído. São espasmos, vestígios de um pretérito imperfeito que ele doma com comprimidos de um frasco laranja. Pretérito que fica cada vez mais presente graças a uma falha – da Natureza – ocorrida em uma operação informal de resgate realizada por ele no preâmbulo do quinto filme de uma saga aberta em 1982. “Não existe descanso para o guerreiro”, disse Sly, no lançamento do longa, em circuito americano.

Em meio a uma chuva, o ex-combatente, hoje radicado no rancho de sua família, tenta salvar pessoas de uma inundação, em meio a uma tempestade, mas falha. Não é a idade que trava sua eficiência, mas sim o clima e o relevo. A paisagem é bem diferente das selvas da Ásia onde ele inscreveu sua coragem na pedra da imolação. Falhar agora parece ser um verbo inerente à sua rotina, afinal, já há sete primaveras em seu corpo… ou melhor, sete outonos, pois nada mais parece florescer na alma de Rambo, fora uma sobrinha amada, a estudante Gabrielle (Yvette Monreal). Com ela há um vínculo que mantém pulsante o resto de coração naquele corpanzil animado pelo carisma grisalho de Sylvester Stallone. “Last blood”, o novo “Rambo”, preparou sua estreia a partir da passagem pelo ator no Festival de Cannes de 2019, em maio, a fim de alcançar circuitos globais em 19 de setembro. E esse alcance contou com a mais requintada operação de mídia da carreira do astro em anos. Numa era dominada por super-heróis, num ano onde um único filme de ação à moda antiga (o já citado “Invasão ao Serviço Secreto”, com Gerard Butler) dominava as salas de projeção, às vésperas da volta de Rambo, Stallone ofereceu às plateias o ocaso do heroísmo OMAC (One Man Army Combat), o Exército de um Homem Só.

Seu Rambo, cansado de guerra feito “Tereza Batista”, lembra do Vietnã não mais na primeira pessoa, como se viu no longa de Ted Kotcheff, revivendo as torturas lá vividas: a memória da guerra agora se dá como documento. Passaram-se dez anos desde “Rambo IV” (2008). Pouco se fala sobre os embates entre as matas vietnamitas e seu cheiro de napalm. Agora estamos com combates nos cartéis da América Hispânica, que fica bem ao lado de seu rancho. O CEP do inimigo agora é mexicano, mas não por uma alteridade racista, mas sim por impunidades das mais diversas. “A polícia de lá não faz nada”, diz o herói, numa cena de perplexidade, quando sua Gabrielle é levada dele e transformada em refém de traficantes de escravas sexuais. Como responsável pelo bem da jovem seu papel paternal de tio que cuida, Rambo precisa ir atrás dela e encarar todos os males do mundo torto que se edificou em uma época sem ideologias. É dever dele copiar um outro “tio” lendário da ficção, Ethan Edwards, vivido por John Wayne em “The Searchers” (1956). Estamos diante de um “filme de caubói”, de um “Bacurau” da “Sessão da Tarde”, de uma cerimônia de adeus, doída, mas regada a adrenalina.

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