Radu Jude, encouraçado da ironia em Locarno

Radu Jude, encouraçado da ironia em Locarno

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2021 | 15h34

Radu Jude e o Urso de Ouro para a Primavera Romena: cineasta saiu aclamado da Berlinale para brilhar em Locarno

Rodrigo Fonseca
Cinco meses se passaram desde que o diretor romeno Radu Jude recebeu um Urso de Ouro em sua casa, conquistado por “Bad Luck Banging or Loony Porn”, e ele já está pronto para conquistar outro troféu dourado dos grandes festivais da Europa. Agora seu alvo é o Festival de Locarno, na Suíça, em sua 74ª edição, onde exibe, nesta sexta, “Caricaturana”. É um filme que foi terminado em meio aos elogios colhidos por seu longa-metragem vencedor da Berlinale 2021, uma comédia no qual abordava a pandemia. Nela, uma série de advogados, militares e políticos mascarados julgavam o “cancelamento” de uma professora, cujas peripécias sexuais vazaram na internet.
“Sempre há lugar para expor nossas hipocrisias”, disse ele ao Estadão em Berlim.
Nascido em Bucareste, há 44 anos, o diretor volta agora com uma homenagem ao cinema e as artes gráficas. Com seu humor mordaz, ele resgata um projeto pouco citado do realizador soviético Serguei Eisenstein (1898-1948). O diretor de “O encouraçado Potenkim” (1925) idealizou um filme utilizando litografias sobre um personagem fictício da prosa e dos palcos franceses – o falsário Robert Macaire – feitas por Honoré-Victorien Daumier (1808 -1879), numa brincadeira com sentimentos. Seria uma espécie de “emocionário”, que traduzisse, a cada desenho, um estado de espírito. Mas Radu se apropria dessas litogravuras e, à luz de Eisenstein, faz uma cartografia de notícias do tempo atual, expressa a partir de textos que alteram a percepção do traço de Daumier.
“Nunca fomos tão dependentes da ideia de que o roteiro é o imperador das narrativas, dando a cada filme uma dimensão didática. Quero atomizar essa dependência entre palavra e ação filmada, dessacralizando o verbo, ironizando um momento histórico onde qualquer letra dita fora de contexto é um pavio aceso”, disse Jude ao Estadão na feitura de “Caricaturana”.

“Caricaturana”

Após o êxito de sua passagem por Berlim e do Urso, o diretor de “Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros” (2018) ganhou status de cineasta autor, fazendo jus à tradição de filmes provocativos da chamada Primavera Romena. O termo nasceu em Cannes, em 2007, quando “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu rendeu a Palma de Ouro à Romênia, consolidando um movimento que calcado em dramas sociais e comédias rascantes operacionalizados a partir de uma estética hiper realista, sempre referente à corrupções. “Eu sou pai de duas crianças. Ao frequentar uma reunião de escola, eu noto o quanto a vida anda bruta na Romênia e fora dela, pois o diálogo não é possível. Tento dialogar com autores, como Eisenstein, e com o mundo que vive tão avesso à harmonia. Só rindo…”, provoca o diretor, que entrou em Locarno pela vitrine Pardi di domani: Concorso Corti d’Autore .
Concorrem com ele cineastas que alcançaram status recente de cult, como a portuguesa Salomé Lamas (no páreo com “Hotel Royal”), o suíço Cyril Schäublin (com “Il Faut Fabriquer Ces Cadeaux”) e os franceses Yann Gonzalez (com “Fou de Bassan”) e Bertrand Mandico (“Dead Flesh”). E ao lado dele há um mestre, o italiano Marco Bellocchio (recém-laureado em Cannes com uma Palma honorária) de volta com “Se Posso Permettermi”. Há dois curtas brasileiros em concurso: “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, e o musical “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli.
“Curtas experimentam muito e alguns longas também, mas o cinema de hoje dá pouco valor à liberdade”, lamenta Radu. “Os diretores temem o caos, mas é dele que nasce a vitalidade”.

Jennifer Hudson em “Respect”

Dos longas-metragens em competição pelo Leopardo de Ouro, “Petite Solange”, da diretora Axelle Ropert, da França, é o primeiro destaque de Locarno, narrando a desagregação de uma família, entre traições e decepções de um casal (Léa Drucker e Philippe Katerine), do ponto de vista de uma menina (Jade Springer). Nesta sexta, dois filmes prometem sacudir as telas suíças: “Hinterland” e “Il Legionario”. O primeiro marca a volta às telas do diretor austríaco Stefan Ruzowitzky, ganhador de Oscar por “Os Falsários” (2007), numa trama sobre um soldado que volta dos fronts incumbido de caçar um psicopata. Já o segundo parte do olhar do cineasta bielorrusso Hleb Papou sobre um policial de origem africana numa Roma xenófoba. O festival chega ao fim no dia 14 com a sessão de “Respect”, com Jennifer Hudson vivendo a cantora Aretha Franklin (1942-2018).

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