Rachid Bouchareb transforma Omar Sy num tira da pesada

Rachid Bouchareb transforma Omar Sy num tira da pesada

Rodrigo Fonseca

02 de julho de 2019 | 15h30

O diretor Rachid Bouchareb em foto de © Philippe Quaisse / UniFrance feita na divulgação mundial da comédia policial com Omar Sy

Rodrigo Fonseca
À 1h50 desta madrugada, a TV Globo vai exibir um dos mais divertidos trabalhos do ator Omar Sy, francês com DNA mezzo Segenal, mezzo Mauritânia, que é um darling das bilheterias do Velho Mundo: “Samba” (2014). Nele, rimos e choramos com a luta de um imigrante cheio de bossa pra se manter em solo francês. Constantemente, Sy brilha na venda de ingressos em seu país, sobretudo em Paris, como se viu, no ano passado, com “Le flic de Beleville”, que garantiu ao P de Pop um papo com o brilhante cineasta Rachid Bouchareb, em janeiro, numa passagem do Estadão pela Cidade Luz. O filme, só em sua estreia em telas parisienses, vendeu 250 mil tíquetes. Cronista de relações pautadas pela lealdade, em contextos de intolerância, o diretor argelino, nascido em Paris, Bouchareb, consagrado por filmes como “Dias de glória” (2006) e “London River” (2009), encontrou no humor uma forma de afiar e popularizar seu ferramental político. Ainda inédito por aqui, “Le flic de Beleville”, seu último trabalho, refinou seu diálogo com o público das grandes e pequenas salas exibidoras. E o tempero essencial de sua receita é Sy, astro do fenômeno “Intocáveis” (que vendeu cerca de 20 milhões de ingressos só na França, em 2011). Ele é o astro deste thriller de tons cômicos, parecido com “Um tira da pesada” (1984). Nele, Sy brinca de Eddie Murphy na pele de um policial francês, o detetive Sebastian ‘Baaba’ Bouchard, numa cruzada (atrapalhada) de vingança em Miami. A boa arrancada do longa-metragem nas bilheterias europeias fez com que Bouchareb recebesse tratamento vip no início deste ano, no Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, evento realizado anualmente em Paris pela Unifrance. É ela a instituição responsável pela promoção do audiovisual francófono no mundo. Num bate-papo num hotel parisiense, o Collectionneur, Bouchareb faz uma análise geopolítica da arte de filmar. Sy, neste momento, está terminando de rodar o longa “Police”, sob a direção de Anne Fontaine, baseado em texto de Hugo Boris.

O astro francês tira sarro da polícia americana

P de Pop: Ao filmar com um astro do quilate de Omar Sy, dando a ele um personagem similar aos policiais vividos por Eddie Murphy, o senhor tem em mãos algo próximo de um herói. Qual é o lugar do heroísmo no seu filme?
Rachid Bouchareb: 
Fiz um filme, há dez anos, chamado “London River”, no qual um africano muçulmano já idoso ia para a Inglaterra atrás de seu filho, desaparecido após um atentado. Pra mim, aquele velho, bem simples, assumindo seus deveres de pai, é um herói. O heroísmo no meu cinema é o espelho das causas sociais. O policial vivido por Omar encarna a imagem do afrodescendente deslocado, tentando a vida na França, às voltas com racismo, com corrupção e com resquícios do escravagismo de séculos passado. Meu herói não é aquele que resolve o problema, é aquele que expõe uma crise, que retrata uma contradição.

P de Pop: Qual foi o fruto mais significativo de sua investida no humor?
Rachid Bouchareb: 
Eu procurei fazer uma comédia que me permitisse criticar uma série de problemas relacionados à diáspora africana, começando pela questão da imigração e indo para temas como o preconceito racial e a ação de autoridades corruptas. Ao mesmo tempo, ao falar da polícia dos EUA, mostro a presença de latinos, sobretudo cubanos, entre os agentes da lei. O desafio era fazer essa reflexão multicultural sem ser didático e sem levantar bandeiras. Para evitar isso, eu enxugo diálogos. Confio na imagem.

P de Pop: Na trama de “Le flic de Beleville”, Baaba, o policial vivido por Omar Sy, viaja a Miami para se vingar da morte de um amigo e, lá, trava amizade com um agente local, vivido por Luiz Guzmán, com quem forma uma leal relação. A lealdade costuma ser a questão central de sua obra. Qual é o sentido de se falar de pessoas leais nestes tempos de intolerância?
Rachid Bouchareb: 
É uma forma de desafiar a polarização que vivemos hoje, onde todos ou são pró ou são contra um assunto qualquer. Não há mais moderação lá fora. Mas, no meu cinema, há. Meu assunto é o encontro, a coalisão de olhares e culturas. Não é só Trump que constrói muros para separar as pessoas. Há muitas fronteiras, mas há, também, muita gente para transpor limites.

P de Pop: E de que maneira o contexto político da França de hoje favorece seu olhar?
Rachid Bouchareb: 
Temos uma França lotada de africanos que lutam para sobreviver. Da mesma maneira, há muitos franceses vivendo em solo africano, buscando outras formas de viver. A questão é a dificuldade de sobrevivência com o que se ganha aqui, para um imigrante, assim como as dificuldades sociais na África. Só a tolerância e o equilíbrio podem fazer alguma diferença diante de um quadro desses.

Falando em Eddie Murphy, o eterno Axel Foley, promete dominar a Netflix este ano à frente do drama de tons cômicos “My name is Dolemite”.

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